sábado, 30 de janeiro de 2010

TOM WAITS: SWORDFISHTROMBONES

Por Tiago Santana
Vou te falar, não é querendo ser pessoal demais, mas esse cara aí É DEUS! Não, semideus. Deus é o Frank Zappa, que Deus o tenha. Mas ele está no mínimo entre meus 5 artistas favoritos, sem dúvidas. Bem, a questão é: ele passou por algumas metamorfoses durante sua carreira, que começaria em 1971, com algumas demos "voz e violão/piano", estilo Freewhelin', antes do Bob Dylan usar guitarras elétricas. Eram músicas sobre amores mal resolvidos, fracassos, decadência, no melhor estilo. Sua voz ainda não era tão (incrivelmente) rouca, e os arranjos se baseavam em grande parte no jazz tradicional.

Sua voz foi ficando cada vez mais rasgada, provavelmente devido à enorme quantidade de birita, tabaco, etc... O que deixou as suas composições cada vez mais introspectivas e... sinceras! Por que não? Ouça ele cantando "Waltzing Mathilda" em Tom Traubert's Blues (do Small Change, de 1976) e não me diga que não ficou emocionado? O último disco dessa chamada fase "tradicional" seria a trilha do filme One From The Heart do seu chapa Francis Ford Coppola, de 1982, em parceria com a Crystal Gayle. E logo em seguida, em 1983, veio o choque: Swordfishtrombones.

Arranjos incomuns, instrumentos exóticos, até mesmo as letras e os temas mudaram um pouco. Antes eram apenas corações partidos, sarjetas, hotéis baratos, etc... Agora os mesmos assuntos são abordados, porém de uma maneira um pouco diferente. Os fins continuaram iguais, os meios é que mudaram. Bem, antes de tudo, este é um disco pra lá de maluco. Alterna momentos de romantismo com alucinações, muitas vezes até unindo as duas características! Tom canta como se fosse a última música que ele cantaria na vida. É o que mais me fascina, a autenticidade na sua voz. Muitos ouvem e têm a impressão imatura de achar que "é mais um excêntrico com voz de bebum". Mas repare bem. As letras, a entonação, a emoção... Agora deixa eu falar logo sobre as faixas antes que eu me empolgue demais.O álbum abre com Underground, um ritmo que lembra um cortejo fúnebre, regado a marimbas, sopros, bateria e o convite "There's a big dark town, There's a place I've found, There's a world going on Underground!"O blues está predominante em 16 Shells From A 30.6, Down Down Down, Gin Soaked Boy e Shore Leave (se bem que esta última poderia ser também um jazz decadente, por que não?), na qual o velho Tom demonstra sua marca registrada no último minuto de música. E essas marimbas são a salvação do dia. Os momentos que mais lembram os tempos do começo de sua carreira são: Johnsburg, Illinois e a Soldier's Things. Essas duas compartilham basicamente as mesmas características, piano, baixo upright do grande Greg Cohen, e vocal... Aliás, os vocais estão quase que "sóbrios", impressionante. As 3 instrumentais do disco são: Dave The Butcher (sinistra, soa como se os personagens da série Os Monstros, dos anos 60, quisessem de fato assustar as pessoas), Rainbirds, que obviamente inspirou o nome do seu aclamado álbum de 85, Rain Dogs, fecha o álbum discreta e melancolicamente, e finalmente a minha favorita Just Another Sucker On The Vine, quando ele pega no acordeon, sempre sai coisa boa (vide Innocent When You Dream, a versão Barroom, do álbum Frank's Wild Years, ou Hang Down Your Head, do já citado Rain Dogs). Esta no caso parece uma música francesa celebrando o dia-a-dia de mais um derrotado afogando suas mágoas no vinho.

Aproveitando que eu mencionei o Frank's Wild Years, a canção homônima é literalmente falada, no estilo cabaré, um órgão e um baixo acompanhando e o Frank contando sua solução psicótica para escapar daquela maldita rotina. Vale a pena ouvir conferindo as letras. Trouble's Braids segue a mesma linha, vocal falado, só que desta vez o acompanhamento fica a cargo do baixo e das percussões, e sem falar no andamento, que aqui é bem mais rápido, criando um clima neurótico, quase que obsessivo.

