terça-feira, 28 de julho de 2009

BLUE CHEER: LOUDER THAN GOD!

Por Luís Gustavo
O conceito de power trio surgiu ainda nos anos 60, em plena efervescência da era psicodélica. Este tipo de formação ficou conhecida por explorar ao máximo as possibilidades tecnológicas da época, em experimentações com distorção e microfonia, conduzidas com intensidade e selvageria em altíssimos decibéis que chegavam mesmo a beirar o limite do suportável. Os mais famosos power trios dos anos 60 foram o Cream e o The Jimi Hendrix Experience. Nenhum deles, é claro, foi tão barulhento, selvagem e radical quanto o lendário trio californiano Blue Cheer.

Numa época onde ainda cabia a tola discussão guitarra vs violão, este ensandecido trio de adeptos da pauleira valvulada elevou o conceito de power trio a patamares inimagináveis de brutalidade sônica, através de vocais ultra-agressivos, amplificação saturada e muita distorção e microfonia nos instrumentos. Isso tudo sem contar a indefectível postura de fodões do mal que Dickie Peterson e sua turma cultivam até hoje no alto de seus mais de sessenta anos. Precursores do crossover punk metal, que fez a fama de bandas da pesada como o Motörhead, o Blue Cheer também tem como grande mérito o fato de ter desbravado caminhos para outros grupos igualmente radicais da época como The Stooges e MC5, influenciando gerações.

"Tenho muito orgulho de liderar uma das bandas que ajudou o heavy metal a se tornar realidade. No entanto, somos referência para grupos punks e talvez tenhamos sido igualmente influentes para o grunge e vários outros estilos. Nos anos sessenta, essas coisas não existiam. Éramos um power trio e só. Nem existia uma definição ou rótulo para metal na época. A música do Blue Cheer é barulhenta, honesta, crua, direta, e por isso influenciamos tantos estilos mais pesados."

Dickie Peterson

Formado originalmente como um sexteto por músicos egressos de bandas como Group B e Oxford Circle - em meados de 1966, na mesma San Francisco psicodélica do Grateful Dead e do Jerfferson Airplane -, o Blue Cheer logo perdeu metade de seus integrantes que não suportaram o peso da primeira turnê. Assim, no início de 1967 o grupo decidiu seguir como um trio: Dickie Peterson (vocais e baixo), Leigh Stevens (guitarra) e Paul Whaley (bateria). A chamada formação clássica do grupo, que gerou seus melhores trabalhos e estabeleu todo o estilo pelo qual eles são conhecidos e cultuados até hoje.

Segundo os anais, a inspiração para o nome Blue Cheer teria vindo de um poderoso tipo de LSD que circulava naquela época, desenvolvido por um químico chamado Owsley Stanley - um doido que acabou se tornando uma espécie de guru dos rapazes. Stanley fazia parte daquela turma que andava com o pessoal do Grateful Dead e mantinha ligações com os Hell's Angels. Daí, o grupo também passou a ter estreitas relações com essa violenta gangue de motoqueiros, que comparecia em peso as não menos violentas apresentações do trio.

O Blue Cheer passou então a contar com o apoio de um dos fundadores dos Hell's Angels, um sujeito conhecido como "Gut", tatuador e artista plástico que, entre outras coisas, foi o responsável pela arte gráfica da banda nos primórdios. Gut tinha uma garota chamada Nancy Winarick, que foi a pessoa que bancou o primeiro registro do grupo, uma demo tape com três canções. A tal fita acabou caindo nas mãos do menino Abe "Voco" Kesh, um DJ de San Francisco que se prontificou a empresariar o grupo e rapidamente conseguiu um contrato de gravação com a Mercury Records.

