domingo, 29 de novembro de 2009

THE VELVET UNDERGROUND: WHITE LIGHT/WHITE HEAT

Por Javier Muniain

Na metade da década de 60, a população americana já sentia os primeiros efeitos da eminente e catastrófica derrota para o Vietnã, dez anos depois, em 1975. Os jovens não queriam ir à frente de batalha; pelo contrário, buscavam alternativas e justificativas para esquivarem-se de seu "dever cívico". Emergia assim, junto a outras circunstâncias, a cultura hippie. Janis Joplin, The Grateful Dead e Jefferson Airplane, entre outros, eram Deuses do (novo) Rock.

"As flores do mal desabrocharam. Alguém deve pisoteá-las antes que se propaguem."

Enquanto isso, no Instituto de Ensino Médio de Summit, Nova Jersey, no dia 11 de Dezembro de 1965, três bandas locais foram contratadas para entreterem o público formado de pais, alunos e professores. Após a agradável apresentação da primeira banda, 40 Fingers, entraram em cena, respectivamente, Lewis Alan Reed, mais conhecido como Lou Reed (compositor, guitarrista e vocalista), John Cale (baixo, viola elétrica, teclado), o alto e esguio Sterling Morrison (guitarra e baixo), e, por fim, posicionando-se de pé por trás da bateria, Maureen "Moe" Tucker, cuja entrada no grupo ocorreu dias antes devido à saída inesperada de Angus MacLise. Eram quatro sujeitos vestidos de negro, de cabelos compridos, posicionados no meio de um amontoado de instrumentos exóticos, mirando com seus negros óculos de sol a platéia boquiaberta. Chamavam-se The Velvet Underground, nome roubado do título do (para a época) pouco aclamado livro de Michael Leigh. Então, num volume muito mais alto que o habitual, executaram os primeiros acordes de "Venus in Furs" (uma canção sobre sadomasoquismo) confirmando a primeira impressão: tratava-se de um bando de degenerados, próprios deste negócio perigoso que é o rock'n'roll para a juventude. Muitos deixaram o lugar aterrorizados. Para os que ficaram, a canção seguinte, "Heroin", foi o cúmulo. Inspirados por uma realidade marginal à maioria das pessoas, mas muito familiar a eles, cada membro acrescentava, a sua maneira, um pouco do ambiente degenerado de Nova York. Eram como moscas circulando por todo o ambiente fétido da metrópole: junkies, prostitutas, alcoólatras, viciados, travestis, homossexuais, traficantes e suicidas. Repeliam a beleza e a promissora esperança de novos e melhores tempos sustentados pelas bandas da década de 60. Lou Reed, como compositor, possuía um talento soberbo para encontrar, filtrar e retratar histórias tão amorais e sombrias em suas letras quanto para criá-las igualmente problemáticas na vida real. Acreditava num elo entre o rock e a literatura assim como acreditava controlar seu vício em drogas. Assim, apesar da considerável baixa receptividade, o concerto foi considerado pela banda um legítimo sucesso. A banda logo conseguiu um contrato no Café Bizarre. A reação dos freqüentadores, em geral turistas, era tão desanimadora quanto ao incidente de dias atrás e, após duas semanas espantando os boêmios, foram despedidos. Apesar da desagradável experiência em palco, um insólito evento ocorreu-lhes ali. Andy Warhol, pintor pop já estabelecido no ramo artístico, também conhecido por seus filmes undergrounds – assim como Paul Morrissey, seu manager e cineasta de igual importância que o acompanhava – buscavam novos horizontes para a Fábrica: uma banda de rock. Desta maneira, orientado por Paul e Andy, a banda deveria adequar-se às exigências da Fábrica. "O Velvet era um grupo de gente totalmente insegura. Todos os dias estavam à beira de algo. E de repente chegou aquela garota para desintegrar o grupo", confessa Moe anos mais tarde sobre a mudança mais significativa orientada: Nico, uma jovem atriz e cantora que conhecera Andy uma semana antes.

Sua voz e sotaque nórdicos eram o contraponto que faltava para tamanha escuridão. Não que todas as alterações fossem aceitas passivamente pelos membros, ou melhor, por Lou, mas diante dos novos e promissores horizontes abertos por Warhol, aceitar a entrada de Nico não configurava um problema assim tão grave. Mas incomodava. Selando um pacto fáustico, a banda aceitou as propostas de Warhol. Tornaram-se The Velvet Underground and Nico.