A faixa título lembra um pouco os ritmos caribenhos, só que mais dramáticos. Ai ai, essas marimbas... estou começando a achar que o Victor Feldman é um verdadeiro marimba hero. Excelente. Town With No Cheer abre com uma gaita de fole, mas logo sendo substituída por um teclado tristonho, e o Sr. Waits desabafando como sempre.... "There's nothing sadder than a town with no cheer...." E por último, mas não em quesitos de importância, temos In The Neighborhood, a ÚNICA faixa alegre do disco, do tipo que se ouve de manhã tomando banho. Lembrando que, quando eu digo alegre, eu digo em comparação ao resto do álbum. Bem, olhando a letra dela, acho que ela não é lá tão positiva assim... É como uma marcha tocada pelas bandas naqueles desfiles populares nos Estados Unidos, sabem? Ele até usou uma dessas bandas no clipe dela:

Concluindo, é o álbum divisor de águas na carreira do Tom Waits. E esse foi um dos motivos pelo qual eu resolvi comentar sobre ele ao invés de seu disco mais conceituado pela crítica e público, Rain Dogs.

E só para relembrar: Tom Waits é um semideus, canta como Sinatra cantaria se estivesse com uma hemorragia interna, e além disso seus filmes são demais! O Selvagem da Motocicleta, Drácula de Bram Stoker, O Pescador de Ilusões, Short Cuts (meu favorito), etc... Não é um Robert Downey Jr., mas é melhor que aquele pessoal que estrela o seriado Friends...

Link: Tom Waits - Swordfishtrombones (1983)

A SMALL CIRCLE OF FRIENDS: THE GERMS TRIBUTE

The Germs foi um grupo punk californiano dos anos 70 que teve como líder o vocalista e arrumador de encrenca Darby Crash - um jovem com sérios problemas e ideia pouco convencionais sobre a forma de se gerenciar uma carreira. Morreu aos 22 anos de uma overdose proposital de heroína. A banda durou pouco. Tempo suficiente para gravarem ao menos um pequeno clássico do rock - o LP G.I. - e torna-se uma lenda do rock alternativo. Este Small Circle of Friends é uma belíssima compilação com alguns dos maiores nomes do rock alternativo americano, prestando homenagem ao grupo em versões para vários de seus "anti-hits".

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

OS MONSTROS DE BABALOO: UM FILME DE ELYSEU VISCONTI

Por João Carlos Rodrigues
Os monstros de Babaloo deve ser urgentemente reavaliado. Realizado em 1970, mesmo ano em que a lendária produtora Bel-Air iniciou suas atividades no Rio de Janeiro, foi no entanto produzido, escrito e dirigido pelo próprio diretor, Elyseu Visconti Caballero. É grande a identidade com os filmes de Sganzerla e Bressane, notadamente com A família do barulho, que Os Monstros de Babaloo ao mesmo tempo anuncia e suplanta.

Uma das obras mais debochadamente grotescas de toda a cinematografia mundial. Um filme pantagruélico. Antevê John Waters, o rei do trash, inclusive na caracterização de Wilza Carla, que já é Divine antes da própria Divine. Corre paralelo à obra da fotógrafa americana Dianne Arbus, precursora da estética do feio e do esdrúxulo.Simultaneamente homenageia, critica e debocha a chanchada carioca nos improvisos do elenco impecável, misto de atores amadores, populares e experimentais. Destaque para a dupla formada pela já citada Wilza e a imortal Zezé Macedo.

São antológicas as cenas de glutoneria da primeira e o número musical da segunda (a mulher mais feia do mundo se chama Frinéia, o protótipo da beleza na Grécia antiga). Diz a lenda que a cena em que a patroa quebra o braço da empregadinha foi pra valer, dado o entusiasmo das duas atrizes.Metáfora da ávida e inculta classe média que imperou no tempo do chamado “milagre brasileiro”, o filme foi proibido pela censura militar. Hoje, está mais que na hora não apenas de assisti-lo, mas de recolocá-lo no lugar que merece no cinema nacional.

