quinta-feira, 22 de abril de 2010

O MUNDO LOUCO DE HARVEY KURTZMAN

Por André Forastieri
Tive umas melhores meia-horas da minha vida no sábado. Foi lendo a introdução e as primeiras trinta páginas de uma revista de cinquenta anos atrás. É a Humbug. Nunca ouviu falar? Vai ouvir agora. Era uma revista criada por Harvey Kurtzman. É um dos caras mais importantes da cultura mundial no Século 20.

Ainda vou ter tudo que ele fez, mas ainda estou longe, porque o desgraçado produziu muito. Sou fã de Kurtzman sem saber, quando criança. Porque ele criou a revista Mad. Que eu adorava e que foi uma influência gigante sobre a minha vida e a de tantos pré-adolescentes durante meio século. Mad zoava com tudo. Esculhambava o que havia de mais sagrado na América. Com graça e sem piedade. A Mad nos ensinou que tudo era ridicularizável. Nas mãos da “usual gangue de idiotas”, toda vaca sagrada virava hambúrguer.
O premiado cartunista Art Spiegelman, de Maus, resumiu muito bem: “A mensagem da Mad era: a mídia está mentindo para você – e nós fazemos parte da mídia.” A influência do humor de Mad está em todo canto, dos Simpsons a programas como Pânico e CQC. Como explicou o editor da Vanity Fair, Graydon Carter, que elegeu Mad como a sexta melhor revista jamais publicada: “a Mad já faz parte do oxigênio que respiramos”. E ela era ainda mais louca no começo, na Era Kurtzman. Algumas Mad da minha infância republicaram histórias da primeiríssima fase da revista, nos anos 50.
Fiquei louco ao ler essas histórias – O Sombra, Superduperman, Ping Pong. Nunca houve nem haverá coisa parecida. O crítico americano Brian Siano explica: “Para os garotos mais espertos de duas gerações, Mad foi uma revelação. Foi o primeiro lugar a nos dizer que os brinquedos que nos eram vendidos eram lixo, que nossos professores eram ignorantes, nossos governantes tolos, nossos líderes religiosos hipócritas, e até nossos pais estavam nos mentindo sobre quase tudo… essa geração cresceu e nos deu a revolução sexual, o movimento ambientalista, o movimento pacifista, liberdade na expressão artística e um monte de outras coisas boas. Coincidência? Você julga.”
Muita gente boa fez da Mad o que ela foi. Mas ela não existiria sem Kurtzman. Dizer que Kurtzman criou ou editou a Mad não explica sua importância. Ele fazia a Mad como antes fazia gibis de guerra lendários como Two-Fisted Tales e Frontline Combat. Ele bolava o argumento, diagramava, enchia as páginas de sketches (que os desenhistas eram obrigados a seguir), e escrevia os diálogos. De todas as histórias. De todas as revistas. Ele começou como desenhista de gibis de super-heróis. Logo entrou para um estúdio, em que dividia o espaço com futuros colegas como Dave Berg, John Severin e, surpresa, René Goscinny, futuro criador de Asterix. Ele escrevia melhor que um roteirista, desenhava melhor que a maioria dos desenhistas e editava melhor que qualquer editor da história dos quadrinhos. E com tudo isso Mad foi seu único sucesso – sendo que quando ele deixou a revista, em poucos anos a circulação quadruplicou.
Ele saiu porque queria mais grana e porque recebeu um convite do editor da Playboy. Hugh Hefner chamou Kurtzman para fazer uma versão chique da Mad, o título Trump. Mas a editora andava meio mal das pernas. Trump durou só duas edições. Hefner, se sentindo culpado, liberou um pedaço do seu escritório para Kurtzman, que lá montou sua “comuna” – uma revista que era sociedade entre cinco artistas: ele e mais Will Elder, Al Jaffee, Jack Davis e Arnold Roth.

Humbug não teve nem de longe o impacto de Mad. Durou onze números, vendeu mal e fechou. Misturava quadrinhos, charges, textos satíricos. Humbug não deu certo por várias razões de negócios que não importam mais. Quase ninguém viu Humbug, mas quem viu foi afetado. Por exemplo, Robert Crumb, que decidiu ser cartunista depois de ler a revista, e viria a ser o mais famoso quadrinista do underground americano.