No período compreendido entre 1966 e 1968, enquanto estavam sob a tutela do notório artista que lhes servia de agente, produtor, conselheiro, promoter e fã incondicional, muito ocorreu. A princípio, foram integrados às performances da trupe da Fábrica. A primeira delas ocorreu num congresso de psiquiatria no qual haviam sugerido ao artista pop apresentar e discutir dois de seus filmes: Sleep e Blow Job numa conferência. Porém, contrariamente ao estabelecido, Andy montou um verdadeiro "tratamento de choque para os psiquiatras" – de acordo com a manchete do New York Times do dia seguinte.

Enquanto era exibida uma fita em preto e branco, mal iluminada, de um homem atado a uma cadeira sendo duramente violentado, The Velvet Underground aturdia os surpresos médicos com suas letras ácidas, sujas e pervertidas enquanto uma modelo interrogava alguns participantes do evento com perguntas indiscretas como "o senhor tem o pênis grande o bastante?" ou "você faz sexo oral?". Tendo o circo de horrores e depravações figurado nas principais páginas de jornais e revistas da época.Logo o espetáculo evoluiu rapidamente até seu lançamento oficial na meca do cinema underground da época, a Cinémathèque. Gerard Malanga, um dos muitos poetas da Fábrica, adicionou-lhe uma performance estranhíssima, digna dos contos de Edgar Allan Poe. Tratava-se de Andy Warhol Uptight (Andy Warhol Sob Tensão), um titulo muito apropriado por sinal.The Velvet Undeground and Nico ainda não gozava do devido sucesso que tanto sonhavam, porém, com a ajuda do mentor, polemizavam o suficiente para se destacar. Seguiam com fidelidade todas as manobras de seu agente-artista. A contribuição até então era mútua. Andy gravou um soberbo ensaio na Fábrica, entitulado Simphony of Sound; em troca, a banda trabalhou na trilha sonora de Hedy e More Milk, Ivete; ele se renovava artística e publicitariamente, eles (ou melhor, Lou) absorviam o rico mundo de personagens estranhos da Fábrica: o ambiente sombrio, competitivo, diverso e abertamente homossexual (naquela época, considerada a maior das mais imorais depravações humanas) criado pelos pintores, cineastas, poetas, dançarinos, atores, modelos e performers locais era propício para o laboratório de histórias e contos futuramente sintetizados em canções como "Femme Fatale", "I'll Be Your Mirror" e "All Tomorrow's Parties". "Aquilo era um paraíso", observava Andy, que por sua vez observava todo mundo. "Escutava-os dizerem as coisas mais extraordinárias, mais absurdas, mais divertidas e mais tristes que se pode imaginar. E eu as anotava todas".

Em Abril de 1967, Andy alugou The Dom, no meio da East Village para promocionar o novo material chamado Exploding Plastic Inevitable (EPI). A estrutura era a mesma que a anterior: projetavam filmes num telão atrás da banda e bailarinos. Apesar da similaridade, o EPI se distinguia em qualidade e ousadia. Dois filmes de Warhol eram projetados um em cima do outro enquanto a banda costumava tocar de costas ao público. Todos vestiam trajes negros, com exceção de Nico, de branco, etérea sob um tímido foco de uma luz pálida; Gerard Malanga e Mary Waronow (atriz), vestidos de couro negro, recriavam as sombrias canções em suas danças esquizofrênicas; o pintor, de fora, comandava o show de luzes coloridas que cintilavam de todas as partes para todas as partes.Um dos sinais de união entre a pintura pop e a EPI era a utilização do estrobo: reluzindo em intervalos curtos entre a luz e a escuridão, criava nítidos retratos humanos, figuras repetidas e aleatórias, dançando, cantando, reproduzindo-se infinitamente até perderem seu sentido original e caírem no vazio de suas representações como a produção industrial e a indústria para as massas. Também era genuinamente transgressor e original em diversos parâmetros. Revolucionava o conceito das casas noturnas da metrópole com a franca apologia às drogas "pesadas"; introduzia a participação ativa do público como item essencial de um show de rock'n'roll; derrubava as paredes das definições de arte etc. Nas palavras do escritor Stephen Koch, que presenciou uma destas míticas noites. O esforço de criar uma atmosfera de explosão (ou mais exatamente implosão), capaz de pulverizar qualquer perspectiva sensorial imaginável, era toda um sucesso. Era praticamente impossível dançar, ou fazer qualquer coisa que não fosse permanecer ali sentado e sofrer o bombardeio; o 'colocão', por assim chamá-lo, de imagens e som... ao vê-lo, percebi pela primeira vez de até que ponto as teorias, tão admiradas na época, que atacavam ao ego como a raiz de todo o mal e toda a infelicidade, converteram-se para a vanguarda um terreno propício para o desenvolvimento de uma profunda metáfora do sadismo sexual e do assalto aos sentidos; percebi até que ponto a liberação do ego não era exatamente a liberação que pretendia ser, senão um ato de vingança e ressentimento totais, completamente unidos, em seus níveis mais profundos com raízes na frustração.

