segunda-feira, 10 de agosto de 2009

FRAGMENTOS DA PUNKITUDE SOLAR

Pepe Escobar [1983]
Qual quer que seja o pesadelo que tenhamos, nele sempre representamos um papel, sempre somos protagonistas, somos alguém. Durante a noite o deserdado triunfa. Se os maus sonhos fossem suprimidos, haveria revoluções em série. A ira insolente e depravada do urro de guerra punk foi um verdadeiro pesadelo revolucionário. Na música popular, encaixou-se – como não poderia deixar de ser – no habitual ciclo de destruição, reconstrução e cristalização. Punk demoliu a barroca podridão em que o rock, indolente, onanista, autocomplacente, exercia seu flerte com luxo e riqueza. Punk foi um fulminante agente temporário. Missão secreta, tarefa limitada: purificar pelo fogo do barulho indiscriminado. Cumpriu sua missão. A partir daí, não poderia permanecer como música – pois não era música nem se arrastar agonizante para a tumba da inutilidade, sob a gélida lápide da indiferença. Mas isso é apenas coisa de Londres, Amsterdam, Berlin e Nova York, centros apodrecidos do pré-apocalipse? Nem tanto. Em Sampa, na remota América do Sul, os garotos de subúrbio estavam muito atentos. Em plena adolescência, quando diariamente o coração é dilacerado por um machado de cristal, qualquer um pode ser punk. A new wave – este regresso à infância da música pop – é coisa de rico, ou pelo menos remediado. Nos anos 60, tudo era límpido, franco: a música não tinha nada de contaminado. A esta fantasia arcádica, a new wave incorporou o libreto da ópera-bufa punk: noções precisas de justiça social, messianismo militante e esclarecedor, e desrespeito por resquícios da Antigüidade. Mas cuidado: os garotos de subúrbio de Sulamérica estavam falando sério: estavam se transformado em punks no rito e no grito.

