terça-feira, 28 de julho de 2009

BLUE CHEER: LOUDER THAN GOD!

Por Luís Gustavo
O conceito de power trio surgiu ainda nos anos 60, em plena efervescência da era psicodélica. Este tipo de formação ficou conhecida por explorar ao máximo as possibilidades tecnológicas da época, em experimentações com distorção e microfonia, conduzidas com intensidade e selvageria em altíssimos decibéis que chegavam mesmo a beirar o limite do suportável. Os mais famosos power trios dos anos 60 foram o Cream e o The Jimi Hendrix Experience. Nenhum deles, é claro, foi tão barulhento, selvagem e radical quanto o lendário trio californiano Blue Cheer.

Numa época onde ainda cabia a tola discussão guitarra vs violão, este ensandecido trio de adeptos da pauleira valvulada elevou o conceito de power trio a patamares inimagináveis de brutalidade sônica, através de vocais ultra-agressivos, amplificação saturada e muita distorção e microfonia nos instrumentos. Isso tudo sem contar a indefectível postura de fodões do mal que Dickie Peterson e sua turma cultivam até hoje no alto de seus mais de sessenta anos. Precursores do crossover punk metal, que fez a fama de bandas da pesada como o Motörhead, o Blue Cheer também tem como grande mérito o fato de ter desbravado caminhos para outros grupos igualmente radicais da época como The Stooges e MC5, influenciando gerações.

"Tenho muito orgulho de liderar uma das bandas que ajudou o heavy metal a se tornar realidade. No entanto, somos referência para grupos punks e talvez tenhamos sido igualmente influentes para o grunge e vários outros estilos. Nos anos sessenta, essas coisas não existiam. Éramos um power trio e só. Nem existia uma definição ou rótulo para metal na época. A música do Blue Cheer é barulhenta, honesta, crua, direta, e por isso influenciamos tantos estilos mais pesados."

Dickie Peterson

Formado originalmente como um sexteto por músicos egressos de bandas como Group B e Oxford Circle - em meados de 1966, na mesma San Francisco psicodélica do Grateful Dead e do Jerfferson Airplane -, o Blue Cheer logo perdeu metade de seus integrantes que não suportaram o peso da primeira turnê. Assim, no início de 1967 o grupo decidiu seguir como um trio: Dickie Peterson (vocais e baixo), Leigh Stevens (guitarra) e Paul Whaley (bateria). A chamada formação clássica do grupo, que gerou seus melhores trabalhos e estabeleu todo o estilo pelo qual eles são conhecidos e cultuados até hoje.

Segundo os anais, a inspiração para o nome Blue Cheer teria vindo de um poderoso tipo de LSD que circulava naquela época, desenvolvido por um químico chamado Owsley Stanley - um doido que acabou se tornando uma espécie de guru dos rapazes. Stanley fazia parte daquela turma que andava com o pessoal do Grateful Dead e mantinha ligações com os Hell's Angels. Daí, o grupo também passou a ter estreitas relações com essa violenta gangue de motoqueiros, que comparecia em peso as não menos violentas apresentações do trio.

O Blue Cheer passou então a contar com o apoio de um dos fundadores dos Hell's Angels, um sujeito conhecido como "Gut", tatuador e artista plástico que, entre outras coisas, foi o responsável pela arte gráfica da banda nos primórdios. Gut tinha uma garota chamada Nancy Winarick, que foi a pessoa que bancou o primeiro registro do grupo, uma demo tape com três canções. A tal fita acabou caindo nas mãos do menino Abe "Voco" Kesh, um DJ de San Francisco que se prontificou a empresariar o grupo e rapidamente conseguiu um contrato de gravação com a Mercury Records.

