domingo, 28 de junho de 2009

DESTROY ALL MONSTERS: THE ORIGINAL SONIC DEATH!

Por Luís Gustavo
Eles foram um dos maiores abortos do cenário musical dos anos 1970. Uma banda cujo desprezo às convenções e à "bunda-molice" da cena rock vigente se manifestava desde o nome: Destroy All Monsters. Destruir todos os dinossauros do rock parecia mesmo ser a principal meta deste combo de freaks barulhentos que criou para si o epíteto de 'banda anti-rock', unindo o drone do Velvet Underground e o ataque sonoro das bandas de Detroit do final dos anos 60 a uma desconcertante postura iconoclasta - como em "November 22, 1963", clássico supremo do grupo, no qual a cantora Niagara descreve com ironia o momento em que os pedaços da cabeça do ex- presidente americano John F. Kennedy se espalham pelos ares.

"Jackie, Jackie Kennedy, hold onto his brains"

November 22, 1963

O Destroy All Monsters surgiu como um conceito. Um manifesto contra o inócuo e altocomplacente rock do início da década de 70. Naquela época, o gênero havia se tornado uma máquina de fazer milhões e milhões de dólares. Os gordos e gananciosos executivos da indústria do disco riam à toa. Verdadeiras orgias de platina eram promovidas e grandes arenas na Europa e nos EUA lotadas em turnês milionárias. Comercialmente falando, o rock nunca esteve tão bem. Isso tudo, é claro, em detrimento da autenticidade e relevância do gênero, que havia perdido suas características básicas enquanto estilo afinado aos anseios e inquietações da juventude planetária.

O punk, como todos sabem, aconteceu na Inglaterra justamente para acabar com essa festa. No entanto, muito antes disso acontecer na velha ilha, já havia nos EUA um pessoal bem a fim de "desafinar o coro dos contentes". Uma horda de inconformados, espalhados em pequenos focos isolados por todo o país. Um desses grupos vinha da região do meio-oeste, mais precisamente da cidade de Ann Arbor, e era composto por alguns estudantes de arte da Universidade de Michigan. Foi no centro dessa pequena agremiação que surgiu o injustamente ignorado Destroy All Monsters - punks antes dos punks.

Comandando o grupo em sua fase áurea estavam os míticos Michael Davis (ex-baixista do MC5) e Ron Asheton (guitarrista dos Stooges) que, após o fim de suas respectivas bandas, juntaram-se a esse bando de alucinados que vinha tramando o assassinato da música desde 1973. Em sua primeira fase a banda era composta pela modelo e artista plástica Niagara (única integrante presente em todas as encarnações do grupo), seu então namorado - e também artista plástico - Cary Loren e dois outros renegados da Escola de Arte da Universidade de Michigan, os meninos Jim Shaw e Mike Kelley. A proposta original do grupo expressa no manifesto escrito por Loren, não deixava dúvidas quanto a suas intenções: atacar as estruturas do establishment, ridicularizando todo o circo armado em torno dos rockstars. Como eu já havia mencionado, o Destroy All Monsters surgiu basicamente como uma espécie de banda conceitual. Nas referências estéticas do grupo, uma miríade de espectros culturais os mais diversos: filmes noir, quadrinhos underground, literatura marginal, filmes B etc. O nome do grupo, inclusive, foi tirado de um daqueles filmes de monstros bem tranqueiras do cinema japonês.Musicalmente falando, eles forjaram um amálgama de psicodelia-torta-de-garagem, krautrock, free jazz, musique concrete, serialismo eletrônico e toda sorte de dejetos de música experimental e barulhos diversos, levados a cabo a partir de uma parafernália de instrumentos musicais esdrúxulos que incluía pianos de brinquedo mega-amplificados, aspiradores de pó, secadores de cabelo, trompete, sax, violino e pedais de guitarra estragados.

A primeira apresentação dos Destroy All Monsters aconteceu numa noite de réveillon de 1973, durante uma convenção de histórias em quadrinhos em Ann Arbor, Michigan. Nesse concerto o grupo executou uma aterradora versão de "Iron Man", do Black Sabbath. Desnecessário dizer que o barulho que eles dispacharam contra aquela gente não agradou. Tanto que demorou um bocado para que conseguissem fazer um outro concerto. Para o público de rock daquela época, o Destroy All Monsters devia mesmo ser uma banda bem indigesta.

Neste período, além das pouquíssimas apresentações, Loren e sua turma produziram alguns filmes com a banda e registraram várias de suas 'anti-músicas' em gravações caseiras que só vieram a público em 1994, com o lançamento de um box-set de tiragem limitada com todas as atrocidades cometidas por eles entre 1974 e 1976. Jim Shaw e Mike Kelley decidiram então deixa a banda no verão de 76, encerrando a fase embrionária do conjunto. Com a saída de Kelley e Shaw, foram convocados os irmãos Ben e Roger Miller (esse último, futuro fundador do Mission of Burma). Em seguida, Loren e Niagara resolvem convidar um de seus heróis para fazer parte do Destroy All Monsters, o guitarrista Ron Asheton - peça-chave no novo direcionamento do grupo.

Asheton, por sua vez, teve a brilhante ideia de chamar o amigo Michael Davis, do desativado MC5. "Em 1976, após um ano atrás das grades, retornei a Ann Arbor, foi quando um artista chamado Cary Loren veio à minha casa com Ron Asheton. Eles me falaram sobre começar uma banda de música experimental unida a um rock pop art energético. Eles contavam com uma linda vocalista cujo nome era Niagara, e me perguntaram se eu gostaria de tocar baixo com eles", lembra Davis.Com esta nova formação, o grupo deu uma guinada em direção a um formato de banda mais "tradicional", se é que podemos usar esse termo nos referindo a uma banda como esta... Algo como The Stooges com uma garota no vocal. Nas apresentações (invariavelmente insanas) Niagara drenava energia do mais puro negativismo, extrapolando todos os limites do bom gosto numa mise-en-scène caótica e depravada, enquanto Ron Asheton e Michael Davis trucidavam os falantes dos amplificadores com uma muralha de distorção pavorosa.

Niagara, Asheton e Davis acabaram tornando-se o núcleo da banda. Cary Loren e os irmãos Miller deixaram o grupo em 1978, após o lançamento do compacto "Bored"/"You're Gonna Die", sendo substituídos por um único novo integrante, o baterista Rob King. Com ele, gravaram os compactos "Meet The Creeper" e "Nobody Knows". Em sua obscura trajetória a banda deixou apenas alguns poucos registros. Todo o material disponível até hoje é encontrado apenas em pequenas compilações ou lançados em bootlegs.



O quarteto encerrou as atividades por volta de 1985. Ron Asheton e Niagara voltariam a aterrorizar as plateias norte-americanas e européias somente em meados dos 90, quando resolveram formar um novo grupo chamado Dark Carnival, que tinha na bateria o menino Scott "Rock Action" Asheton, irmão de Ron e também ex-integrante dos Stooges. Apesar do quase completo anonimato e da fama de 'malditos', o Destroy All Monsters deixou um inestimável legado para a música alternativa mundial, sendo reverenciada por figuras como Ian McKaye, Mike Watt, Thurston Moore e o escatológico GG Allin.