A liberação resultava ser uma humilhação; a paz revela-se em forma de ira. Coincidindo com a primeira semana de exibição da EPI, Andy preparou a sua saída definitiva do meio das artes plásticas organizando uma exposição na galeria de arte Leo Castelli, em Nova York. Seu descrédito com o meio da pintura era visível e finalmente chegava ao fim. Após consolidar-se como cineasta e agora agente, não esperava os fracassos que estavam por vir. Um pequeno incidente ocorrido durante o verão de 1966 futuramente desembocaria numa férrea fonte de mágoas. Andy pediu para Lou compor a trilha sonora de seu mais novo trabalho, Chelsea Girls, o maior êxito comercial da Fábrica, mas caberia a Nico cantá-la (além de participar como atriz ao lado de International Velvet, Brigid Berlin and Mary Woronov). Era sabida a preferência do ex-pintor pela voz grave da alemã desde o início da relação, apesar de o antigo vocalista, Lou, receber também sua parcela de empatia. Tratava-se de uma briga por poder, pelo microfone e pelo foco das atenções. E nisto Lou não permitia concorrência. O compositor negou a proposta.

Por outro lado, a EPI decolava em público e críticas "agradavelmente" corrosivas. Lotavam todas as noites e inclusive recebiam frequentes visitas ilustres de famosos como Salvador Dali e Jackie Kennedy, por exemplo. Com tamanho êxito, Andy, Paul e a banda resolveram gravar um disco de estréia. Apos três dias de gravação tumultuada onde desavenças pessoais e profissionais se misturavam ao clima de insatisfação geral, o álbum foi finalizado.

Logo veio o primeiro obstáculo, que levou quase um ano para ser superado: todas as gravadoras rejeitavam o material pois não tinham a menor idéia de como comercializá-lo. Nenhuma faixa encaixava-se no perfil sonoro e ideológico do momento, vide o Sargent Pepper's Lonely Hearts Club dos Beatles e Blonde on Blonde de Bob Dylan. Não havia baladas senão melodias negras que mais inspiravam ao suicídio que à redenção. Lou justifica: "acho que Andy gostava de escandalizar, sacudir as pessoas, e não queria que ninguém nos convencesse em eliminar o conteúdo mais 'pesado' das faixas pelo bem da popularidade ou de uma maior difusão radiofônica".

Finalmente conseguiram um contrato com a Verve (MGM) e, somente assim, em março de 1967, lançaram The Velvet Undeground and Nico, com a famosa capa de Andy Warhol (e sua assinatura como produtor para ajudar nas vendagens) – uma curiosa armadilha: a fálica e lustrosa banana escondia toda a podridão humana, levada aos extremos. Estavam nele incluídas canções célebres como "Venus in Furs", "Heroin", "The Black Angel's Death" e "I'm Waiting for the Man", além de "European Son" (escrita em homenagem a Delmore Schwartz, poeta beat, amigo e ídolo de Lou Reed em sua época universitária) e a paranóica "Sunday Morning" (adicionada posteriormente, talvez a faixa mais acessível). Para promovê-lo, a melhor solução era criar uma turnê pelos Estados Unidos, passando principalmente por São Francisco, neste momento o local mais "quente" dos EUA para as bandas emergentes da época e, naturalmente, a meca suprema do movimento hippie. "Tínhamos sérias objeções a respeito de San Francisco em geral. É chato, é uma mentira e carece por completo de talento. Não sabem tocar e muito menos sabem escrever. As bandas da Costa Oeste se metiam com drogas leves. Nós nos metíamos com as pesadas" – disse o compositor numa entrevista na qual perguntaram-lhe o que os separava da Costa Oeste, além da distância. Desta fase, a relação entre os aparentes lideres, Andy e Lou, andava mais que desgastada. A dualidade em firmar-se no mainstream musical ao mesmo tempo que conservassem sua identidade frustrava profundamente a todos. Ninguém sabia administrar ideais tão contraditórios.