Em janeiro de 1968, chega às lojas o hecatômbico álbum de estreia, Vincebus Eruptum, que fez relativo sucesso na época. O disco, uma espécie de jam-session barulhenta e atonal, era a coisa mais brutal gravada até então. Na esteira do lançamento desse primeiro álbum, o Blue Cheer seguiu numa orgia de apresentações onde, não raro, as performances dos caras acabavam em quebradeiras generalizadas.As pessoas geralmente saiam espantadas. O som mega-amplificado das guitarras fazia a audiência recuar fisicamente devido a incrível rajada de barulho, o baixo pesado e ultra-distorcido, induzia abalos sísmicos, e eles tinham ainda aquele baterista monstruoso, que fazia Keith Moon parecer um maricas tocando. Pete Townshend, líder do Who, chegou até mesmo confessar ter ficado assustado com a fúria e intensidade do Blue Cheer, quando o trio abriu um show do Who em fevereiro de 68. Ron Asheton, guitarrista dos Stooges, é outro que saiu impressionado: "A gente tinha aberto pro Blue Cheer no Grande Ballroom (em Detroit), e eles tinham uma espécie de amplificadores Marshall triplo e eram tão barulhentos que chegava a doer, mas nós adoramos: 'UAU, amplificadores triplos, cara'". Para reiterar toda essa sanha, os garotos gravaram no mesmo ano o segundo álbum, Outsideinside. O disco é uma perfeita continuação dos esporros registrados no álbum anterior e é considerado por muitos a obra-prima do Blue Cheer. Nesse segundo LP o grupo deu uma evoluída, injetando uma certa dose de lisérgica aos temas sem perder o punch e a agressividade. O disco ainda traz inacreditáveis versões para "(I Can't Get No) Satisfaction", dos Stones e "The Hunter", do bluesman Albert King.



Outsideinside também marca o fim da primeira fase do grupo, com a saída do guitarrista Leigh Stevens. A partir daí, Peterson e sua gangue prosseguiriam por mais algum tempo, até meados de 1971, com uma rotatividade de músicos absurda, em discos cada vez mais distantes da sonoridade original. Dentre os discos lançados pela grupo durante esse período, o melhor talvez seja o LP New! Improved!, terceiro álbum da banda, que conta com o legendário guitarrista do Other Half, Randy Holden (músico homenageado pelo Mudhoney em "Holden").

Em 1979, Peterson fez uma frustrada tentativa de revival, reativando o conjunto com outros músicos, no entanto, a coisa só vingou (ainda que relativamente) por volta de 1984, quando o baixista conseguiu convencer ao menos um dos integrantes originais a aderir ao projeto, o baterista Paul Whaley. Dessa associação saiu o pouco expressivo The Beast Is Back (1985), seguido pelo ao vivo Blitzkrieg in Nüremberg' (1989), Highlight And Lowlives (1990), e algumas coletâneas e bootlegs. Em 1999 é a vez de outro álbum ao vivo, Hello Tokyo, Bye Bye Osaka. O último trabalho gravado em estúdio, What Doesn't Kill You, saiu em 2007. Não é nenhuma obra prima, mas ao menos mostra que os velhinhos ainda têm muita lenha pra queimar. Enfim, o menino Dickie Peterson e seus comparsas continuam aí em plena atividade, com sua eterna fama de mau, em shows tão ruidosos e barulhentos quanto os dos early years. Se aposentar pra quê, né?



Discografia selecionada

Blue Cheer - Vincebus Eruptun (1968)
Blue Cheer - Outsideinside (1968)
Blue Cheer - Denver Family Dog (1968)
Blue Cheer - New! Improved! (1969)
Blue Cheer - Hello Tokyo, Bye Bye Osaka (1999)

Blue Cheet - What Doesn't Kill You (2007)


BLUE EXPLOSION: A TRIBUTE TO BLUE CHEER (2000)

Blue Explosion é um disco tributo que traz em suas 16 faixas, bandas obscuras de stoner rock empetrepando clássicos do power trio californiano Blue Cheer. É bem verdade que em discos desse tipo seja normal uma banda ou outra comprometer o resultado final, mas aqui todos os participantes contribuíram com boas versões para algumas das músicas desta banda seminal, que ajudou a definir o conceito de rock pesado ainda nos anos 60.

Link: Blue Explosion Tribute To Blue Cheer (2000)

segunda-feira, 27 de julho de 2009

WHERE THE PYRAMID MEETS THE EYE: A TRIBUTE TO ROKY ERICKSON (1990)

Where The Pyramid Meets The Eye é um disco em homenagem a Roky Erickson, gênio visionário do grupo psicodélico sessentista 13th Floor Elevators. Na compilação, artistas como Richard Lloyd, R.E.M., Jesus and Mary Chains, Primal Scream e Butthole Surfers, comparecem em intrigantes versões para algumas das maravilhas criadas por Erickson em sua acidentada, porém brilhante trajetória.

sábado, 25 de julho de 2009

BUTTHOLE SURFERS: HAIRWAY TO STEVEN (Touch and Go)

Hairway To Steven é o sexto disco dos Butthole Surfers, um clássico do rock moderno, repleto de epifanias sônicas e referências esculachadas à cultura pop. O título do álbum, por exemplo, é um trocadilho infame com a famigerada "Stairway To Heaven" do Led Zeppelin. Este pequeno detalhe, porém, não passa de uma bobagenzinha de nada se comparada aos absurdos que estão por vir, tão logo a agulha comece a correr pelos sulcos.