Você pode ler suas histórias atuais na revista Piauí. Kurtzman não desistiu. Começou outra revista, Help!. Essa durou 26 números distribuídos em quatro anos, e foi a primeira oportunidade para colaboradores como o futuro cineasta Terry Gilliam, o futuro criador dos Freak Brothers, Gilbert Shelton, o futuro mestre do cartum sombrio Gahan Wilson, e a futura líder feminista e editora da revista Ms., Gloria Steinem. Ah, e também tinha colaborações de gente que já era bem importante, como os escritores Ray Bradbury e Arthur C. Clarke.
Foi na Help que Terry Gilliam encontrou pela primeira vez John Cleese. É uma das fundações do Monty Python, o grupo que revolucionou o humor britânico (e além) nos anos 70. Gilliam disse: “Mad foi a minha bíblia e da minha geração toda”. Que mais Kurtzman fez? Durante 26 anos, uma série muito sexy e engraçada para a Playboy, Little Annie Fanny, sempre com o parceiro Will Elder. Fez o roteiro do desenho “A Festa do Monstro Maluco”, uma das alegrias das minhas sessões da tarde. Animações para Vila Sésamo. Deu aula de cartunismo na School of Visual Arts. Mais umas histórias aqui e acolá, e uma história ilustrada dos quadrinhos. Nada assim muito histórico ou lucrativo. E aí morreu, meio sem grana, em 1993.



Desde 1988, os melhores criadores dos quadrinhos americanos ganham um prêmio, chamado Harvey Awards. É homenagem a Kurtzman. É pouco? Eu preferia que ele tivesse morrido milionário e que eu nem precisasse apresentá-lo a esta altura do campeonato. A vida dele não foi assim. A vida dele foi um fracasso após o outro, se você for medir pelo dinheiro. Ou um sucesso após o outro, se você for medir pela obra ou, mais importante até, pela influência. Quando ligo a televisão, vou ao cinema, entro numa banca ou assisto certos vídeos no YouTube, vejo a Mad, vejo Harvey Kurtzman. Não há honraria maior.

domingo, 18 de abril de 2010

IGGY & THE STOOGES: RAW POWER LEGACY EDITION (2010)

Como a indústria é cínica e adora vender a mesma coisa sucessivas vezes em novas embalagens e formatos, temos aqui mais um lançamento para os fãs dos Stooges comprarem. Esta fase da banda (1972-1974) é a que mais rendeu registros em bootlegs ao longo dos anos. A maioria deles com áudio de baixíssima qualidade. Foi também o período em que a banda mais produziu. Apesar das reservas de Iggy quanto a mixagem feita por David Bowie na época, Raw Power tornou-se um clássico, influenciando o punk e algumas vertentes do heavy metal. Em 1997 Iggy resolveu apresentar ao mundo a sua versão de Raw Power, remixando o álbum da forma que ele queria ter lançado em 1973.
Este Raw Power (Legacy Edition) é uma edição dupla de luxo que saiu agora a pouco. Esta é a terceira vez que o álbum é lançado em formato digital. O grande atrativo aqui fica por conta do registro de uma apresentação dos Stooges em Atlanta, em outubro de 73, que está no disco dois deste lançamento - de longe a melhor gravação ao vivo dos Stooges com performances desse período. O disco um é apenas uma remasterização do álbum original com a mixagem feita por Bowie em 1973. Quem quiser dar uma conferida o melhor é baixa logo, porque a moçada que anda patrulhando os blogs por aí não está pra brincadeira!


CD1:
01 - Search & Destroy
02 - Gimme Danger
03 - Your Pretty Face is Goin To Hell (originalmente intitulado Hard To Beat)
04 - Penetration
05 - Raw Power
06 - I Need Somebody
07 - Shake Appeal
08 - Death Trip

CD2:
01 - Introdução (Live At Richards Atlanta, outubro de 1973)
02 - Head On (Live At Richards Atlanta, outubro de 1973)
03 - Raw Power (Live At Richards Atlanta, outubro de 1973)
04 - Gimme Danger (Live At Richards Atlanta, outubro de 1973)
05 - Search & Destroy (Live At Richards Atlanta, outubro de 1973)
06 - I Need Somebody (Live At Richards Atlanta, outubro de 1973)
07 - Heavy Liquid (Live At Richards Atlanta, outubro 1973)
08 - Cock In My Pocket (Live At Richards Atlanta, outubro de 1973)
09 - Open Up e Bleed (Live At Richards Atlanta, outubro de 1973)
10 - Doojiman (outtake das sessões Para Raw Power)
11 - Head On (Ensaios)

