domingo, 29 de novembro de 2009

THE TRASHMEN: "BIRD" É A PALAVRA PARA OS ASES DA SURF MUSIC

Por René Ferri

Numa hipotética lista das dez melhores bandas de rock americanas de todos os tempos, a inclusão dos Trashmen poderia ser revelada. Tanto que os Ramones, presença mais que obrigatória nessa lista, é uma banda que construiu toda sua carreira repetindo as ideias, as fórmulas e a atitude dos Trashemen, chegando ao requinte de adotar parte do seu repertório. The Trashmen fez entre 63 e 67, o que grupos como Ramones e Cramps só começaram a fazer em meados dos anos 70. Surf music foi uma tendência no início dos anos 60 que fez proliferar um incontável número de grupos musicais por todo os EUA. Os Trashmen vieram nessa onda - de Minneapolis, Minnesota - embalados pelos sons californianos de Dick Dale, com a diferença da inclusão de maciças doses de rock 'n' roll, números vocais, covers de Chuck Berry, Buddy Holy e outros ídolos. Acidentalmente juntaram dois hits dos Rivingtones, "Papa-Oom-Mow-Mow" e The Bird's The Word" e criaram a clássica e hilariante "Surfin' Bird".

O grande sucesso dessa canção, editada em dezembro de 63, foi decisivo para que a banda recebesse incentivo e verbas para outros singles, mais o álbum Sufin' Bird, que saiu em meados de 64. Esse disco clássico tem a essência da música dos Trashemen: uma esfuziante alegria, com uma dinâmica de rock 'n' roll que coloca tanta energia na música, que transforma sua audição numa excitante experiência. É um daqueles discos que jamais envelheceram. O fenomenal sucesso de "Surfin' Bird" estimulou a banda a sair dos arredores de Minneapolis para uma longa excursão que, iniciada em 65, só foi terminar em dois anos depois, quando eles decidiram parar. A música tinha mudado, o mundo era outro, o Verão Do Amor despontava em San Francisco. Nesse tempo on the road, editaram singles em selos diversos. Tudo feito com a espontaneidade e nonchalance de uma banda de garagem. Essa é a melhor definição dos Trashmen: uma excepcional banda de garagem, que soube usar suas dificuldades e limitações como força motriz da música que fazia.

Diz-se que estiveram até na Venezuela e Argentina, mas isso talvez tenha sido apenas uma criativa desculpa quando se defrontavam com alguém que lhes perguntava: "Por onde vocês andaram?". Ou quem sabe, uma ingênua forma de auto-promoção.O que desviou os Trashmen da rota do sucesso foi provavelmente um contrato leonino com um selo pequeno que não pode divulgá-los melhor e, ao mesmo tempo, afastou as majors, as grandes empresas. Com divulgação correta, boa exposição na mídia e um pouco de sorte, The Trashmen - banda punk par excellence, de garagem mesmo - teria sido um dos maiores hits dos anos 60.

Dicografia selecionada

The Trashmen - Surfin' Bird Album

The Trashmen - Live Bird 65-67

The Trashmen - Tube City!

The Trasmen - Bird Call! Box Set (Disc 1)

The Trasmen - Bird Call! Box Set (Disc 2)

The Trasmen - Bird Call! Box Set (Disc 3)

The Trasmen - Bird Call! Box Set (Disc 4)

THE VELVET UNDERGROUND: WHITE LIGHT/WHITE HEAT

Por Javier Muniain

Na metade da década de 60, a população americana já sentia os primeiros efeitos da eminente e catastrófica derrota para o Vietnã, dez anos depois, em 1975. Os jovens não queriam ir à frente de batalha; pelo contrário, buscavam alternativas e justificativas para esquivarem-se de seu "dever cívico". Emergia assim, junto a outras circunstâncias, a cultura hippie. Janis Joplin, The Grateful Dead e Jefferson Airplane, entre outros, eram Deuses do (novo) Rock.

"As flores do mal desabrocharam. Alguém deve pisoteá-las antes que se propaguem."