Formado pelo vocalista Gibby Haynes e pelo guitarrista Paul Leary, em San Antonio, Texas, em meados de 1981, os "surfistas do olho do cu" já passaram por inúmeras formações, mas sempre mantiveram como núcleo: Haynes, Leary e o baterista King Coffey, que os acompanha desde 1983.

"Butthole Surfers era o nome de uma música nossa. Sempre tivemos nomes estúpidos, primeiro Dick Clark Five, depois Vodka Family Winstons e Ashtray Baby Heads. Um dia fomos tocar num clube e o apresentador não sabia o nosso nome. Nessa época era Right To Eat Fred Astaire’s Asshole (O direito de comer o cu de Fred Astaire). Ele olhou para a lista de músicas e leu o nome da primeira música que viu... 'Butthole Surfers'. Nesse show ganhamos 150 dólares, então achamos que seria legal manter o nome", disse Leary numa entrevista nos anos 90.



Hairway To Steven é um exemplo bem-acabado da porra-louquice dos Surfers. Está tudo lá: os vocais distorcidos, as colagens malucas, as letras esquisitas de Haynes... A cada faixa uma diferente manifestação do notável desequilíbrio mental desse bando que conseguiu como ninguém, fazer dos mais ultrajantes signos do mau gosto, pura arte.

Link: Butthole Surfers - Hairway To Steven (1988)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

BLACK FUTURE: EU SOU O RIO (1988)

O Black Future surgiu no cenário pop brasileiro dos anos 80 com uma interessantíssima proposta estética, misturando histórias em quadrinhos, Antonin Artaud e ideologia punk, em contundentes letras-poema declamadas sobre uma base instrumental sem pares. Neste disco de estréia, lançado em 1988, e produzido pelo crítico musical Thomas Pappon, o grupo carioca injeta atitude punk e experimentalismos eletrônicos em seu samba-noise assessorado por membros do Ira!, Defalla, Fellini, Kongo, Coquetel Molotov e Titãs.

Link: Black Future - Eu Sou O Rio (1988)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

SLOWBOAT FILMS: ENTREVISTA COM MARC LITTER

A Slowboat Films é uma companhia de cinema independente sediada em Frankfurt na Alemanha e foi idealizada por Marc Littler, o diretor de filmes que traz o universo musical na veia de suas realizações, retratado tanto em documentários sobre bandas do circuito underground europeu, como em filmes ficcionais que contam com alguns desses músicos como atores, fazendo com que exista uma simbiose absoluta entre a música e o cinema.
Seus filmes mostram na maior parte das vezes o universo musical, tratando a música de forma realista e flagrando a rotina dos artistas independentes - músicos, gravadoras, programas de rádio, revistas e tudo aquilo que faz parte do universo da música rock. Tendo em seu catálogo trabalhos lançados que vão desde vídeos para artistas como King Automatic ou Mojomatics, passando por documentários que incluem The Gospel of Primitive Rock’n Roll (Voodoo Rhythm), Dead is Not the End (The Dead Brothers), os longas The Road to Nod e o lançamento Folk Singer que traz Possessed by Paul James, Scott H. Biran e Reverend Dead Eye num filme que conta a historia destes três trovadores da música folk e blues.

A Mamma Vendetta prepara para os próximo meses uma mostra desses filmes e workshops com Marc Litter aqui no Brasil, assim como shows que ilustrarão esse universo.

Segue aqui a entrevista que Marco Butcher fez com Marc e que decifra algumas de nossas dúvidas com relação à essa mente criativa, que leva ao extremo a noção da integração entre as artes.


Marco Butcher - Poderia nos dizer como o conceito da Slowboat filmes surgiu na sua mente?

Marc Litter
- Quando fui para a faculdade de cinema, ficou claro que o meu conceito de cineasta estava em desacordo com a indústria. Eu estava interessado em uma visão pessoal da coisa, como Cassavettes, e eles estavam preocupados com as mesmas fórmulas de TV e cinema. Era um negócio e a arte era arbitrária. Eu nunca me conectei a isso, e provavelmente foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Não houve nenhum apoio, então fui forçado a fazer tudo sozinho - e essa foi à base da minha idéia de Cinema Maverick - crua e pessoal.