A turnê foi um fracasso em todos os sentidos. O público, como em Nova York, não estava preparado para tamanha ousadia sonora, poética e moral. Sunday Morning/Femme Fatalle, a grande aposta pop para as listas dos compactos mais vendidos no país encalhou no 103º lugar. As duras críticas deixavam pouco a pouco de serem motivadoras e começavam a incomodar. "As pessoas diziam que fazíamos pornô-rock. Recordo-me de ler textos que nos descreviam como 'o fedor abaixo do ventre da existência humana'. Só o que eu queria fazer era escrever canções com as quais alguém como eu pudesse se identificar".Tais rachaduras evidenciavam a limitada expansão de horizontes proporcionada pela Fábrica e, essencialmente, por Warhol. A ruptura era uma questão de tempo. Ressentido pela estéril turnê, além do clima hostil sustentado por Lou, o cineasta voltou suas atenções a sua paixão anterior, o cinema underground, e foi a Cannes promover Chelsea Girls abandonando o Velvet Underground, cujas aspirações por apresentarem-se em terras européias sempre foi evidente. Ao longo das semanas, foram deixados para trás, por Andy e pelas oportunidades interessantes em órbita do cineasta (o diretor italiano, Antonioni, havia declarado interesse em inclui-los no filme Blow-Up – oportunidade fisgada pelos ingleses Yardbirds, por exemplo). Essa era sua vingança pelo incidente megalomaníaco de Lou ocorrido meses atrás.A separação aconteceu imediatamente após o regresso do diretor-agente a Nova York. Reunidos numa sala, Lou e Andy chegaram à conclusão de que o Velvet Underground necessitava de novos caminhos. "Olha, vocês querem seguir apresentando suas músicas em museus e falculdades universitárias? Esses são os únicos lugares que posso oferecer-lhes. Não acham que é hora de começarem a tocar no Filmore e em casas de shows da América do Norte?" – sentenciou o artista.



O Velvet Underground (sem Nico) seguiu seu rumo, conseguiu um modesto êxito através de um novo contrato com um novo agente (muito mais comercial), Steve Sesnick, sendo quatro os álbuns lançados até a dissolução completa do grupo em 1970, quando a MGM cedeu à nova lei moralista do presidente Nixon em eliminar bandas cujas propostas envolvessem a propagação das drogas ou o hippie. Ao final dos anos 70, encontraram a tão sonhada popularidade através das novas revoluções juvenis vindas da Europa: o glamrock, o punk e o pós-punk. Andy continuou com seus filmes, a Fábrica etc. Encontrou-se com Lou diversas vezes até sua morte em 1987. Sobre o novo agente contratado, "a pessoa que eles escolheram" – lamentou – "era nefasta".

Como moscas, nascidas para os prazeres baixos, a banda sobrevoou o pútrido – porém sedutor – odor do jardim de Warhol até definharem, pouco a pouco, na prisão de suas plantas carnívoras como obras-produtos tais quais as imagens representadas pelos quadros e filmes pop. Deu-se assim o conturbado casamento entre ambientes até então antagônicos: o rock'n'roll e a arte. Um matrimônio de não mais que cinco anos e de poucos frutos para a posterioridade, retalhados entre a sombra da Fábrica, a falta de maturidade do público e gravadoras, e principalmente a difícil relação entre os cônjuges.

Discofrafia selecionada

The Velvet Underground & Nico (1967) White Light White Heat (1968)
The Velvet Underground (1969)
The Velvet Underground Live Vol. 1&2 (1969)
The Velvet Underground Loaded (1970)
V.U. A Collection of Previously Unreleassed Recordins (1985)