Sem flash, estrondo ou ruído – para o mundo lá fora – em novembro de 81, no Stop, clube da zona leste de SP, acontece o primeiro festival punk da cidade, com Cólera, Olho Seco, Lixomania e Inocentes. Para se livrar de crise, desemprego, discriminação e angst urbana, o garoto de subúrbio não tinha cristais, anfetaminas ou pérolas: agora, uma gang em formação e gritos acumulados sobre guitarras distorcidas o levavam à obscuridade e embriaguez de antes do desencadeamento da luz. Finalmente encontrava um êxtase ininterrupto no cerne da opacidade original. Punk tropical: uma experiência interior. Vestidos de negro, cool, assexuados, esguios, os garotos começaram a invadir as galerias do Centrão, escavando rizomas nos corredores dos escritórios, perturbando a atonia dos pedestres descarnados, jogando sua nova identidade na cara da cidade com um cuspe gelado. Negras purulências no tecido urbano, discreta e silenciosa sabotagem de um estado geral de perplexidade, catatonia e conformismo. Tinham seu bunker: o Templo, clube da zona leste. Tinham sua trincheira: a Punk Rock Discos, 1º andar das Grandes e Podres Galerias da Avenida São João. Tinham suas armas: Xerox anunciando os shows na periferia e no ABC, fanzines cuidadosamente manufaturados em seu caos gráfico, a filosofia a marteladas dos discos da primeira fase punk – Sex Pistols, Damned, Subway Sect, Slits, Killjoy, Drones, Rich Kids, X-Ray Spex, além dos mais refinados como Dead Kennedys, Alternative TV (punk fascistóide do movimento "oi"), com Exploited, Cockney Rejects, InfraRiot, heavy metal absolutamente analfabeto. Tentavam de toda formar recuperar o irrecuperável. Pois o apuncalhamento tropical corria alguns anos depois do surgimento nas matrizes, onde já se cultivavam outras coisas: Inputs étinicos, sax e sintetizadores, rap contando a barra pesada da selva, revival do soul, new pop, o pop reggae nas trancinhas louras, o culto do corpo – belo e saudável - , um vídeo em cada casa, todos os tipos de "disc" em um computador em casa mão. De igual, só a depressão – financeira e emocional. Aqui era mesmo a terra prometida dos últimos dos moicanos. Anarquia, cataclismo, que belo fim para o iluminismo. Vix-Punk, SP Punk – os fanzines – celebram a Anarquia, indicam leituras, solidarizam-se com palestinos e irlandeses, trocam correspondência, e com o passar do tempo parodiam cada vez mais a campanha eleitoral de 82. A outra imprensa, a grande, acorda de seu sonho automatizado: jornalistas teleguiados por suas respectivas Igrejas estigmatizam essa nova marginalia; a TV descobre que esses filhos da arte povera compõem um sensacional e rentável mondo cane. Na zona sul, criptopunks entediados, em busca frenética do apocalipse chic, desembarcam de seu Mercedes para dançar ao som de Clash – que só foi punk até 77 – no Galery.
Agosto de 82: choque cultural. Os Inocentes vão tocar no mesmo Galery para uma platéia criptochic e quinze ou vinte punks autênticos. Um dos cretinos de plantão sorri debochado para Callegari, o guitarrista do grupo. Ele lhe devolve uma cuspida. Pânico na zona do sul. Punk passa das páginas de "cultura" para a seção de polícia. O Carbono 14 – ambíguo lar de todos os remanescentes e todas as vanguardas – faz uma semana punk. Mas é no Sesc-Pompéia que os noviços rebeldes debutam em estilo no grande baile podre da Sampa pós-moderna/pós-retrógrada.Até aí – para a população – os punks eram algumas bandas dispersas, algumas "exóticas" figuras trajadas de negro, dois discos lançados – Grito Suburbano, com várias bandas, e o compacto do Lixomania – e uma irrecuperável postura selvagem. O festival Começo do Fim do Mundo os exibiu como macaquinhos de estimação para os "oba-obas" estilo Sesc e os aspirantes à vanguarda. Ninguém entendeu nada. Lá estava toda a punkitude: skinheads comendo pipoca e distribuindo um soco ou outro; Antônio Bivar lançando seu livro O que é Punk para orientar os eternamente desorientados; o clássico Punk Rock Movie, com Pistols, Clash e Siouxsie em vídeo; Garotos de Subúrbio – a elegante meditação do Olhar Eletrônico sobre o universo punk, gritos de "Abaixo os hippies"; e, naturalmente, as bandas, comportando-se como raids kamikaze em alguma rádio-pirata e ondulando o mar negro em frente ao palco: Negligentes, Hino Mortal, Desertores, Juíso Final, M-19, Neuróticos, Doze Brutal, Extermínio, Ulster, Psykoze, Estado de Coma, Lixomania, Olho Seco, Inocentes, Cólera, Fogo Cruzado, Ratos de Porão, Skisitas, Decadência Social. Seus nomes contam sua história e a de sua época. Mas aquela platéia ainda estava em Woodstock.Depois disso – recuperados, expostos, qualificados e descartados – os punks paulistas foram deixados em paz. Incomodam demais a boa consciência para virarem motivo de polêmica entre a letárgica intelectuália nativa. Foi lançado o disco do Fim do Mundo – com intervenções de todas as bandas e produção e audição anfetamínicas. Saiu também Sub, em vinil vermelho, com várias bandas, e Miséria e Fome, compacto dos Inocentes. Nele, a mensagem básica: "De tudo o que vivi/ de tudo que eu vi/ só uma coisa aprendi/ aprendi a odiar". Em março de 83 os punks vão para o Rio e incendeiam o Circo Voador: duas mil pessoas, entre Hell’s Angels tropicais, hippies de bata branca, intelectuais desenganados, prostitutas bêbadas e surfistas entram em transe. O Globo registra o saudável tumulto em uma página.



Como no punk do primeiro mundo, o punk da terra da inflação de 12% ao mês revela como o establishment controla a tresloucada energia libidinal da juventude rebelde. Acabaram os James Dean, assim como os gritos de guerra do primeiro momento punk: "No More Heroes" (Stranglers), "White Riot" (Clash), "Anarchy" (Sex Pistols). Mas a recuperação não foi tão longe quanto poderia. Punk tropical nem mesmo virou fashion, porque é autêntico demais, agressivo demais, revelador de uma profunda solidão demais. Em uma de suas músicas, dizem: "Os punks também amam". Sim, e como, quando todos indulgem no sexo fácil ou nos cristais gélidos para afogar sua solidão. No subúrbio paulistano, forjou-se uma antipolítica capaz de pelo menos combater o microfascismo cotidiano: os punks do subúrbio paulista são o retorno do reprimido por uma "cultura" de compromisso, hipocrisia desmedida e idiotas abissais. Os punks negam até a morte. Mas não há negador que não esteja sedento de um catastrófico sim.


Discografia selecionada

Grito Suburbano (Olho Seco, Inocentes, Cólera - 1982)
O Começo do Fim do Mundo (Sesc Pompéia - 1982)
SUB (R.D.P., Cólera, Psykóze, Fogo Cruzado - 1983)
Olho Seco - Botas, Fuzis e Capacetes (1983)
Inocentes - Miséria e Fome (1983)
Ratos de Porão - Crucificados Pelo Sistema (1984)
Ataque Sonoro (R.D.P., Lobotomia, Armagedon - 1985)
Psychic Possessor - Nós Somos A América Do Sul (1985)
Lobotomia - Lobotomia (1987)