quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

RENEGADES OF PUNK, DAD FUCKED AND THE MAD SKUNKS E MORRA TENTANDO [Palco do Teatro do antigo Beagá Café, 18/12/2009]

Por Luís Gustavo
Pode parecer estranho programar um evento com bandas de hardcore num local tão classe média como o Café Kancum, mas esta talvez tenha sido a decisão mais acertada. Não sei se os organizadores pensaram nisso, mas a ideia de agendar o show no antigo Beagá Café acabou dando uma dimensão completamente nova ao que geralmente é visto num show de punk rock. Não só o Café é um ambiente atípico para algo dessa natureza, mas também o pequeno público que compareceu naquela sexta-feira escaldante. Uma rápida olhada em volta foi o bastante para constatar isso. Muita gente bonita e cerveja gelada, fundamental naquele abafamento.

Foi praticamente todo mundo, menos aqueles “punks” burros que freqüentavam o velho Marquês. Ou seja, uma maravilha! Tinha indies a dar com pau, cabeludos de banho tomado, bancários, professores de cursinho e playboys também. Estes, com suas respectivas namoradinhas (em alguns casos, acompanhadas daquela irmã gorda que odeia todo mundo). Isso daria uma digressão antropológica e tanto, mas não vou encher o saco de vocês, vamos ao que interessa. Foram três bandas bem distintas entre si, dispostas a esquentar ainda mais a estação do inferno que vem se tornando a capital alagoana nesse verão ingrato: as locais Morra Tentando e Dad Fucked and The Mad Skunks, e a sergipana Renegades of Punk. Durante a apresentação da Morra Tentando pouca gente estava presente na pista e a apatia reinava absoluta. A rapaziada segue a mesma cartilha de bandas como Garage Fuzz e Noção de Nada e nas letras, mesmo em português, não se consegue entender uma palavra. Os caras bem que tentaram, mas não foi dessa vez. Para a Dad Fucked and The Mad Skunks, a ocasião serviu para por fim a um período de quase um ano longe dos palcos, além de representar a oportunidade de estréia dois novos integrantes: Bruno Jaborandy (baixo) e Felipe Gomes (bateria). Com cerca de cinco anos de existência, a banda já possui um bom público que comparece a suas apresentações onde quer que eles toquem. Justamente por isso imaginava-se que eles seriam os responsáveis por trazer um maior número de pessoas para dentro do teatro, mas com exceção de alguns gatos-pingados que se matavam de tanto pogar e dançar na beira do palco junto ao vocalista Rodolfo, a platéia continuava dispersa. O desinteresse talvez se explique pelo fato de a banda apresentar praticamente o mesmo show de sempre. Precisam renovar o repertório com urgência!Da Renegades of Punk eu já havia escutado algumas gravações. Restava ver qual era a deles ao vivo. Quando a barulheira começou, saí correndo do balcão do bar para não perder nada. É... eles me impressionaram. Tocaram com convicção, a vocalista grita muito e suas composições, apesar de extremamente simples e diretas, fogem do óbvio. No meio da porradaria, o trio ainda reservou espaço pra números que iam de Devo a Cólera. Ao fim da apresentação, muitos certamente saíram de alma lavada.

JELLO BIAFRA AND THE GUANTANAMO SCHOOL OF MEDICINE: THE AUDACITY OF HYPE (2009)

Desde o fim dos Dead Kennedys, Jello Biafra tem se envolvido em uma pancada de projetos com músicos das mais variadas matizes. Foi assim com o Lard, onde ele gravou alguns álbuns com os caras do Ministry, em seus discos com os canadenses do D.O.A. e NoMeansNo, bem como sua associação aos malucos do Mojo Nixon e sua parceria com os Melvins, entre outros. Em todos os casos Jello produziu seu material sem jamais prender-se a grupo algum. Em The Audacity Of Hype, seu primeiro trabalho com a Guantanamo School Of Medicine, Jello parece não só ter voltado a fazer parte de uma banda, como também retomado sua vertente mais punk. O grupo, um verdadeiro who is who do rock alternativo ianque, é composto por Andrew Weiss (Rollins Band, Ween, Butthole Surfers), Kimo Ball (Freak Accident), Ralph Spight (Victims Family) e Jon Weiss - todos empenhadíssimos, provando que a velharada ainda tem muita lenha pra queimar! Destaques para "New Feudalism" e "Electronic Plantation".



domingo, 13 de dezembro de 2009

ETAPA ALAGOANA DA TOUR NORDESTE FORA DO EIXO [The Jungle, 13/12/09]

Por Luís Gustavo
A festa para mim começou cedo. Por volta das quatro da tarde, chego ao local onde havia combinado de encontrar um amigo antes do evento: um bar inominável onde a cerveja era vagabunda, quente e o atendimento era péssimo. O show começaria às cinco da tarde. Chegamos às cinco e quarenta, e os meninos da banda local, encarregada de fazer abertura, ainda desciam do carro do pai de alguém.

