sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

DAVID BOWIE: LOW (1977)

Por Tiago Santana
David Bowie, no decorrer de sua carreira, ganhou o apelido de "camaleão do rock". Flertou com folk, glam, soul, eletrônica e o caramba. Seu grande feito foi o The Rise And Fall of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars (1972), no auge da era glitter. Construiu uma persona andrógina, um super herói que veio nos contar que o apocalipse estava próximo. "Nós temos apenas cinco anos de existência..." E, por coincidência ou não, faltavam cinco anos para ele lançar esta preciosidade aqui! Durante seu auge comercial, David também alcançou o seu auge no quesito dependência química. "Los Angeles era uma cidade muito convidativa quanto às drogas, ao glamour, aos excessos. Por isso decidi me mudar para Berlin para me desintoxicar." E não é que foi uma ótima idéia? Desse período paranóico surgiu uma das maiores obras-primas dos anos 70, e até da música moderna em geral, por que não? Quem esteve acompanhando (intensamente, diga-se de passagem) a cultuada Trilogia de Berlin foi o ex-Roxy Music Brian Eno. Low foi lançado em 77, assim como "Heroes" (o que obteve maior sucesso comercial), e Lodger, finalizando a trinca, em 79. Esses dois primeiros álbums, assim como a maioria dos trabalhos do Eno (Before And After Science, Remain In Light com os Talking Heads, etc...) dividiam-se climaticamente. O lado A é agitado, acessível, fácil de ouvir. O B já é mais complicado, com música longas, lentas, ambientais, e na sua maioria de predomínio instrumental.

O que predomina no disco inteiro são as teclas, os efeitos sonoros, eletrônicos, experimentalismos com timbres, sonoridades específicas etc. Se quer guitarras e refrões mais básicos como na época do Ziggy Stardust, vai se decepcionar, eu te aviso... Este período de Berlin foi influenciado clara e assumidamente pelos alemães do Kraftwerk. Bowie chegou a dedicar uma faixa ao Florian Schneider, no "Heroes", chamada V-2 Schneider. Mas chega de cerimônias, vamos ao que realmente interessa!

O disco abre com Speed of Life, uma instrumental aparentemente simples, que serve como introdução ao álbum. Mas, assim como muitas outras obras-primas, você só vai "pegando" o conceito, a idéia, após várias e várias audições. Esses bends na guitarra, esses efeitos eletrônicos (conforme as músicas vão passando, você entenderá cada vez mais a influência do Eno), o baixo, a bateria... tudo parece estar soando diferente do normal, os instrumentos não aparentam estar emitindo os sons que nós estávamos acostumados a ouvir deles. Breaking Glass, um semi-reggae eletrônico com a melhor linha de guitarra do álbum. E o cara resolveu começar a cantar, não são letras fáceis porém. Novamente, o que me chama atenção é o baixo, que marca divinamente o tempo, sem perder o groove jamais, quase como um robô. Ih, caramba, a música já acabou? Nem deu tempo de se acostumar à ela e já tá dando fade out? DEMAIS!

Em What In The World, uns barulhos de pinballs antigos dos anos 70 são usados como fundo rítmico. Se você prestar atenção, a voz que canta junto com David é familiar, ninguém menos que Iggy Pop, o doidão mais sortudo do mundo. E no segundo refrão, se é que se pode chamar de refrão, entra um tecladinho que veio a calhar. Os detalhes são os detalhes que determinam a grandiosidade do Low. Preste atenção nos detalhes. Ah sim, agora é o hit do álbum, Sound And Vision. Lembro-me que a primeira vez que ouvi essa música foi na coletânea Best Of 1974/1979, era bem a que abria o disco. Não achei nada demais. Mas no conceito do Low, cai como uma luva, ficando magnífico! É por essas e outras que muitas vezes coletâneas não são a melhor maneira de conhecer uma banda. Lembra uma música bem praiana, ensolarada, de verão, com vocais dobrados, uma voz meio desamparada, desesperada, e outra séria, quase que entediada. Há um clima Disco nessa faixa, mas, por incrível que pareça, não me soa comercialmente estúpido, como grande parte da música Disco do fim dos anos 70. Esse cara tá cheio dos truques heim?

Always Crashing In The Same Car se destaca pela sutileza. Esse tecladinho que é usado de fundo. Quase que infantil, despreocupado, só deixando rolar. Consegue brilhantemente superar a guitarra, os outros efeitos eletrônicos, a bateria, tudo! E o que diabos essas letras tão querendo dizer caramba?? Será que toda vez que alguém passa por um período de abstinência de drogas fica imaginando essas coisas? Enfim, é um dos destaques de sua carreira, porém não é tão conhecida talvez pelo fato de não apresentar padrões de uma canção radiofônica. E é isso que a deixa ainda mais legal!