Enquanto isso, no Instituto de Ensino Médio de Summit, Nova Jersey, no dia 11 de Dezembro de 1965, três bandas locais foram contratadas para entreterem o público formado de pais, alunos e professores. Após a agradável apresentação da primeira banda, 40 Fingers, entraram em cena, respectivamente, Lewis Alan Reed, mais conhecido como Lou Reed (compositor, guitarrista e vocalista), John Cale (baixo, viola elétrica, teclado), o alto e esguio Sterling Morrison (guitarra e baixo), e, por fim, posicionando-se de pé por trás da bateria, Maureen "Moe" Tucker, cuja entrada no grupo ocorreu dias antes devido à saída inesperada de Angus MacLise. Eram quatro sujeitos vestidos de negro, de cabelos compridos, posicionados no meio de um amontoado de instrumentos exóticos, mirando com seus negros óculos de sol a platéia boquiaberta. Chamavam-se The Velvet Underground, nome roubado do título do (para a época) pouco aclamado livro de Michael Leigh. Então, num volume muito mais alto que o habitual, executaram os primeiros acordes de "Venus in Furs" (uma canção sobre sadomasoquismo) confirmando a primeira impressão: tratava-se de um bando de degenerados, próprios deste negócio perigoso que é o rock'n'roll para a juventude. Muitos deixaram o lugar aterrorizados. Para os que ficaram, a canção seguinte, "Heroin", foi o cúmulo. Inspirados por uma realidade marginal à maioria das pessoas, mas muito familiar a eles, cada membro acrescentava, a sua maneira, um pouco do ambiente degenerado de Nova York. Eram como moscas circulando por todo o ambiente fétido da metrópole: junkies, prostitutas, alcoólatras, viciados, travestis, homossexuais, traficantes e suicidas. Repeliam a beleza e a promissora esperança de novos e melhores tempos sustentados pelas bandas da década de 60. Lou Reed, como compositor, possuía um talento soberbo para encontrar, filtrar e retratar histórias tão amorais e sombrias em suas letras quanto para criá-las igualmente problemáticas na vida real. Acreditava num elo entre o rock e a literatura assim como acreditava controlar seu vício em drogas. Assim, apesar da considerável baixa receptividade, o concerto foi considerado pela banda um legítimo sucesso. A banda logo conseguiu um contrato no Café Bizarre. A reação dos freqüentadores, em geral turistas, era tão desanimadora quanto ao incidente de dias atrás e, após duas semanas espantando os boêmios, foram despedidos. Apesar da desagradável experiência em palco, um insólito evento ocorreu-lhes ali. Andy Warhol, pintor pop já estabelecido no ramo artístico, também conhecido por seus filmes undergrounds – assim como Paul Morrissey, seu manager e cineasta de igual importância que o acompanhava – buscavam novos horizontes para a Fábrica: uma banda de rock. Desta maneira, orientado por Paul e Andy, a banda deveria adequar-se às exigências da Fábrica. "O Velvet era um grupo de gente totalmente insegura. Todos os dias estavam à beira de algo. E de repente chegou aquela garota para desintegrar o grupo", confessa Moe anos mais tarde sobre a mudança mais significativa orientada: Nico, uma jovem atriz e cantora que conhecera Andy uma semana antes.

Sua voz e sotaque nórdicos eram o contraponto que faltava para tamanha escuridão. Não que todas as alterações fossem aceitas passivamente pelos membros, ou melhor, por Lou, mas diante dos novos e promissores horizontes abertos por Warhol, aceitar a entrada de Nico não configurava um problema assim tão grave. Mas incomodava. Selando um pacto fáustico, a banda aceitou as propostas de Warhol. Tornaram-se The Velvet Underground and Nico.

No período compreendido entre 1966 e 1968, enquanto estavam sob a tutela do notório artista que lhes servia de agente, produtor, conselheiro, promoter e fã incondicional, muito ocorreu. A princípio, foram integrados às performances da trupe da Fábrica. A primeira delas ocorreu num congresso de psiquiatria no qual haviam sugerido ao artista pop apresentar e discutir dois de seus filmes: Sleep e Blow Job numa conferência. Porém, contrariamente ao estabelecido, Andy montou um verdadeiro "tratamento de choque para os psiquiatras" – de acordo com a manchete do New York Times do dia seguinte.