Quando entrei o lugar estava praticamente vazio e uma das bandas ainda passava o som. Até então, havia mais pessoas no corre-corre carregando tralhas, do que um público em si. Nunca tinha visto tanto esmero na organização de um show no Jungle como nesse dia. Este é o primeiro evento promovido pela Popfuzz desde que o coletivo firmou adesão ao circuito Fora do Eixo, que a partir de suas ações vem criando um fluxo de informação e intercâmbio entre bandas e coletivos em diversas regiões do Brasil. Se a integração da Popfuzz à essa rede não fomentar a atividade local, eu não sei mais o que pode ser feito.

Às seis e quarenta, a primeira banda começa a tocar. Era a Cross the Breeze, uma banda composta por três garotos que não devem ter mais de 19 anos. Nunca tive muita paciência para baboseiras indie-anglófilas, e o som dos meninos vai bem por esse caminho do shoegaze. Tão expressivos quanto um cabide dependurado no armário, o Cross the Breeze tem tudo a ver com o gênero. Apesar de esforçados, a impressão que fica ao fim da apresentação é a de que ainda há um longo caminho até o topo, se o negócio deles é rock 'n' roll. Mas é assim mesmo. Insistam!

Quando chegou a hora da Paraibana Burro Morto, o lugar já estava bem cheio e a medida que os caras iam desfilando seus temas instrumentais, as pessoas iam se aproximando. Tinha gente dançando até em cima das cadeiras. A coisa estava começando a ganhar um clima de festa. Em seu set, a Burro Morto apresentou uma interessante fusão de ritmos brasileiros e psicodelia. É certo que eles não conseguem manter um nível constante de interesse ao longo de toda a apresentação, mas o grupo esbanja musicalidade e segurança inegáveis.

Em seguida entra em cena os mineiros do Porcas Borboletas. Performáticos, os caras realmente sabem como se mexer no palco. Possuem grande presença cênica, algumas letras espertas e as associações ao pessoal da vanguarda paulistana, de fato, fazem algum sentido. "Super Herói Playboy" era a única música que eu conhecia, e eu saí para pegar mais cerveja e dar uma volta.



O Macaco Bong certamente foi a razão de muitos estarem no Jungle naquele domingão. Alguém duvida? Aos primeiros acordes de "Amendoim", a banda já colocava todo mundo pra dançar, numa profusão ininterrupta de power grooves acachapantes. Em "Fuck You Lady", arrisquei um mosh improvisado de cima de uma cadeira em direção à coitadinha da Natasha Fernanda, evidentemente impossibilitada de aparar minha queda. Não sei quanto a vocês, mas sempre sinto uma vibe estranhíssima naquele lugar e, a essa altura, meu estado mental já estava para lá de alterado. De repente começamos a agir como loucos num maldito circo freak.

Minha visão já estava turva e eu comecei a enxergar tudo a minha volta como se estivesse em alguma espécie de filme psicodelico B. Foi quando me flagrei grintando com um cidadão com o dobro do meu tamanho, chamando-o de imbecil, enquanto Raphael fazia umas dancinhas esdrúxulas na frente do sujeito, levantando a camiseta e mostrando o peitinho pro cara. Quase deu merda, não fosse a Natasha tentando dissuadir o infeliz. No final ninguém se machucou e sai com a impressão de que a muito, muito tempo, não me divertia tanto num show de rock como este.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

FRANK JORGE: VOLUME 3 (Monstro Discos)

Por Jimi Joe
Frank Jorge Volume 3 é mais uma boa safra de canções colhidas pelo pândego compositor e multiinstrumentista gaúcho no campo e lavoura da existência durante os cinco anos que separam este seu novo disco do precedente Vida de Verdade. Praticidade e concisão são palavras chave no novo trabalho de Frank Jorge, mais de 20 anos dedicados ao rock. Qual um Paul McCartney redivivo, ele toca praticamente todos os instrumentos desse Volume 3, deixando baterias e percussões a cargo de Iuri Freiberger, co-produtor do disco junto com Rafael Ramos. As influências jovemguardianas/beatlemaníacas/sessentistas se espalham pelo disco como um todo.