Be My Wife também teve um certo sucesso na época, com direito até a promo clip (onde aliás o Camaleão aí se comporta de uma maneira meio estranha...). É a música mais comercial do álbum, mas mesmo assim não consigo considerá-la meramente comercial. Talvez a letra mais sã também. "Please be mine, share my life, stay with me, be my wife." Até que enfim algo que (aparenta) ter nexo! E pra fechar esse Lado A alegre, sorridente, empolgado, temos outra instrumental, A New Career In A New Town. Essa bateria marcando o tempo parece muito moderna para a época não? Aparenta até estar alterada sonoramente, me lembra muito o que o pessoal do industrial, eletrônico e outras praias modernosas fariam nos anos seguintes. Temos um piano tocando uma melodia bem simples, mas que graças ao Sr. Eno ficou genial, novamente. E essa gaita no fundo. E o meio da música, com esses teclados... E o piano vai sumindo e "perdendo a coordenação", como se fosse um sonho se desmanchando, quando você está quase acordando de manhã, onde a realidade se mistura com o sono... E esse baixo que muda no finzinho... Os detalhes, os detalhes, tem gente que diz que a felicidade se encontra pelos detalhes, bem no quesito musical acho que esse disco me fez encontrar a felicidade momentânea... Bom, chega desse sentimentalismo barato. Vamos ao sombrio Lado B.



Warszawa é lenta, soturna, profunda e intensa! Vai ficando cada vez mais bela conforme passa o primeiro minuto. São instrumentos com sons tão particulares que nem consigo identificá-los ao certo. Aliás, como esses caras se preocuparam com o timbre nos mínimos detalhes, heim? E de repente, lá pelos quatro minutos, o vocal entra, cantado numa língua que eu não faço a menor idéia de qual seja. Ouvi dizer até que era uma língua inexistente que o próprio Bowie inventou... Lembra algum canto oriental, algo bem exótico, sem dúvidas. Art Decade, um nome bem sugestivo. O clima começa bem similar ao da faixa anterior. Com algo que aparenta ser um instrumento de sopro criando uma melodia bem interessante, e esses barulhos de água borbulhando no meio, que coisa... É mais repetitiva que a anterior, porém. O tema vai crescendo e se concluindo ao mesmo tempo no minuto final. Weeping Wall é sobre o Muro de Berlin. Ouvi dizer que todas as faixas desse Lado B são sobre situações que o Bowie presenciou na Alemanha - me corrijam se eu estiver errado. Tem uns xilofones (suponho que sejam xilofones, do jeito que esses caras adoram mudar o som dos instrumentos) que criam um clima "insistente", com uma guitarrinha ali, um vocal mórbido no fim, muitos ecos, de todas as faixas desse lado do disco, essa é a que mais me lembra Kraftwerk. A mais hipnótica também.


E chegamos ao fim: Subterraneans. Sem dúvidas a música mais "down" de todas as citadas. Um baixo que entra, sai, entra, sai, entra, sai, entra, sai.... como algum lunático repetindo a mesma frase várias vezes, num metrô escuro e fedorento. O sax entra lá pelo meio da música, pra aumentar ainda mais o clima underground. E essas letras, não tente entender, poupe-se de uma dor de cabeça, como a que eu tive tentando decifrá-la. A repetição nunca esteve tão genial como nessa conclusão de álbum. Tá vendo porque é tudo tão genial? Depois de ficar com esse clima na cabeça, volte para a Speed Of Life e lembre-se como tudo começou... Não é incrível? É uma mudança brusca, na primeira metade estamos empolgados, inquietos, quase que abobados... E no fim, tudo fica tão introspectivo, sinistro, noturno, escuro... Imagine se fosse lançado um single com Speed Of Life no lado A e Subterraneans no lado B? Seria como sair da água quente e pular num rio semi-congelado. É claro que com a tecnologia vindo, os cds vieram também. Portanto, esse lado visual, de ter que virar o LP para ouvir a (literalmente falando) outra face do disco, acabou sendo ofuscado. Então fica pela imaginação, se colocar em 1977, colocar o Low no stereo, e ter que ouvir um dos lados de cada vez. Dois lados opostos, que não se olham, mas se complementam genialmente. Se não existisse o Low, alguém teria que inventá-lo.