MB - A Slowboat filmes está sempre conectada com a música de alguma maneira, como é que funciona para você e por que você decidiu utilizar músicos como atores?

ML - Isso nunca foi intencional. Eu simplesmente trabalho com os meus amigos, e acontece que eles normalmente são artistas underground, escritores e músicos.


MB - Você tem uma maneira própria de trabalhar ou tudo depende do tipo de coisa que você está fazendo, seja um vídeo ou um filme?

ML -
A essência de qualquer coisa que faço está centrada na sinceridade. Tudo que escrevo e produzo lida com questões que dizem respeito a mim, ao meu mundo e ao mundo dos meus amigos. É pessoal e nada é fabricado conforme as tendências atuais. Minha maneira de trabalho começa com uma sólida preparação. Levo muito tempo preparando meus projetos e isso é essencial para saber exatamente o que quero realizar antes de começar. O filme tem que estar concluído já na minha cabeça antes de entrar em produção. Com as minhas composições e poesias é diferente, é mais instintivo, mais sensual e eu mesmo me permito a mais contradições. Basicamente os filmes têm origem na minha cabeça, as canções e poemas vêm do calor do sentimento*. "âmago da besta".

MB - Para trabalhar em um nível independente requer alguma atitude, pois não podemos contar com investidores ou alguma outra maneira de conseguir algum dinheiro para adiantar o trabalho, como você lida com isso?

ML -
Não há nenhuma formula financeira. Eu já fiz filmes que custaram a partir de 5 mil até 150 mil dólares. Alguns deles eu mesmo financiei dirigindo uma ambulância, um táxi, ou mesmo tomando conta de bar. Outros foram financiados por investidores independentes que quiseram participar deste peculiar estilo de vida de rock n' roll, bares e esbórnia. A chave é certificar-se de quem quer que esteja investindo compreende que ele ou ela não terá nenhuma voz criativa. O pessoal do dinheiro fica responsável somente pelo dinheiro e os artistas responsáveis pela arte.

MB - O que torna a música tão importante na sua maneira de fazer cinema?

ML - A música é minha amante. Tom Waits, John Coltrane, Blind Gary Davis, Gun Club... É de onde eu venho. Eles são como parentes mortos que eu nunca conheci. Eles estavam lá quando eu tinha 14 anos e ainda vão estar lá quando eu chutar o balde. Aprendi muito sobre escrita com grandes compositores como Waits, Dylan e Cohen.

MB - The Folk Singer é o seu mais recente filme, certo? Poderia nos contar um pouco sobre ele?

ML - Bem, a idéia era fazer um filme anti-rock 'n' roll: sem fingimentos ou afetações, apenas emoções humanas reais, dor verdadeira, felicidade real e luta verdadeira. Eu acho que Scott Biram colocou melhor quando disse: "Podemos regozijar-nos uns com os outros compartilhando da dor". O filme é realmente uma trindade: Fala sobre os homens, a música e a América. Fala sobre a condição humana, a política e a música.

MB - Que tipo de informação a Slowboat têm sobre o Brasil e a América do Sul?

ML - Minha mãe trabalhava para uma companhia aérea e me lembro de sempre ouvir histórias exóticas sempre que ela voltava da América do Sul. Meu velho contrabandeava Mahagoni (tipo de madeira)* do Brasil para a Europa no início da década de 80 e meu padrinho morou em São Paulo dos 61 aos 74 anos. No meu trabalho, a dualidade da beleza e violência desempenha um grande papel e eu passei muito tempo na África estudando essas questões e gostaria de fazer o mesmo na América do Sul.


MB - Como seria a trilha sonora perfeita para os seus filmes?

ML - Em um mundo de sonhos seria algo parecido com isso: Arvo Pärt encontra Howling Wolf. The Einstürzende Neubauten encontra Leadbelly. E Tom Waits encontra Caruso! No mundo real eu trabalho estreitamente com os meus amigos músicos. Aqueles que eu sinto que entendem o meu mundo cinemático, e mais importante, a atmosfera que tento criar. Estou mais preocupado com a atmosfera do que com a história.

MB - Poderia nos dizer, na sua opinião, quem está fazendo bons filmes atualmente e porquê?