Enquanto era exibida uma fita em preto e branco, mal iluminada, de um homem atado a uma cadeira sendo duramente violentado, The Velvet Underground aturdia os surpresos médicos com suas letras ácidas, sujas e pervertidas enquanto uma modelo interrogava alguns participantes do evento com perguntas indiscretas como "o senhor tem o pênis grande o bastante?" ou "você faz sexo oral?". Tendo o circo de horrores e depravações figurado nas principais páginas de jornais e revistas da época.Logo o espetáculo evoluiu rapidamente até seu lançamento oficial na meca do cinema underground da época, a Cinémathèque. Gerard Malanga, um dos muitos poetas da Fábrica, adicionou-lhe uma performance estranhíssima, digna dos contos de Edgar Allan Poe. Tratava-se de Andy Warhol Uptight (Andy Warhol Sob Tensão), um titulo muito apropriado por sinal.The Velvet Undeground and Nico ainda não gozava do devido sucesso que tanto sonhavam, porém, com a ajuda do mentor, polemizavam o suficiente para se destacar. Seguiam com fidelidade todas as manobras de seu agente-artista. A contribuição até então era mútua. Andy gravou um soberbo ensaio na Fábrica, entitulado Simphony of Sound; em troca, a banda trabalhou na trilha sonora de Hedy e More Milk, Ivete; ele se renovava artística e publicitariamente, eles (ou melhor, Lou) absorviam o rico mundo de personagens estranhos da Fábrica: o ambiente sombrio, competitivo, diverso e abertamente homossexual (naquela época, considerada a maior das mais imorais depravações humanas) criado pelos pintores, cineastas, poetas, dançarinos, atores, modelos e performers locais era propício para o laboratório de histórias e contos futuramente sintetizados em canções como "Femme Fatale", "I'll Be Your Mirror" e "All Tomorrow's Parties". "Aquilo era um paraíso", observava Andy, que por sua vez observava todo mundo. "Escutava-os dizerem as coisas mais extraordinárias, mais absurdas, mais divertidas e mais tristes que se pode imaginar. E eu as anotava todas".

Em Abril de 1967, Andy alugou The Dom, no meio da East Village para promocionar o novo material chamado Exploding Plastic Inevitable (EPI). A estrutura era a mesma que a anterior: projetavam filmes num telão atrás da banda e bailarinos. Apesar da similaridade, o EPI se distinguia em qualidade e ousadia. Dois filmes de Warhol eram projetados um em cima do outro enquanto a banda costumava tocar de costas ao público. Todos vestiam trajes negros, com exceção de Nico, de branco, etérea sob um tímido foco de uma luz pálida; Gerard Malanga e Mary Waronow (atriz), vestidos de couro negro, recriavam as sombrias canções em suas danças esquizofrênicas; o pintor, de fora, comandava o show de luzes coloridas que cintilavam de todas as partes para todas as partes.Um dos sinais de união entre a pintura pop e a EPI era a utilização do estrobo: reluzindo em intervalos curtos entre a luz e a escuridão, criava nítidos retratos humanos, figuras repetidas e aleatórias, dançando, cantando, reproduzindo-se infinitamente até perderem seu sentido original e caírem no vazio de suas representações como a produção industrial e a indústria para as massas. Também era genuinamente transgressor e original em diversos parâmetros. Revolucionava o conceito das casas noturnas da metrópole com a franca apologia às drogas "pesadas"; introduzia a participação ativa do público como item essencial de um show de rock'n'roll; derrubava as paredes das definições de arte etc. Nas palavras do escritor Stephen Koch, que presenciou uma destas míticas noites. O esforço de criar uma atmosfera de explosão (ou mais exatamente implosão), capaz de pulverizar qualquer perspectiva sensorial imaginável, era toda um sucesso. Era praticamente impossível dançar, ou fazer qualquer coisa que não fosse permanecer ali sentado e sofrer o bombardeio; o 'colocão', por assim chamá-lo, de imagens e som... ao vê-lo, percebi pela primeira vez de até que ponto as teorias, tão admiradas na época, que atacavam ao ego como a raiz de todo o mal e toda a infelicidade, converteram-se para a vanguarda um terreno propício para o desenvolvimento de uma profunda metáfora do sadismo sexual e do assalto aos sentidos; percebi até que ponto a liberação do ego não era exatamente a liberação que pretendia ser, senão um ato de vingança e ressentimento totais, completamente unidos, em seus níveis mais profundos com raízes na frustração.

