sábado, 25 de abril de 2009

CAPTAIN BEEFHEART AND HIS MAGIC BAND: SAFE AS MILK AND MORE...

Don Van Vliet, o Captain Beefheart, é mesmo um sujeito muito estranho. Formou um grupo batizado com o nome de Magic Band, no qual os integrantes recebiam nomes esquisitos como Drumbo, Zoot Horn Rollo, Ed Marimba e Winged Eel Fingerling, é conhecido pela terrível prática de massacrar psicologicamente seus músicos de modo que, ao impingir raiva neles, pudesse extrair o máximo de expressividade de suas performances e, mesmo sem qualquer conhecimento técnico musical, foi capaz de criar obras revolucionárias que inspiram grupos musicais e artista de vanguarda até os nossos dias.

O excêntrico "Capitão Coração-de-Boi" nasceu em Glendale, Califórnia, no dia 15 de janeiro de 1941. Aos quatro anos de idade já demonstrava aptidões artísticas, através de pinturas e esculturas que ele mostrava num programa semanal de TV. Uma bolsa de estudos na Europa foi oferecida ao garoto, mas seus pais temerosos em largar o pimpolho no sórdido mundo das artes, recusaram a oferta. Em seguida, a família mudou-se para uma cidade do interior da Califórnia chamada Lancaster, no meio do deserto de Mojave.

Nessa nova cidade, o garoto, com apenas 13 anos, começou a se interessar por música e aprendeu sozinho a tocar saxofone e gaita. Em pouco tempo passou a fazer parte de grupos locais como The Omens e The Blackouts. Ainda na adolescência, conheceu no colégio um jovenzinho com aspirações artísticas similares as suas, o então desconhecido Frank Zappa. Os dois resolveram ir morar numa cidade próxima a Lancaster chamada Cucamonga, a fim de rodarem um filme, "Captain Beefheart Meet the Grunt People". Não deu certo. A experiência lhe permitiu tirar ao menos uma coisa: o nome Captain Beefheart, pelo qual ficaria conhecido como uma das mais singulares figuras de todo o rock.Em 1964, de volta a Lancaster, o jovem músico formou seu próprio conjunto, a Magic Band (que à época contava com os guitarristas Alex St. Clair e Doug Moon, o baixista Jerry Handley e o baterista Paul Blakely). No mesmo ano eles assinaram um contrato com a A&M Records. Os atritos com o selo começaram quando a banda mostrou suas novas composições. Os executivos consideraram o material impróprio para consumo humano. De qualquer forma, em 1966, a banda conseguiu lançar ao menos um compacto pela A&M, Diddy Wah Diddy, original de Bo Diddley. Em 1967, a banda assinou com a Buddah Records e lançou seu primeiro álbum, o seminal Safe As Milk – disco favorito de John Lennon naquele ano.

Embora apresente músicas ainda presas a estruturas melódicas tradicionais, Safe As Milk dá algumas pistas do que Beefheart e seus asseclas aprontariam nos próximos discos. O som consistia basicamente num rock pesado, com andamentos absurdos, letras esquisitas e vocais ao estilo do bluesman Howlin’ Wolf. Don Van Vliet era um cara de 26 anos de idade que cantava como um negrão de 55 - o que era fantástico! Todas essas particularidades chamaram a atenção da crítica, e fizeram com que o álbum obtivesse uma certa projeção, o que não se traduziu necessariamente em sucesso comercial.

O disco seguinte do grupo foi o controverso Strictly Personal, jogado no mercado pela Buddah à revelia de Beefheart. Depois de mais atritos com mais uma gravadora, Captain Beefheart e sua Magic Band foram uma vez mais dispensados. A rotatividade de músicos na Magic Band também era constante e, nesta época em especial, com os músicos desempregados e sem dinheiro algum, a coisa ficou preta de verdade.

Como todos moravam juntos numa mesma casa em Woodland Hills (subúrbio de Los Angeles), e não tinham mais o que fazer além de tocar, a banda atirou-se em longos e torturantes ensaios diários. Tocavam sem parar sob um clima de grande tensão, sempre gerado pelo carrasco Beefheart. Ao longo de todo esse período de exasperação e terrorismo psicológico, a banda foi produzindo todo o material que viria a ser o terceiro disco de Captain Beefheart and his Magic Band, o duplo Trout Mask Replica, álbum produzido e lançado por Frank Zappa pelo seu selo Straight Records, em 1969. Trout Mask Replica é considerado a obra-prima de Beefheart. Influenciou bandas que vão das norte-americanas Pere Ubu e Devo, às inglesas do pós-punk como PIL, Gang of Four e The Pop Group. Sem dúvida, uma das mais corajosas e revolucionárias peças já gravadas por alguém. Na sequência, veio o também influente Lick My Decals Off, Baby, que abre sua produção durante os anos setenta, marcada por inúmeros altos e baixos e a sempre constante troca de músicos, que culminou com a deserção da banda inteira na metade da década, insatisfeita com a forma como Beefheart vinha conduzindo a Magic Band.



Em 1975, Beefheart - que havia se desentendido com Zappa após sua saída da Straight Records – reconciliou-se com seu velho chapa, e juntos gravaram o álbum Bongo Fury, um dos momentos mais preciosos de toda a extensa discografia de Frank Zappa. O início dos nos oitenta presenciou a despedida de Captain Beefheart da cena musical com o lançamento do álbum Ice Cream For Crow, de 1982. O artista foi morar com a esposa num trailer, no deserto de Mojave, passando a dedicar-se exclusivamente a pintura, a escultura e a literatura, expondo suas obras por todos os EUA e lançando livros de poema como Skeleton Breath, Scorpions Blush. Em 1988, saiu o disco tributo, Fast 'N' Bulbous, com bandas como Sonic Youth, That Petrol Emotion e The Scientists fazendo versões para algumas das pedradas do homem. Desde os anos noventa Beefheart vem sofrendo de esclerose múltipla, o que o obrigou a sair de cena. Sua obra desafiadora nos mostra que não há limites para a expressividade humana, quando o artista tem espírito livre e nenhum respeito às regras.

Discografia selecionada

Legendary A&M Sessions (1966)
Safe As Milk (1967)
Strictly Personal (1968)
Trout Mask Replica (1969)
Lick My Decals Off, Baby (1970)
Frank Zappa & Captain Beefheart Bongo Fury (1975)