ML -
A maioria dos meus heróis estão mortos... Caras como Sam Fuller, John Cassavettes, John Houston... Hoje eu gosto de Werner Herzog, Emir Kusturica e Aki Kaurismäki... Eu gosto de caras que aparecem com uma pistola e um tapa-olho para fazer um filme.MB - Poderia ser realista dizer que o mercado de cinema independente passou por grandes mudanças nos últimos anos em termos de ter mais opções e maior quantidade de bons artistas colocando a alma acima de tudo e, ao mesmo tempo, o fato de que temos que lidar com a época digital em que todos podem baixar tudo e todos.Que tipo de política a Slowboat adota sobre isso?

ML - Acho que o cinema mudou para pior! E eu acho que o termo "independente" foi corrompido no cinema e na música... Chamam o Pearl Jam de independente atualmente. Ser independente para mim significa financiamento independente e completo controle criativo para o cineasta, bem como controle sobre o que acontecerá com o filme quando estiver terminado... E o cineasta tem de possuir os direitos de seus filmes - que é a sua garantia! No que diz respeito à revolução digital vai: mais pessoas podem fazer mais filmes hoje do que no passado, mas não creio que isso resulte numa maior quantidade de filmes bons. Eu acho que você tem que lutar e lutar para fazer uma boa arte... É o seu rito de passagem. Muita gente acha que o futuro do cinema está na Internet... Eu pessoalmente prefiro cinemas antigos... Gosto das cortinas à parte para começar o show. Além disso, quando eu comecei era mais fácil de ganhar a vida porque as pessoas tinham de pagar para ver meus filmes... Agora está tudo ilegalmente acessível na Internet... Eu temo que o meu tipo de cultura venha a desaparecer por todos os outros estarem se tornam "freeware".



MB - Você tem algum projeto futuro, ou está trabalhando em um novo filme agora?

ML -
Nos últimos 10 meses estive escrevendo quatro novos filmes e um documentário sobre milícias e survivalismo nos EUA. Os filmes são ficções sobre o fim do mundo, drogas e corrupção. A maior parte de 2009 passei escrevendo canções para o meu projeto musical "The Redemption Family" São canções matadoras, cantigas dementes de piratas, tangos mortais, rumbas tóxicas... É música perigosa.

domingo, 19 de julho de 2009

PSYCH-OUT: ORIGINAL SOUNDTRACK (1968)

Há alguns meses postei aqui a trilha do filme Riot On Sunset Strip, um daqueles filmes psicodélicos de baixo orçamento dos anos 60, cuja grande curiosidade acaba sendo a aparição de algumas bandas de garagem do período. Pois bem, em Psych-Out (no Brasil, Busca Alucinada) temos algo semelhante. Na trilha sonora só temas originais de obscuros grupos psicodélicos sessentistas como The Strawberry Alarm Clock, The Storybook, Boenzee Cryques e os proto-punks The Seeds, banda do maluquete Sky Saxon que faleceu há pouco tempo - mais precisamente no mesmo dia que o menino Michael Jackson. Vejam só que azar...

quarta-feira, 15 de julho de 2009

SAM PECKINPAH: A PROSTITUTA

Por Enderson Nobre
Sam Peckinpah é um realizador ianque que surge naqueles inacreditáveis e maravilhosos anos sessenta, onde Hollywood estava aberta as influências européias e tinha ainda gente que gostava de cinema no comando dos estúdios, possibilitando a realização de obras transgressoras e inovadoras para os padrões da época.

Junto com Peckinpah temos Arthur Penn, Frankenheimer e outros que fizeram parte da chamada nouvelle vague do cinema americano, onde a arte tinha mais valor que a grana. Nesse contexto, temos um dos meus diretores preferidos, que já foi chamado por um certo crítico de cinema brasileiro - que ama musicais - “de prostituta...”

Essa prostituta chamada Sam Peckinpah, nasceu no ano de 1926 em Fresno, Califórnia. Descendente de índios paiutes e formado em arte dramática, começou a carreira como roteirista em um filme do grande Dom Siegel e, em seguida, implementou uma seqüência de realizações para a televisão como o seriado “The Rifleman”. Em 1960, escreveria o roteiro de “Face Oculta”, um faroeste que seria dirigido por Stanley Kubrick, mas acabou se tornando o único filme dirigido por Marlon Brando; diga-se de passagem, um filmaço!Peckinpah ficou conhecido por desglamourizar o western e subverter, embora sempre de forma respeitosa, os arquétipos criados por John Ford e John Wayne. Nos filmes de Peckinpah não existem heróis, apenas homens desesperados que, assim como uma era, sabem que estão próximos do fim. A cena de abertura do clássico “Meu Ódio será sua Herança”, fala por si só.

