terça-feira, 30 de março de 2010

BANG BANG: UM FILME DE ANDREA TONACCI

Por Alcino Leite Neto
O talento excepcional de Andrea Tonacci fez de Bang bang, com suas imagens radicais e inventivas, um verdadeiro filme-laboratório. Durante muito tempo, é a esse filme que todos os experimentadores do cinema no país precisarão se voltar, para nele colher a experiência da liberdade e os variadíssimos ingredientes estilísticos e narrativos que o diretor soube oferecer na forma de cristais puros.
A começar da extraordinária fotogenia urbana de Bang bang, que tanto tem a ensinar aos realizadores brasileiros — muitos deles incapazes de filmar suas cidades fora do padrão publicitário telenovelístico. É impressionante que o filme tenha como parte dominante de seu “cenário” a provinciana Belo Horizonte dos anos 1960-70. O modo como Tonacci transforma essa cidade num dos ambientes do cinema moderno brasileiro é um verdadeiro tour de force.

Filme construído nos planos, mais que na montagem e no enredo, Bang bang destina à câmera uma autonomia explosiva. A segurança com que ela percorre ruas, invade interiores, segue personagens e também afronta estaticamente a cena é muito, muito humilhante para diretores medianos, que ficam a elucubrar, por minutos, se passam ou não do plano médio para o plano geral.

Em Bang Bang, Tonacci é completa vontade de potência cinematográfica. E, afinal, Bang Bang é um filme policial, em tom de sátira, cujos fundamentos provêm tanto das histórias em quadrinhos quanto do cinema burlesco. A narrativa quase não interessa, e mais um pouco até atrapalharia. Importa ao diretor extrair do personagem a sua intensidade visual e reduzir as cenas à condição de puro acontecimento cinematográfico, ou seja: de ilusionismo e catástrofe. Por isso este filme, sempre deliciosamente juvenil, amadurece como um dos documentos por excelência de sua época.

Link: Bang Bang, de Andrea Tonacci (1971)

Ficha técnica:

Produtora: Total Filmes
Produção excutiva: Luiz Carlos Pires Fernandes
Direção e roteiro: Andrea Tonacci
Fotografia: Thiago Veloso
Montagem: Roman Stulbach
Cenografia: Andrea Tonacci e Milton Gontijo
Elenco: Paulo César Pereio, Jura Otero, Abraão Farc, Ezequias Marques, José Aurélio Vieira, Antonio Naddeo, Milton Gontijo, Thales Penna

domingo, 28 de março de 2010

CHROME CRANKS: DEAD COOL (Crypt Records)

Os quinze anos que passaram desde o lançamento de Dead Cool, segundo álbum deste obscuro grupo nova-iorquino da região do Lower East Side, não envelheceram nada o disco. Entre sussurros e grunhidos, o vocalista Peter Aaron, um misto de Mick Jagger, Iggy Pop e Jeffrey Lee Pierce, narra suas crônicas do submundo ao som do mais despojado garage rock de que se tem notícia desde os tempos do velho Honeymoon Killers. Na verdade, sou meio suspeito para falar de qualquer coisa que o menino Jerry Teel se envolva... Vou deixar por conta de vocês a tarefa de avaliar este pequeno clássico do rock americano.

Link: Chrome Cranks - Dead Cool (1995)

segunda-feira, 15 de março de 2010

PUMP UP THE VOLUME ORIGINAL SOUNDTRACK (1990)

Esta é a trilha sonora de um filme pouquíssimo lembrado, realizado há vinte anos. Um filme que tentou retratar as agruras e os questionamentos existenciais da juventude norte-americana da época: a chamada geração X. Acredito que esta obra poderia ter logrado uma trajetória diferente se tivesse sido lançado um ano depois - na época em que o expoente máximo dos loosers da América atingiu o estrelato com o álbum Nevermind. Como toda trilha esta também tem seus altos e baixos. Abre com o Concrete Blonde interpretando um tema de Leonard Cohen, tem Peter Murphy num momento não muito brilhante, os Cowboy Junkies desenterrando uma jóia do repertório de Robert Johnson, Sonic Youth e Pixies aparecem em canções que você já ouviu milhares de vezes e os Bad Brains (com Henry Rollins nos vocais) descascam uma versão ferradíssima de Kick Ou The Jams do MC5.