Da arte da capa retrô-futurista que nos deixa vislumbrar um Frank Jorge trasmutado em George Jetson à enxutez das 12 canções - como num bom disco do Roberto ou dos Beatles - que raramente ultrapassam os 3 minutos dos clássicos singles dos anos 60, Volume 3 exibe um Frank Jorge capaz de lapidar canções que ao mesmo tempo em que mesclam influências musicais das mais variadas, abordam liricamente, temas como a maldita mania da "melhor banda do mundo essa semana" até uma insólita canção em que Frank lamenta ter demitido um amigo. Os antológicos órgãos Hammond salpicados por Frank pelas faixas desse Volume 3 são reminiscentes dos 60 mas estão mais para uma releitura à la Inspiral Carpets do que exatamente para Lafayette.
Em "Elvis", que apropriadamente abre o disco, Frank alfineta a necessidade contemporânea de se ouvir um som novo a cada dia. "Obsessão Anos 60" vai um pouco além do que o título anuncia e foca outras décadas, sempre com um espírito ácido e autocrítico, numa espécie de mea culpa desse revivalismo todo. Há canções de amor de todo tipo, algumas enviesadas e irônicas como "A Historiadora". Em "Eu Demiti Um Amigo", Frank deixa fluir tudo que aprendeu com Reginaldo Rossi e seus pares. E, maravilha das maravilhas, o encarte com as letras ainda traz comentários tipicamente frankjorgianos sobre as mesmas. Todas reunidas, as canções de Volume 3 somam pouco mais de 33 minutos, que podem ser relacionados às 33 rotações e um terço dos LPs em vinil. O que pode parecer avareza ou sonegação de material musical, no entanto, se comprova como um disco na medida certa. Quando soam as últimas notas de "Se Você Ainda Me Quiser", a vontade é de virar o disco no prato e tocar o lado A pra rodar novamente. Ou melhor, dar o replay no CD.

De qualquer maneira, novamente aqui pontos para Frank Jorge que nesse Volume 3 coloca em prática o aforismo do escritor e musicólogo britânico Arthur Jacobs: "tudo é música, revista e ouvida pelos únicos olhos e ouvidos possíveis: os olhos e ouvidos do presente".

Link: Frank Jorge Volume 3 (Monstro Discos)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

R.L. BURNSIDE: WISH I WAS IN HEAVEN SITTING DOWN (2000)

R. L. Burnside (1926–2005) foi uma das últimas lendas do blues do Mississipi. Um dos grandes méritos do cara foi ter conseguido modernizar-se sem perder a essência de seu talking blues rústico e pungente; o que pode ser atestado numa audição desde disco, em que os produtores Brad Cook e Iky Levy dão uma burilada nas canções, adicionando loops, scratches e barulhinhos diversos. Talvez a razão de podermos ouvir um disco como este a esta altura do campeonato, se deva ao fato de o velho Burnside ter atingido certa notoriedade durante a segunda metade da década de 90, após ter sido apresentado à uma nova geração pelo roqueiro Jon Spencer. No mais, um puta disco feito por quem tinha colhões para mijar nos puristas, recusando-se a parar no tempo.

Link: R. L. Burnside - Wish I Was In Heaven Sitting Down (2000)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

WORKDOGS: ROBERTA (Sympathy For The Record Industry)

O duo nova-iorquino Workdogs - Rob K (baixo e vocais) e Scott Jarvis (bateria) deu início a sua pequena revolução na segunda metade dos anos 80, criando uma música crua e abrasiva, que transitava pelas mais variadas formas de expressão da música popular norte-americana, usando como fio condutor o experimetalismo noisy dos grupos da época.

A banda pode até não ser nenhum fenômeno de popularidade, mas quem entende das coisas sabe de sua importância. Os Workdogs são basicamente a dupla Robert Kennedy e Scott Jarvis, mas o grupo sempre contou em suas gravações com a participação de gente como Jon Spencer (Pussy Galore, Blues Explosion, Boss Hog), Jerry Teel (Honeymoon Killers, Boss Hog), Kid Congo Powers ( The Gun Club, The Cramps), Ivan Julian (Richard Hell & The Voidoids), Lydia Lunch, Moe Tucker (Velvet Underground) entre outros.

As canções de Roberta - álbum de 1988 relançado pela venerável Sympathy Fot The Record Industry, em 1994 - possuem vida própria e nos dão aquela impressão de que foram todas geradas ali durante as gravações. A faixa-título, uma jam alucinada que segue em seus mais de 15 minutos num crescendo espetacular, é um cartão de visita perfeito. Na verdade destacar algum momento desse álbum seria pura bobagem. Os caras fazem barbaridades com ritmos como o ragtime, o boogie e o rhythm'n'blues, transformando tudo isso em algo completamente alienígena. Um álbum único e imperdível, de uma banda absolutamente fora do comum.

Link: Workdogs - Roberta (Sympathy For The Record Industry)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

LYDIA LUNCH: BIG SEXY NOISE (2009)

Quando eu soube que Lydia Lunch havia acabado de gravar um disco com os espertos do Gallon Drunk, tratei logo se sair a procura do disquinho. Deu um trabalho danado encontrar este Big Sexy Noise, mas aqui está! Se você for fã da moça e da banda do menino James Johnston - talvez a melhor e mais aplicada cria do velho Birthday Party - já deve ter uma ideia do que se trata o negócio e, com certeza, ficará feliz da vida com este mini-álbum. São apenas seis faixas, onde Lydia e sua turma destilam sua barulheira habitual, oscilando entre o lascivo e o ruidoso, chegando ao requinte de recricar a clássica "Kill Your Sons", de Lou Reed.