quinta-feira, 22 de outubro de 2009

THE WIPERS: IS THIS REAL?/YOUTH OF AMERICA/OVER THE EDGE (Sub Pop)

Por C.P. jr do Blog Volume 11
No fim dos anos 70, em Portland, longe das grandes cenas hype/punk dos EUA, um rapaz magro tocava em seu quarto, sozinho, uma SG que gritava com uma distorção sombria, enquanto imaginava como seria ter uma banda só dele. Não fantasiava sobre ser aclamado, ter legiões de fãs, groupies e toda sorte de (in)comododidades que o sucesso traz.

Ele pegava uma caneta e colocava num caderno suas letras, a maioria falando de sua solidão, de sua inadequação. Da cidade e suas figuras e sobre sua vida nada glamurosa. Especulações à parte, foi longe de tudo e todos, com mais dois amigos e um 4-track, que gravou sua primeira coleção de músicas, Is This Real?, e assim veio a existir o Wipers.

Anos se seguiram após o lançamento de seu primeiro disco e, se a lata vazia é a que mais retumba, a repercursão quase nula talvez seja diametralmente idêntica à sua qualidade e relevância. Talvez, fossem seus objetivos outros além de produzir música de qualidade, Greg Sage tivesse desistido. Felizmente o sucesso nunca foi seu objetivo e, assim, o Wipers seguiu lançando, ano após ano, discos fenomenais que hoje são considerados como marcos históricos do punk norte-americano.

Seguindo Is This Real? veio Youth of America, que seguia modelos bastante distintos do resto dos grupos punks da época. Enquanto a maioria deles se esforçava em conter seu ataque na casa dos 2, 3 minutos, a música que dá título ao segundo disco do Wipers chega aos 10 minutos. Além disso, a capa (um cartoon do mapa dos EUA e personagens de desenhos animados) foi rechaçada por todas as gravadoras por ser muito afrescalhada e não ser uma boa representação do que se pensava ser o punk. Sendo assim, pela segunda vez, apesar de lançar mais uma obra prima, outra futura referência para a história do punk, os Wipers passaram despercebidos e seria assim até o lançamento de seu próximo disco, Over the Edge. O terceiro disco dos Wipers, estranhamente, e a despeito da falta de empenho de Greg Sage em promovê-lo, como fôra com os anteriores, encontrou um certo reconhecimento imediato, o que fez com que os novos apreciadores da banda partissem atrás dos seus lançamentos prévios. Finalmente estavam fincados no imaginário punk o outro lado da moeda. o lado que contrasta com a irreverência dos Ramones e dos New York Dolls, o lado que fazia a geração vazia de Richard Hell parecer um gênero inócuo pra vender discos e o "no hope" e protesto dos Sex Pistols soar sem sentido e infantil e, por fim, o punk que fez todos os outros guitarristas do gênero parecerem crianças brincando de tocar.No entanto, os Wipers permaneceram no underground, muito por escolha do próprio Sage. Nos anos 90, quando já haviam desbandado, ganharam certa notoriedade quando Kurt Cobain, no auge da fama, gravou D-7 e Return of the Rat (ambas do Is This Real?). Mais que isso, os ecos dos riffs fantásticos e letras soturnas de Greg Sage e seus Wipers podiam ser ouvidos em qualquer música do Nirvana que você escolhesse ouvir... repentinamente, os tentáculos obscuros de uma banda que jamais havia saído de Portland pareciam impregnar toda uma geração de moleques pegando guitarras e querendo ser o próximo Kurt enquanto ele mesmo parecia um próximo e bem sucedido Greg Sage.



Os anos passaram, Kurt morreu, os Wipers acabaram e voltaram. Suas direções mudaram, mas o que permanece intacto é o talento, a força e a contundência de cada riff, cada refrão, cada arranjo que Greg tira de sua velha, surrada e distorcida SG plugada em suas caixas construidas no quintal de casa. A posteridade parece esperar aquele que sempre fez questão de esnobar a fama e o sucesso.