sábado, 13 de março de 2010

MISÉRIA E VIOLÊNCIA EM JOHNNY MAD DOG, DE JEAN-STÉPHANE SAUVAIRE

Por Enderson Nobre
Com o filme ainda queimando em minha mente, começo este texto sobre um dos mais brutais dramas que assisti recentemente. Quando me deparo com dramas que enfocam situações violentas envolvendo crianças e, principalmente, acontecimentos no terceiro mundo, vem logo à cabeça a famosa "praga" de Glauber Rocha: “A estética da fome”, como um carimbo maldito estampado no filme.

É bem verdade que algumas realizações merecem essa marca, principalmente quando usam temas sociais - desgraças alheias - para puro entretenimento, a exemplo de “Diamante de Sangue”, de Edward Zwick. No caso de “Johnny Mad Dog”, a coisa é bem diferente. Teria que ser um filho da mãe patologicamente sádico para encontrar alguma diversão nesta realização produzida pelo cineasta/ator Mathieu Kassovitz.

O filme tem um realismo impressionante que chega a incomodar, tornando uma tarefa dolorosa acompanhar a história de garotos liberianos, transformados em máquinas de matar que servem, literalmente, de bucha de canhão nas mãos de calhordas que lutam pelo poder na Libéria. Não sou nenhum especialista na situação da Libéria ou outro país africano, mas é evidente que lideres corruptos manipulados por algum país do primeiro mundo ou uma corporação qualquer, utilizam crianças como peões num dos conflitos mais covardes da era moderna; provando que a capacidade de evolução da crueldade humana é ilimitada, embora esteja ciente de que não é de hoje que crianças são usadas em conflitos bélicos; a Igreja Católica sabe muito bem disso.

Contudo, abordar este tema tão complicado é um campo minado e precisa ter coragem e, sobretudo, habilidade na condução de uma fita como esta, tornando-se quase inevitável não evocar o neoclássico de Fernando Meireles, “Cidade de Deus”, já que as histórias têm a miséria e a crueldade como pontos que se assemelham. Embora o contexto no filme francês seja outro, os dois não transformam os dramas em um espetáculo constrangedor.

Em “Jonny Mad Dog”, acompanhamos uma milícia formada por crianças e adolescentes na tomada de pontos chave durante uma rebelião no já citado pais africano. “Os garotos seguem cegamente as ordens de militares; saem matando, estuprando e cometendo todos os tipos de atrocidades numa espécie de ‘‘limpeza étnica” ao molde dos Bálcãs. A diferença aqui é que em vez de militares a praticar tais barbaridade, temo crianças que sofrem lavagem cerebral, usam drogas (inclusive cocaína) como forma de estímulo para o combate, aumentando a confusão mental que os vai afundando cada vez mais num mundo sinistramente mágico.

segunda-feira, 8 de março de 2010

ANDRE WILLIAMS & THE NEW ORLEANS HELLHOUNDS: CAN YOU DEAL WITH IT?

Andre Williams, ídolo musical de figuras como Lux Interior e Jon Spencer, é um músico de R&B que durante os anos 50 gravou vários discos de sucesso e nos anos 60 trabalhou na lendária Motown. O destino, porém, reservou momentos de penúria para ele, que passou a maior parte dos anos 80 e 90 na rua lidando com vício em crack. Em 1998, aconteceu a grande virada - Dois de seus fãs, Mick Collins (ex-The Gories e atual Dirtbombs) e Dan Kroha (também ex-The Gories e Demollition Doll Rods), fizeram com o velho Andre Williams o mesmo que Jon Spencer fez a RL Burnside: ressuscitaram sua carreira, apresentando-o para uma nova geração de fãs de rock de garagem e R&B na contra-mão.



Em seus discos lançados a partir desse retorno, Williams passou a utilizar diferentes formações - na maioria das vezes compostas por jovens músicos. Para Can You Deal With It? ele escalou os meninos da New Orleans Hellhounds. A banda faz bem a sua parte, mostrando-se bastante entrosada ao velho músico, conseguindo injetar punch e lubricidade às canções. Um álbum para se ouvir do começo ao fim com um indisfarçável sorriso de orelha a orelha.