terça-feira, 20 de janeiro de 2009

BIG STAR: "I NEVER TRAVEL FAR, WITHOUT A LITTLE BIG STAR"

Por Luís Gustavo
Num mundo perfeito, a trajetória do lendário grupo pop Big Star teria sido outra. Em sua curta e acidentada carreira o quarteto não obteve mais do que o brilho fugaz de uma estrela cadente. Não fosse o fato de estarem completamente fora da tendência do que o mercado ditava naquela época e a má distribuição de seus discos, o Big Star seria, sem sombra de dúvida, uma das maiores sensações do rock americano dos anos 70. Tudo começou em 1972, quando o cantor e guitarrista Alex Chilton voltou a Memphis após uma frustrada tentativa de se estabelecer como artista solo em Nova York. Antes disso, Chilton havia largado o The Box Tops, um grupo de blue eyed soul de que fazia parte desde os dezesseis anos. O Box Tops ficou bem famoso em 1967 com hits como "The Letter" e "Soul Deep". Acontece que a ideia de fazer parte de uma banda que funcionava sob a égide de produtores, começou a incomodar o inquieto Chilton que abandonou o grupo em pleno palco no meio de uma apresentação, em 1969. Pois bem, após esse período de peregrinação pela "grande maçã", Alex reencontrou alguns velhos amigos que haviam começado uma nova banda em Memphis, a Ice Water. Desnecessário dizer que esse grupelho viria a se tornar o fabuloso Big Star, não é verdade?

No início dos anos 70, se você quisesse se dar bem no music business teria que montar uma banda progressiva ou de heavy metal. Teimosos, Chilton e seus amigos - o guitarrista e vocalista Chris Bell, o baixista Andy Hummel e o baterista Jody Stephens - preferiram pegar o caminho mais difícil. Isso mesmo, nada de seguir tendências. Mudaram o nome do grupo para Big Star (nome de um supermercado que ficava nas proximidades do estúdio onde os quatro se reuniam) e começaram a ensaiar e a compor suas próprias canções. Alex e Chris sacaram de imediato que havia uma boa química entre eles, e em pouco tempo a dupla tinha material suficiente para registrar um álbum completo, que eles gravaram ali mesmo no estúdio Ardent, onde costumavam ensaiar. Em abril de 1972, foi lançado de forma discreta o clássico # 1 Record. Dizer que o álbum foi lançado de "forma discreta" é uma bondade minha. A verdade é que houve um tremendo descaso por parte da Stax, que preferiu dar mais atenção aos seus tradicionais artista de r&b. Resultado: o disco foi muito mal distribuído e não vendeu nada.

Assim, boa parte do público lamentavelmente foi privado de conhecer maravilhas como "Fell", "The Ballad Of El Goodo", "Thirteen" e outras gemas pop perfeitas. A crítica, por outro lado, os colocava nas alturas dizendo que o Big Star era a mais brilhante, criativa e inovadora banda em atividade. Enquanto isso, nuvens negras pairavam sobre a banda. Chilton e Bell começaram a entrar numa furiosa disputa pela liderança do grupo. Egos elevados até a estratosfera e drogas pesadas tornaram o clima entre os dois vocalistas insuportável, o que levou Bell a pedir as contas. Nessa a banda quase se dissolveu, mas Chilton conseguiu reestruturar o grupo, que lançançou em seguida um segundo (e melhor) álbum: Radio City. Que também não vendeu nada. Em 74, tudo termina. A banda até tinha material pronto para lançar o terceiro álbum, mas o selo Ardent passava por grandes dificuldades, e acabou falindo. Com isso, o terceiro disco do Big Star foi abortado e Alex deu a banda por encerrada. Partiu mais uma vez para Nova York e deu início a uma errática carreira no circuito de bares da Metrópole. Foi tocando e frequentando bibocas como o CBGB's que Chilton conheceu e virou fã de uma banda chamada The Cramps, da qual veio a ser produtor dos primeiros trabalhos do grupo. Isso em 1978, quando Alex Chilton e seu antigo grupo já eram considerados cult entre o pessoal do circuito ondeiro de Nova York. Com o interesse tardio do público, os velhos discos do Big Star foram reeditados e o então inédito terceiro disco, finalmente lançado com o título de The Third Album (posteriormente relançado como Sister Lovers). Ainda em 78, Chris Bell retornou aos EUA, após anos na Inglaterra. O músico tentou reatar com Chilton e lançou seu primeiro solo, I Am The Cosmos, mas morreu logo em seguida num acidente automobilístico. Em 1993, o Big Star fez um honesto e elogiado comeback com dois de seus membros originais - Alex Chilton e o baterista Jody Stephens - ao lado de dois integrantes da banda alternativa The Posies (o guitarrista Jon Auer e o baixista Ken Springfellow). Daí saiu um ótimo disco ao vivo chamado Columbia - Live At Missouri Univiversity 4/25/93, cujo o repertório cobre grande parte dos dois primeiros discos do grupo, presta um tributo a Bell - com o guitarrista Jon Auer do Posies, interpretando "I Am The Cosmos" -, e ainda apresenta versões interessantes para músicas do T Rex e de Todd Rundgren. Em 2005, a banda voltou a dar as caras com um novo disco de estúdio, In Space, gravado no velho estúdio Ardent, em Memphis - onde tudo começou.

Discografia selecionada

The Box Tops – The Best Of The Box Tops (67-69)
Alex Chilton – 1970 (1970)
Big Star – # 1 Record (1972)
Big Star – Radio City (1974)
Big Star – Third/Sister Lovers (1978)
Big Star – Columbia - Live At Missouri University (1993)