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O LENDÁRIO CHUCROBILLYMAN AND HIS ONE MAN BAND ORCHESTRA

Após ouvir o disco “Chicken Walk” de Hasil Adkins em 2005, Koti deu início a seu projeto musical tocando tudo ao mesmo tempo: bateria, guitarra, kazoo e um megafone por onde faz os vocais. Assim nascia sua banda de um homem só “O Lendário Chucrobillyman Monobanda Orquestra”.

No seu som as misturas de punk, blues, rock de garagem, rockabilly trash originam um som minimalista, primitivo, com batidas repetitivas e hipnóticas que remetem à um tipo sórdido de se fazer rock n´roll. Em seu novo trabalho intitulado The Chicken Album, O Lendário Chucrobillyman nos apresenta canções baseadas na sonoridade da viola caipira brasileira e introduz "o estilo da galinha".O estilo da galinha como ele mesmo diz: é um estilo diferente de se tocar a viola caipira brasileira que consiste numa maneira mais rápida e percussiva que remete em parte ao delta blues, mas com uma sonoridade que é propria da viola caipira de 10 cordas. Todas estas composições foram baseadas na sonoridade deste instrumento mas com uma grande preocupação criativa no uso da percussão, que foi basicamente constituida de pedaços de ferro velho, latas de tinta, caixas de papelão e um tambor de lixo funcionando como bumbo.



The Chicken Album é um disco que percorre sobre a atmosfera rural onde a galinha é seu maior ícone, as canções possuem ritmos e alguns riffs que imitam o pio de uma galinha, estes se apresentam constantes em quase todas as canções se tornando a base do "estilo da galinha", porém o som da viola não é o mesmo que estamos familiarizados, pois foi distorcida e seu som ficou "sujo" por conta da influência do Rock'n Roll "selvagem" e do punk blues.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

SEXTON MING & HIS DIAMOND GUSSETS: ENDLESS DISCIPLINE (1993)

Mais uma das diabruras do incansável Sexton Ming - músico, poeta e artista plástico britânico, parceiro do não menos prolífico Billy B. Childish em diversas ocasiões. Ao apertar o play, prepare-se para encarar uma descarga ininterrupta de rocks genialmente toscos e desembestados. Desses que não te dão tempo nem pra respirar. Eis a essência do mais puro e deslavado garage rock! Para os neófitos, um aviso: este disco não é para qualquer um. Baixe e ouça por sua conta e risco.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Durante o estágio de vulnerabilidade, qualquer pessoa pode ser convertida a qualquer sistema de valores. Facilmente podemos ser induzidos a entoar "Hare Krishna, Hare Krishna" como "Jesus morreu por nós", ou a bradar "abaixo o Vaticano", aceitando plenamente as ideologias que estão por trás desses temas. O passo seguinte, na lavagem cerebral, consistirá em nos convencer de que qualquer pessoa que não partilhe dos nossos novos valores será sempre débil, estúpida ou louca.

Timothy Leary

segunda-feira, 5 de abril de 2010

HALF JAPANESE: MUSIC TO STRIP BY (1987)

O Half Japanese - ao lado dos Urinals e das bandas do mestre Billy Childish - é uma das melhores coisas já surgidas no universo low fi. Isso, evidentemente, é uma opinião minha, ok?! Fundada há mais de trinta anos pelos irmãos David e Jad Fair, o Half Japanese é provavelmente a banda de rock mais primitiva, inepta e divertida a aparecer neste planeta desde a sessentista The Shaggs. Ignorando detalhes irrelevantes, como harmonia, ritmo e melodia, o grupo conquistou corações e mentes de gerações, fazendo contemporâneos como os Ramones parecerem um quinteto de jazz. Esta é uma edição ampliada do décimo primeiro álbum da banda. Se você é uma dessas pessoas chatas que vivem atrás de "entretenimento adulto", fuja!

Link: Half Japanese - Music To Strip By (1987)