A liberação resultava ser uma humilhação; a paz revela-se em forma de ira. Coincidindo com a primeira semana de exibição da EPI, Andy preparou a sua saída definitiva do meio das artes plásticas organizando uma exposição na galeria de arte Leo Castelli, em Nova York. Seu descrédito com o meio da pintura era visível e finalmente chegava ao fim. Após consolidar-se como cineasta e agora agente, não esperava os fracassos que estavam por vir. Um pequeno incidente ocorrido durante o verão de 1966 futuramente desembocaria numa férrea fonte de mágoas. Andy pediu para Lou compor a trilha sonora de seu mais novo trabalho, Chelsea Girls, o maior êxito comercial da Fábrica, mas caberia a Nico cantá-la (além de participar como atriz ao lado de International Velvet, Brigid Berlin and Mary Woronov). Era sabida a preferência do ex-pintor pela voz grave da alemã desde o início da relação, apesar de o antigo vocalista, Lou, receber também sua parcela de empatia. Tratava-se de uma briga por poder, pelo microfone e pelo foco das atenções. E nisto Lou não permitia concorrência. O compositor negou a proposta.

Por outro lado, a EPI decolava em público e críticas "agradavelmente" corrosivas. Lotavam todas as noites e inclusive recebiam frequentes visitas ilustres de famosos como Salvador Dali e Jackie Kennedy, por exemplo. Com tamanho êxito, Andy, Paul e a banda resolveram gravar um disco de estréia. Apos três dias de gravação tumultuada onde desavenças pessoais e profissionais se misturavam ao clima de insatisfação geral, o álbum foi finalizado.

Logo veio o primeiro obstáculo, que levou quase um ano para ser superado: todas as gravadoras rejeitavam o material pois não tinham a menor idéia de como comercializá-lo. Nenhuma faixa encaixava-se no perfil sonoro e ideológico do momento, vide o Sargent Pepper's Lonely Hearts Club dos Beatles e Blonde on Blonde de Bob Dylan. Não havia baladas senão melodias negras que mais inspiravam ao suicídio que à redenção. Lou justifica: "acho que Andy gostava de escandalizar, sacudir as pessoas, e não queria que ninguém nos convencesse em eliminar o conteúdo mais 'pesado' das faixas pelo bem da popularidade ou de uma maior difusão radiofônica".

Finalmente conseguiram um contrato com a Verve (MGM) e, somente assim, em março de 1967, lançaram The Velvet Undeground and Nico, com a famosa capa de Andy Warhol (e sua assinatura como produtor para ajudar nas vendagens) – uma curiosa armadilha: a fálica e lustrosa banana escondia toda a podridão humana, levada aos extremos. Estavam nele incluídas canções célebres como "Venus in Furs", "Heroin", "The Black Angel's Death" e "I'm Waiting for the Man", além de "European Son" (escrita em homenagem a Delmore Schwartz, poeta beat, amigo e ídolo de Lou Reed em sua época universitária) e a paranóica "Sunday Morning" (adicionada posteriormente, talvez a faixa mais acessível). Para promovê-lo, a melhor solução era criar uma turnê pelos Estados Unidos, passando principalmente por São Francisco, neste momento o local mais "quente" dos EUA para as bandas emergentes da época e, naturalmente, a meca suprema do movimento hippie. "Tínhamos sérias objeções a respeito de San Francisco em geral. É chato, é uma mentira e carece por completo de talento. Não sabem tocar e muito menos sabem escrever. As bandas da Costa Oeste se metiam com drogas leves. Nós nos metíamos com as pesadas" – disse o compositor numa entrevista na qual perguntaram-lhe o que os separava da Costa Oeste, além da distância. Desta fase, a relação entre os aparentes lideres, Andy e Lou, andava mais que desgastada. A dualidade em firmar-se no mainstream musical ao mesmo tempo que conservassem sua identidade frustrava profundamente a todos. Ninguém sabia administrar ideais tão contraditórios.