Ficha técnica:

Produtora: Elyseu Visconti Produções Cinematográficas
Direção e roteiro:Elyseu Visconti
Cenografia: Elyseu Visconti
Fotografia: Renato Laclette
Montagem: Geraldo Veloso
Música: Édson Machado
Elenco: Wilza Carla, Zezé Macedo, Helena Ignez, Betty Faria, Tânia Scher, Jack de Castro, Badu, Kleber Santos

domingo, 10 de janeiro de 2010

TEENAGE JESUS & THE JERKS (Celluloid)

Primeiros registros da efêmera banda no wave Teenage Jesus & The Jerks, ainda com James Chance e seu sax epiléptico no line up. A frente de um ataque sônico brutal, a vocalista Lydia Lunch grita como uma alucinada em canções que poderiam ser a trilha sonora perfeita para seus piores pesadelos. Não duvide!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

THE FLAMING LIPS DOING THE DARK SIDE OF THE MOON (2009)

O veterano combo noise psicodélico de Oklahoma faz neste sucessor de Embryonic (2009), uma releitura do álbum The Dark of The Moon do Pink floyd, contanto com participações de Henry Rollins - que faz os vocais em sete das nove faixas do disco - e da cantora canadense Peache. Também participam do projeto, os novatos do Stardeath and the White Dwarfs, banda do sobrinho de Wayne Coyne (líder do Flaming Lips). Um disco no mínimo interessante!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

ROBERT CRUMB: R. CRUMB'S MUSIC SAMPLER

Papa dos quadrinhos underground, o cartunista Robert Crumb tornou-se um ícone dos anos 60, quando ao lado de outros fulanos da contracultura lançou a revista Zap, que revolucionou a linguagem das HQ's. No entanto, outra faceta menos conhecida do artista também merece atenção. Music Sampler é uma coletânea que reúne parte de sua produção como músico num período que vai de 1972 até 2003. De sua primeira banda, R. Crumb & His Keep-on-Truckin' Orchestra, até os conjuntos subseqüentes (The Cheap Suit Serenaders, The Crumb Family, etc.), o álbum apresenta uma coleção de temas que vai das raízes da música folclórica norte-americana ao blues, tudo tocado da forma mais despojada possível. Tamanha despretensão se confirma na nota de capa do disco, onde Crumb se define mesmo como um cara cuja carreira musical é "meia-boca". Pura onda, é claro. Ouçam, e tirem suas próprias conclusões. "Depressed? Take up the banjo!".

sábado, 2 de janeiro de 2010

THE HONEYMOON KILLERS: SING SING 1984-1994 (Sympathy For The Record Industry)

Mais um janeiro de Polimorfismo Perverso. O terceiro! Sei que isso aqui está devagar, mas acreditem, não é deleixo nem o desgaste da rotina. O amor ainda não acabou! Tentarei postar com mais regularidade daqui para frente. Coincidentemente (ou não) estou começando este ano da mesma maneira que o anterior, com uma coletânea de uma banda tão cultuada quando desconhecida do grande público: The Honeymoon Killers, grupo de origem do prolífico músico e produtor Jerry Tell.

Sing Sing é uma coleção de demos, gravações de ensaio, e outtakes acumulados ao longo de uma década por este grupo que levou suas idiossincrasias musicais até meados dos anos 90. Neste meio tempo, uma infinidade de músicos da cena nova-iorquina passou pela banda: Jon Spencer (Pussy Galore, Blues Explosion), Christina Martinez (Boss Hog), Judah Bauer (Blues Explosion), Russell Simins (também Blues Explosion), Marcellus Hall (Railroad Jerk) entre muitos outros.



Com o fim do grupo, Jerry envolveu-se numa série de bandas e projetos, tanto como músico quanto como produtor. Boss Hog, The Chrome Cranks, The Knoxville Girls e Little Porkchop são apenas algumas delas. Atualmente, o músico concentrada sua atenção no bluegrass da Jerry Teel & The Big City Stompers, ao lado de sua esposa Pauline Owens.