quarta-feira, 22 de julho de 2009

SLOWBOAT FILMS: ENTREVISTA COM MARC LITTER

A Slowboat Films é uma companhia de cinema independente sediada em Frankfurt na Alemanha e foi idealizada por Marc Littler, o diretor de filmes que traz o universo musical na veia de suas realizações, retratado tanto em documentários sobre bandas do circuito underground europeu, como em filmes ficcionais que contam com alguns desses músicos como atores, fazendo com que exista uma simbiose absoluta entre a música e o cinema.
Seus filmes mostram na maior parte das vezes o universo musical, tratando a música de forma realista e flagrando a rotina dos artistas independentes - músicos, gravadoras, programas de rádio, revistas e tudo aquilo que faz parte do universo da música rock. Tendo em seu catálogo trabalhos lançados que vão desde vídeos para artistas como King Automatic ou Mojomatics, passando por documentários que incluem The Gospel of Primitive Rock’n Roll (Voodoo Rhythm), Dead is Not the End (The Dead Brothers), os longas The Road to Nod e o lançamento Folk Singer que traz Possessed by Paul James, Scott H. Biran e Reverend Dead Eye num filme que conta a historia destes três trovadores da música folk e blues.

A Mamma Vendetta prepara para os próximo meses uma mostra desses filmes e workshops com Marc Litter aqui no Brasil, assim como shows que ilustrarão esse universo.

Segue aqui a entrevista que Marco Butcher fez com Marc e que decifra algumas de nossas dúvidas com relação à essa mente criativa, que leva ao extremo a noção da integração entre as artes.


Marco Butcher - Poderia nos dizer como o conceito da Slowboat filmes surgiu na sua mente?

Marc Litter
- Quando fui para a faculdade de cinema, ficou claro que o meu conceito de cineasta estava em desacordo com a indústria. Eu estava interessado em uma visão pessoal da coisa, como Cassavettes, e eles estavam preocupados com as mesmas fórmulas de TV e cinema. Era um negócio e a arte era arbitrária. Eu nunca me conectei a isso, e provavelmente foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Não houve nenhum apoio, então fui forçado a fazer tudo sozinho - e essa foi à base da minha idéia de Cinema Maverick - crua e pessoal.

MB - A Slowboat filmes está sempre conectada com a música de alguma maneira, como é que funciona para você e por que você decidiu utilizar músicos como atores?

ML - Isso nunca foi intencional. Eu simplesmente trabalho com os meus amigos, e acontece que eles normalmente são artistas underground, escritores e músicos.


MB - Você tem uma maneira própria de trabalhar ou tudo depende do tipo de coisa que você está fazendo, seja um vídeo ou um filme?

ML -
A essência de qualquer coisa que faço está centrada na sinceridade. Tudo que escrevo e produzo lida com questões que dizem respeito a mim, ao meu mundo e ao mundo dos meus amigos. É pessoal e nada é fabricado conforme as tendências atuais. Minha maneira de trabalho começa com uma sólida preparação. Levo muito tempo preparando meus projetos e isso é essencial para saber exatamente o que quero realizar antes de começar. O filme tem que estar concluído já na minha cabeça antes de entrar em produção. Com as minhas composições e poesias é diferente, é mais instintivo, mais sensual e eu mesmo me permito a mais contradições. Basicamente os filmes têm origem na minha cabeça, as canções e poemas vêm do calor do sentimento*. "âmago da besta".

MB - Para trabalhar em um nível independente requer alguma atitude, pois não podemos contar com investidores ou alguma outra maneira de conseguir algum dinheiro para adiantar o trabalho, como você lida com isso?

ML -
Não há nenhuma formula financeira. Eu já fiz filmes que custaram a partir de 5 mil até 150 mil dólares. Alguns deles eu mesmo financiei dirigindo uma ambulância, um táxi, ou mesmo tomando conta de bar. Outros foram financiados por investidores independentes que quiseram participar deste peculiar estilo de vida de rock n' roll, bares e esbórnia. A chave é certificar-se de quem quer que esteja investindo compreende que ele ou ela não terá nenhuma voz criativa. O pessoal do dinheiro fica responsável somente pelo dinheiro e os artistas responsáveis pela arte.

MB - O que torna a música tão importante na sua maneira de fazer cinema?