A turnê foi um fracasso em todos os sentidos. O público, como em Nova York, não estava preparado para tamanha ousadia sonora, poética e moral. Sunday Morning/Femme Fatalle, a grande aposta pop para as listas dos compactos mais vendidos no país encalhou no 103º lugar. As duras críticas deixavam pouco a pouco de serem motivadoras e começavam a incomodar. "As pessoas diziam que fazíamos pornô-rock. Recordo-me de ler textos que nos descreviam como 'o fedor abaixo do ventre da existência humana'. Só o que eu queria fazer era escrever canções com as quais alguém como eu pudesse se identificar".Tais rachaduras evidenciavam a limitada expansão de horizontes proporcionada pela Fábrica e, essencialmente, por Warhol. A ruptura era uma questão de tempo. Ressentido pela estéril turnê, além do clima hostil sustentado por Lou, o cineasta voltou suas atenções a sua paixão anterior, o cinema underground, e foi a Cannes promover Chelsea Girls abandonando o Velvet Underground, cujas aspirações por apresentarem-se em terras européias sempre foi evidente. Ao longo das semanas, foram deixados para trás, por Andy e pelas oportunidades interessantes em órbita do cineasta (o diretor italiano, Antonioni, havia declarado interesse em inclui-los no filme Blow-Up – oportunidade fisgada pelos ingleses Yardbirds, por exemplo). Essa era sua vingança pelo incidente megalomaníaco de Lou ocorrido meses atrás.A separação aconteceu imediatamente após o regresso do diretor-agente a Nova York. Reunidos numa sala, Lou e Andy chegaram à conclusão de que o Velvet Underground necessitava de novos caminhos. "Olha, vocês querem seguir apresentando suas músicas em museus e falculdades universitárias? Esses são os únicos lugares que posso oferecer-lhes. Não acham que é hora de começarem a tocar no Filmore e em casas de shows da América do Norte?" – sentenciou o artista.



O Velvet Underground (sem Nico) seguiu seu rumo, conseguiu um modesto êxito através de um novo contrato com um novo agente (muito mais comercial), Steve Sesnick, sendo quatro os álbuns lançados até a dissolução completa do grupo em 1970, quando a MGM cedeu à nova lei moralista do presidente Nixon em eliminar bandas cujas propostas envolvessem a propagação das drogas ou o hippie. Ao final dos anos 70, encontraram a tão sonhada popularidade através das novas revoluções juvenis vindas da Europa: o glamrock, o punk e o pós-punk. Andy continuou com seus filmes, a Fábrica etc. Encontrou-se com Lou diversas vezes até sua morte em 1987. Sobre o novo agente contratado, "a pessoa que eles escolheram" – lamentou – "era nefasta".

Como moscas, nascidas para os prazeres baixos, a banda sobrevoou o pútrido – porém sedutor – odor do jardim de Warhol até definharem, pouco a pouco, na prisão de suas plantas carnívoras como obras-produtos tais quais as imagens representadas pelos quadros e filmes pop. Deu-se assim o conturbado casamento entre ambientes até então antagônicos: o rock'n'roll e a arte. Um matrimônio de não mais que cinco anos e de poucos frutos para a posterioridade, retalhados entre a sombra da Fábrica, a falta de maturidade do público e gravadoras, e principalmente a difícil relação entre os cônjuges.

Discofrafia selecionada

The Velvet Underground & Nico (1967) White Light White Heat (1968)
The Velvet Underground (1969)
The Velvet Underground Live Vol. 1&2 (1969)
The Velvet Underground Loaded (1970)
V.U. A Collection of Previously Unreleassed Recordins (1985)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

MOTOSIERRA: XXX (No Fun Records)

Em quase dez anos de carreira, o quarteto uruguaio Motosierra nunca foi nenhuma unanimidade e eles pareciam está pouco se fodendo com isso. Faziam o som que gostavam com tesão, urgência e entrega típicos de quem está se divertindo pra cacete. Este primeiro disco da banda, editado originalmente em 2001 pelo selo No Fun, da Argentina, é uma porrada! Além das influências obvias (Stooges e Motörhead), o som dos caras guarda ainda certa similaridade a coisinhas que não fazem mal a ninguém como GG Allin, Dwarves e Turbonegro. "Violator" e "Cocaine Aways Back" já são clássicos.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

HITLER 3° MUNDO: UM FILME DE JOSÉ AGRIPPINO DE PAULA (1968)

Por Luís Gustavo
Escrito, dirigido e produzido por José Agrippino de Paula no auge da repressão militar, Hitler 3° Mundo é uma das mais radicais experiências do cinema marginal. A alucinante profusão de imagens e colagens absurdas do filme de Agrippino de Paula compõem uma visão peculiaríssima de seu tempo, em sequências de fortíssimo impacto. Rodado na clandestinidade e nunca exibido no circuito comercial, Hitler 3° Mundo é um dos mais contundentes registros do cinema nacional.