O diretor foi acusado por críticos de cinema cínicos de glamourizar a violência e de ser misógino e moralista; o que os críticos se recusaram a perceber, é que o western de Peckinpah se aproximava da realidade americana e ousava tratar algo tão caro a esta sociedade de forma seca, dura e implacável. Ele não era um mero esteta da violência, na verdade, seu cinema era composto de um realismo despojado, cruel e brutal – nós não estávamos mais nos seguros anos cinqüenta, os EUA estavam acordando para o mundo e Peckinpah era um dos seus guias, revelando o absurdo e a violência do “novo mundo.”

Nos seus filmes a vida humana vale tanto quanto o preço de uma bala, seus anti-heróis eram homens solitários vivendo a beira do abismo e quase sempre tinham um destino sangrento. Ambiguidade, crueza, violência e pessimismo são ingredientes sempre presentes em seus filmes.

Selvagem como seus personagens, Peckinpah viveu no limite; rebelde, não fazia concessões aos figurões da indústria cinematográfica e, quando se sentia pressionado, não tinha o menor pudor em abandonar o conforto hollywoodiano para se meter no México e filmar sua obra prima, “Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia.” Puto com o tratamento que seu filme anterior recebeu dos produtores, Peckinpah resolver realizar seu novo projeto fora de seu país. Magoado, sem dinheiro e cada vez mais envolvido com álcool e drogas, ele foi se refugiar do outro lado da fronteira ianque, onde pode consumir maiores quantidades de substancias ilícitas e perder o controle de vez, realizando sua obra mais transgressora e bela.Levando consigo o maior anti-herói do cinema americano, o ator Worrem Oates, Peckinpah parecia que estava filmando uma obra autobiográfica - é inegável a comparação entre ele e Bennie, personagem de Oates no filme. Ambos são proscritos e desesperados, suas vidas estão aos pedaços. Na fita: desesperança, melancolia, dor e uma sangrenta redenção estão no caminho de Bennie. O filme não fez sucesso e Peckinpah voltou para os EUA e realizou outras obras excelentes, mas “Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia”, talvez seja seu filme mais pessoal e por isso mesmo é tão pungente.Peckinpah morreu aos 59 anos em um hospital de Los Angeles, depois de sofrer um ataque cardíaco quando passava ferias com sua esposa, a atriz Begona Palácios no México. Peckinpah voltou lá pela última vez... morria um dos maiores rebeldes do cinema norte-americano.

terça-feira, 14 de julho de 2009

HYPE! THE ORIGINAL MOTION PICTURE SOUNDTRACK (1996)

Hype! é um documentário sobre a cena musical de Seattle, cidade que no início da década de 90 foi considerada "a meca" do rock alternativo americano (Ah!). A película faz um retrospecto da história do cenário musical da cidade, dos primórdios até o estouro de várias bandas locais sob o horroroso rótulo grunge. Para os fãs do gênero, a trilha-sonora deste documentário funciona como uma ótima compilação de bandas. Na verdade não há mesmo muito que falar sobre o disco. Grupos históricos como Wipers, Dead Moon e U-Men se misturam a alguns nomes mais novos como o Flop e outros mais conhecidos como Mudhoney, Tad, etc. Ouçam!

segunda-feira, 13 de julho de 2009

THE SONICS: THE JERDEN YEARS 1966-69

Este álbum é uma antologia com todos os registros que os Sonics fizeram durante o período em que o grupo fez parte do cast da Jerden. A coletânea trás o terceiro disco da banda na íntegra, mais singles e raridades, como a cover que eles fizeram para "Anyway The Wind Blows", faixa do primeiro álbum de Frank Zappa, Freak Out!. Mesmo não apresentando a mesma sujeira e visceralidade do material presente em seus dois primeiros LPs, estas gravações impressionam pela pegada e urgência. O único senão no repertório da Jerden está nas últimas faixas da compilação, onde a banda faz uma infeliz tentativa de seguir a tendência psicodélica que, definitivamente, nunca foi a praia deles.