quarta-feira, 15 de julho de 2009

SAM PECKINPAH: A PROSTITUTA

Por Enderson Nobre
Sam Peckinpah é um realizador ianque que surge naqueles inacreditáveis e maravilhosos anos sessenta, onde Hollywood estava aberta as influências européias e tinha ainda gente que gostava de cinema no comando dos estúdios, possibilitando a realização de obras transgressoras e inovadoras para os padrões da época.

Junto com Peckinpah temos Arthur Penn, Frankenheimer e outros que fizeram parte da chamada nouvelle vague do cinema americano, onde a arte tinha mais valor que a grana. Nesse contexto, temos um dos meus diretores preferidos, que já foi chamado por um certo crítico de cinema brasileiro - que ama musicais - “de prostituta...”

Essa prostituta chamada Sam Peckinpah, nasceu no ano de 1926 em Fresno, Califórnia. Descendente de índios paiutes e formado em arte dramática, começou a carreira como roteirista em um filme do grande Dom Siegel e, em seguida, implementou uma seqüência de realizações para a televisão como o seriado “The Rifleman”. Em 1960, escreveria o roteiro de “Face Oculta”, um faroeste que seria dirigido por Stanley Kubrick, mas acabou se tornando o único filme dirigido por Marlon Brando; diga-se de passagem, um filmaço!Peckinpah ficou conhecido por desglamourizar o western e subverter, embora sempre de forma respeitosa, os arquétipos criados por John Ford e John Wayne. Nos filmes de Peckinpah não existem heróis, apenas homens desesperados que, assim como uma era, sabem que estão próximos do fim. A cena de abertura do clássico “Meu Ódio será sua Herança”, fala por si só.

O diretor foi acusado por críticos de cinema cínicos de glamourizar a violência e de ser misógino e moralista; o que os críticos se recusaram a perceber, é que o western de Peckinpah se aproximava da realidade americana e ousava tratar algo tão caro a esta sociedade de forma seca, dura e implacável. Ele não era um mero esteta da violência, na verdade, seu cinema era composto de um realismo despojado, cruel e brutal – nós não estávamos mais nos seguros anos cinqüenta, os EUA estavam acordando para o mundo e Peckinpah era um dos seus guias, revelando o absurdo e a violência do “novo mundo.”

Nos seus filmes a vida humana vale tanto quanto o preço de uma bala, seus anti-heróis eram homens solitários vivendo a beira do abismo e quase sempre tinham um destino sangrento. Ambiguidade, crueza, violência e pessimismo são ingredientes sempre presentes em seus filmes.

Selvagem como seus personagens, Peckinpah viveu no limite; rebelde, não fazia concessões aos figurões da indústria cinematográfica e, quando se sentia pressionado, não tinha o menor pudor em abandonar o conforto hollywoodiano para se meter no México e filmar sua obra prima, “Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia.” Puto com o tratamento que seu filme anterior recebeu dos produtores, Peckinpah resolver realizar seu novo projeto fora de seu país. Magoado, sem dinheiro e cada vez mais envolvido com álcool e drogas, ele foi se refugiar do outro lado da fronteira ianque, onde pode consumir maiores quantidades de substancias ilícitas e perder o controle de vez, realizando sua obra mais transgressora e bela.Levando consigo o maior anti-herói do cinema americano, o ator Worrem Oates, Peckinpah parecia que estava filmando uma obra autobiográfica - é inegável a comparação entre ele e Bennie, personagem de Oates no filme. Ambos são proscritos e desesperados, suas vidas estão aos pedaços. Na fita: desesperança, melancolia, dor e uma sangrenta redenção estão no caminho de Bennie. O filme não fez sucesso e Peckinpah voltou para os EUA e realizou outras obras excelentes, mas “Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia”, talvez seja seu filme mais pessoal e por isso mesmo é tão pungente.Peckinpah morreu aos 59 anos em um hospital de Los Angeles, depois de sofrer um ataque cardíaco quando passava ferias com sua esposa, a atriz Begona Palácios no México. Peckinpah voltou lá pela última vez... morria um dos maiores rebeldes do cinema norte-americano.