Sinopse: Paranóia, culpa, miséria e tecnologia num país subdesenvolvido. Narrativa fragmentária, enquadramentos distorcidos, gritos e ruídos. O nazismo toma conta da cidade de São Paulo: prisão e tortura de revolucionários, um samurai perdido no caos, amantes trancafiados, o ditador e sua corja de bárbaros conservadores.


Produção: José Agrippino de Paula
Direção e roteiro: José Agrippino de Paula
Fotografia: Jorge Bodansky
Montagem: Rudá de Andrade e Walter Luís Rogério
Elenco: Jô Soares, José Ramalho, Eugênio Kusnet, Luiz Fernando Rezende, Túlio de Lemos, Sílvia Werneck, Maria Esther Stckler, Ruth Escobar, Jairo Savini, Danielle Palumbo, Jonas Mello, Carlos Silveira, Fernando Benini e Manoel Domingos

domingo, 22 de novembro de 2009

IT'S NOT HUMAN, IT'S HUMAN TRASH!!!

Por Marco Butcher Acho que a cidade de São Paulo dispensa apresentações quando o assunto é violência e sujeira, que estão não só nas ruas, mas também incutidas na cultura, pensamento e atitude das pessoas que moram ali. Alguns se perdem em meio ao caos da grande metrópole enquanto outros, como é o caso dos Human Trash utilizam essa “escola do lixo” para transformar demência e crueza em algo que ultrapasse a mediocridade e verve tão características da cidade.É fato que a música rock atual em grande parte anda meio mal das pernas, me lembro de um tempo onde a palavra rock causava medo aos pais e espanto nos amigos, mas isso foi muito antes da banalização do termo. A tal revolução não virá na forma de milhões de adolescentes tomando as ruas num brado selvagem de fúria, mas na atitude de uns poucos que, como os Human Trash ainda são munidos de ALMA, palavra esta que passou a ser quase uma arma a serviço do combate contra toda a pasteurização e total falta de veracidade nas artes.Nascidos em meio a toda essa loucura urbana e expostos desde muito cedo às várias ramificações da musica, Mayra, Mari e Luis parecem ter entendido o recado da CIDADE e, muito bem entendido por sinal, misturando basicamente o melhor da musica de forma simples e direta! O trio poderia ser descrito como um soco na cara não fosse minha vontade de dissecá-lo um pouco mais numa tentativa de explicar como isso chega aos seus ouvidos, meu caro. Imagine um Dragster a 200 por hora, agora ponha nisso duas guitarras imundas em FUZZ com os riffs mais ardentes que sua pobre cabeça (rocker?) poderia pensar, junte a isso um kit de bateria construído a partir de peças encontradas na rua o que inclui, é claro, uma gigantesca lata de lixo que faz o papel do bumbo, com os vocais divididos entre os três num mix de coisas mais sexies como o melhor de Hollis Queens ou simplesmente estourando os pulmões de forma primitiva e descontrolada no melhor estilo Julia Kafritz (Pussy Galore) num dia bom. Trash music com influencias que vão desde a obscura no wave de Nova York ao melhor do blues e das garage bands dos anos 50 e 60.Ficou ao meu cargo colocar todos estes ingredientes dentro do liquidificador e fechar a tampa, o que me pareceu missão nada impossível inclusive por ter atuado como produtor em outros projetos dos integrantes do trio, tais como Pullovers, Back Seat Drivers, Fabulous Go Go Boy From Alabama e The Dealers. Durante o mês de agosto o estúdio Caffeine recebe o trio para a primeira sessão do álbum de estréia da banda.