Em janeiro de 1968, chega às lojas o hecatômbico álbum de estreia, Vincebus Eruptum, que fez relativo sucesso na época. O disco, uma espécie de jam-session barulhenta e atonal, era a coisa mais brutal gravada até então. Na esteira do lançamento desse primeiro álbum, o Blue Cheer seguiu numa orgia de apresentações onde, não raro, as performances dos caras acabavam em quebradeiras generalizadas.As pessoas geralmente saiam espantadas. O som mega-amplificado das guitarras fazia a audiência recuar fisicamente devido a incrível rajada de barulho, o baixo pesado e ultra-distorcido, induzia abalos sísmicos, e eles tinham ainda aquele baterista monstruoso, que fazia Keith Moon parecer um maricas tocando. Pete Townshend, líder do Who, chegou até mesmo confessar ter ficado assustado com a fúria e intensidade do Blue Cheer, quando o trio abriu um show do Who em fevereiro de 68. Ron Asheton, guitarrista dos Stooges, é outro que saiu impressionado: "A gente tinha aberto pro Blue Cheer no Grande Ballroom (em Detroit), e eles tinham uma espécie de amplificadores Marshall triplo e eram tão barulhentos que chegava a doer, mas nós adoramos: 'UAU, amplificadores triplos, cara'". Para reiterar toda essa sanha, os garotos gravaram no mesmo ano o segundo álbum, Outsideinside. O disco é uma perfeita continuação dos esporros registrados no álbum anterior e é considerado por muitos a obra-prima do Blue Cheer. Nesse segundo LP o grupo deu uma evoluída, injetando uma certa dose de lisérgica aos temas sem perder o punch e a agressividade. O disco ainda traz inacreditáveis versões para "(I Can't Get No) Satisfaction", dos Stones e "The Hunter", do bluesman Albert King.



Outsideinside também marca o fim da primeira fase do grupo, com a saída do guitarrista Leigh Stevens. A partir daí, Peterson e sua gangue prosseguiriam por mais algum tempo, até meados de 1971, com uma rotatividade de músicos absurda, em discos cada vez mais distantes da sonoridade original. Dentre os discos lançados pela grupo durante esse período, o melhor talvez seja o LP New! Improved!, terceiro álbum da banda, que conta com o legendário guitarrista do Other Half, Randy Holden (músico homenageado pelo Mudhoney em "Holden").

Em 1979, Peterson fez uma frustrada tentativa de revival, reativando o conjunto com outros músicos, no entanto, a coisa só vingou (ainda que relativamente) por volta de 1984, quando o baixista conseguiu convencer ao menos um dos integrantes originais a aderir ao projeto, o baterista Paul Whaley. Dessa associação saiu o pouco expressivo The Beast Is Back (1985), seguido pelo ao vivo Blitzkrieg in Nüremberg' (1989), Highlight And Lowlives (1990), e algumas coletâneas e bootlegs. Em 1999 é a vez de outro álbum ao vivo, Hello Tokyo, Bye Bye Osaka. O último trabalho gravado em estúdio, What Doesn't Kill You, saiu em 2007. Não é nenhuma obra prima, mas ao menos mostra que os velhinhos ainda têm muita lenha pra queimar. Enfim, o menino Dickie Peterson e seus comparsas continuam aí em plena atividade, com sua eterna fama de mau, em shows tão ruidosos e barulhentos quanto os dos early years. Se aposentar pra quê, né?



Discografia selecionada

Blue Cheer - Vincebus Eruptun (1968)
Blue Cheer - Outsideinside (1968)
Blue Cheer - Denver Family Dog (1968)
Blue Cheer - New! Improved! (1969)
Blue Cheer - Hello Tokyo, Bye Bye Osaka (1999)

Blue Cheet - What Doesn't Kill You (2007)


BLUE EXPLOSION: A TRIBUTE TO BLUE CHEER (2000)

Blue Explosion é um disco tributo que traz em suas 16 faixas, bandas obscuras de stoner rock empetrepando clássicos do power trio californiano Blue Cheer. É bem verdade que em discos desse tipo seja normal uma banda ou outra comprometer o resultado final, mas aqui todos os participantes contribuíram com boas versões para algumas das músicas desta banda seminal, que ajudou a definir o conceito de rock pesado ainda nos anos 60.

Link: Blue Explosion Tribute To Blue Cheer (2000)