ML - A música é minha amante. Tom Waits, John Coltrane, Blind Gary Davis, Gun Club... É de onde eu venho. Eles são como parentes mortos que eu nunca conheci. Eles estavam lá quando eu tinha 14 anos e ainda vão estar lá quando eu chutar o balde. Aprendi muito sobre escrita com grandes compositores como Waits, Dylan e Cohen.

MB - The Folk Singer é o seu mais recente filme, certo? Poderia nos contar um pouco sobre ele?

ML - Bem, a idéia era fazer um filme anti-rock 'n' roll: sem fingimentos ou afetações, apenas emoções humanas reais, dor verdadeira, felicidade real e luta verdadeira. Eu acho que Scott Biram colocou melhor quando disse: "Podemos regozijar-nos uns com os outros compartilhando da dor". O filme é realmente uma trindade: Fala sobre os homens, a música e a América. Fala sobre a condição humana, a política e a música.

MB - Que tipo de informação a Slowboat têm sobre o Brasil e a América do Sul?

ML - Minha mãe trabalhava para uma companhia aérea e me lembro de sempre ouvir histórias exóticas sempre que ela voltava da América do Sul. Meu velho contrabandeava Mahagoni (tipo de madeira)* do Brasil para a Europa no início da década de 80 e meu padrinho morou em São Paulo dos 61 aos 74 anos. No meu trabalho, a dualidade da beleza e violência desempenha um grande papel e eu passei muito tempo na África estudando essas questões e gostaria de fazer o mesmo na América do Sul.


MB - Como seria a trilha sonora perfeita para os seus filmes?

ML - Em um mundo de sonhos seria algo parecido com isso: Arvo Pärt encontra Howling Wolf. The Einstürzende Neubauten encontra Leadbelly. E Tom Waits encontra Caruso! No mundo real eu trabalho estreitamente com os meus amigos músicos. Aqueles que eu sinto que entendem o meu mundo cinemático, e mais importante, a atmosfera que tento criar. Estou mais preocupado com a atmosfera do que com a história.

MB - Poderia nos dizer, na sua opinião, quem está fazendo bons filmes atualmente e porquê?

ML -
A maioria dos meus heróis estão mortos... Caras como Sam Fuller, John Cassavettes, John Houston... Hoje eu gosto de Werner Herzog, Emir Kusturica e Aki Kaurismäki... Eu gosto de caras que aparecem com uma pistola e um tapa-olho para fazer um filme.MB - Poderia ser realista dizer que o mercado de cinema independente passou por grandes mudanças nos últimos anos em termos de ter mais opções e maior quantidade de bons artistas colocando a alma acima de tudo e, ao mesmo tempo, o fato de que temos que lidar com a época digital em que todos podem baixar tudo e todos.Que tipo de política a Slowboat adota sobre isso?

ML - Acho que o cinema mudou para pior! E eu acho que o termo "independente" foi corrompido no cinema e na música... Chamam o Pearl Jam de independente atualmente. Ser independente para mim significa financiamento independente e completo controle criativo para o cineasta, bem como controle sobre o que acontecerá com o filme quando estiver terminado... E o cineasta tem de possuir os direitos de seus filmes - que é a sua garantia! No que diz respeito à revolução digital vai: mais pessoas podem fazer mais filmes hoje do que no passado, mas não creio que isso resulte numa maior quantidade de filmes bons. Eu acho que você tem que lutar e lutar para fazer uma boa arte... É o seu rito de passagem. Muita gente acha que o futuro do cinema está na Internet... Eu pessoalmente prefiro cinemas antigos... Gosto das cortinas à parte para começar o show. Além disso, quando eu comecei era mais fácil de ganhar a vida porque as pessoas tinham de pagar para ver meus filmes... Agora está tudo ilegalmente acessível na Internet... Eu temo que o meu tipo de cultura venha a desaparecer por todos os outros estarem se tornam "freeware".



MB - Você tem algum projeto futuro, ou está trabalhando em um novo filme agora?

ML -
Nos últimos 10 meses estive escrevendo quatro novos filmes e um documentário sobre milícias e survivalismo nos EUA. Os filmes são ficções sobre o fim do mundo, drogas e corrupção. A maior parte de 2009 passei escrevendo canções para o meu projeto musical "The Redemption Family" São canções matadoras, cantigas dementes de piratas, tangos mortais, rumbas tóxicas... É música perigosa.