No mais é aguardar o lançamento deste primeiro álbum que deve contar com a parceria da Mamma Vendetta Produções e ColdRice Records. Os Human Trash tem também nos planos um split single como os fellas Solid Soul Disciples e que sairá no formato vinil ainda este ano e uma tour que o levará até Montevideo no Uruguai no mês de outubro. Rock on kids!

DWARVES: BLOOD, GUTS & PUSSY/THANKS HEAVEN FOR LITTLE GIRLS (Sub Pop)

Politicamente incorreto até a medula, o Dwarves é uma lenda viva do punk americano. Formado no início dos anos 80, o grupo permanece em plena atividade, chocando o pensamento mediano e tirando o sono de feministas, motoristas e mais outros istas na cidade de San Francisco há pelo menos um quarto de século. Riffs mortíferos, letras escatológicas, sexo bizarro, drogas, orgias e performances violentas em shows que raramente duram mais de vinte minutos! Se essa descrição não causar interesse, não sei mais o que fazer.

Dwarves - Toolin' For Lucifers Crank (1986-1988)
Dwarves - Blood, Guts & Pussy (1990)

Dwarves - Thanks Heaven For Little Girls (1991)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

U-MEN: SOLID ACTION (Crazed Swamp-Punk circa 1981-1987)

Talvez não seja justo culpa-los por isso, mas muito do que ficou conhecido como "grunge", foram apenas ressonâncias do som que o grupo punk U-Men produziu no comecinho dos anos 80. Tudo começou por volta de 1981, na friorenta cidade de Seattle, onde o guitarrista Tom Price e seu amigo, o baterista Charlie Ryan, resolveram formar uma banda de rock inspirada na barulheira garage-punk-a-billy de grupos como Cramps e Birthday Party. Para assumir as demais funções no grupo a dupla convidou o mais que agitado vocalista John Bigley e o baixista Robin Buchan - que não segurou a onda por muito tempo, sendo substituido pelo menino Jim Tillman.

Em 1984 gravaram pela Bombshelter Records um EP homônimo com quatro faixas. Não era muito fácil classificar aquele tipo de som que os cara faziam, então o melhor que os carimbadores de plantão puderam fazer foi rotulá-los como "swamp-o'-billy". Em 85, o grupo participou da compilação Deep Six, ao lado do Green River e do Soundgarden. Marco zero do tal "Seattle sound", seja lá o que isso signifique...

Quando a Homestad Records colocou no mercado o segundo EP da rapaziada, Step on a Bug, a banda já estava nas últimas, encerrando suas atividades em 1988, sem jamais ter obtido o devido reconhecimento ou mesmo participado do estouro do som que eles ajudaram a forjar.

No entanto, em 1997, o U-Men foi de certa forma redescoberto pela moçada da nova geração por intermédio da canção "Dig it a Hole", um dos grandes destaques da trilha sonora do documentário Hype!. Aproveitando o pequeno buchicho em torno da banda, Mike Stein da Chuckie-Boy Records lançou esta coletânea intitulada Solid Action.

As dezoito faixas do álbum revelam uma banda punk com uma sonoridade extremamente diversa do que se fazia na época. Explosiva, cínica, torta, agressiva, sarcástica e crua. Para a garota que está começando a se liga em música agora e pegou a coisa toda já diluída, o som da banda talvez soe estranho e barulhento demais. O que é até bem compreensível. Não é todo mundo que nasce com espírito aventureiro. Para os mais espertos, esta compilação é coisa fina! Fica a dica.

Link: U-men - Solid Action (Chuckie-Boy Records)


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

WRECK: HOUSE OF BORIS (1991)

Da geração que tomava o underground americano de assalto no início dos anos 90, surgia o Wreck - power trio mal-encarado da cidade de Chicago, Illinois. Bicho estranho no catálogo da gravadora Wax Trax! (selo especializado em música eletrônica), o Wreck detonava uma sonzeira pavorosa, regurgitando a pauleira valvulada do velho Black Sabbath, sem soar anacrônico ou mera cópia dos ingleses. Áspero, puto e sujo pra cacete (cortesia da "sutil" produção do menino Steve Albini), House of Boris é uma categórica chapuletada na orelha, onde nem a sacolejante "Atomic Dog" de George Clinton escapa ilesa.