quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

RENEGADES OF PUNK, DAD FUCKED AND THE MAD SKUNKS E MORRA TENTANDO [Palco do Teatro do antigo Beagá Café, 18/12/2009]

Por Luís Gustavo
Pode parecer estranho programar um evento com bandas de hardcore num local tão classe média como o Café Kancum, mas esta talvez tenha sido a decisão mais acertada. Não sei se os organizadores pensaram nisso, mas a ideia de agendar o show no antigo Beagá Café acabou dando uma dimensão completamente nova ao que geralmente é visto num show de punk rock. Não só o Café é um ambiente atípico para algo dessa natureza, mas também o pequeno público que compareceu naquela sexta-feira escaldante. Uma rápida olhada em volta foi o bastante para constatar isso. Muita gente bonita e cerveja gelada, fundamental naquele abafamento.

Foi praticamente todo mundo, menos aqueles “punks” burros que freqüentavam o velho Marquês. Ou seja, uma maravilha! Tinha indies a dar com pau, cabeludos de banho tomado, bancários, professores de cursinho e playboys também. Estes, com suas respectivas namoradinhas (em alguns casos, acompanhadas daquela irmã gorda que odeia todo mundo). Isso daria uma digressão antropológica e tanto, mas não vou encher o saco de vocês, vamos ao que interessa. Foram três bandas bem distintas entre si, dispostas a esquentar ainda mais a estação do inferno que vem se tornando a capital alagoana nesse verão ingrato: as locais Morra Tentando e Dad Fucked and The Mad Skunks, e a sergipana Renegades of Punk. Durante a apresentação da Morra Tentando pouca gente estava presente na pista e a apatia reinava absoluta. A rapaziada segue a mesma cartilha de bandas como Garage Fuzz e Noção de Nada e nas letras, mesmo em português, não se consegue entender uma palavra. Os caras bem que tentaram, mas não foi dessa vez. Para a Dad Fucked and The Mad Skunks, a ocasião serviu para por fim a um período de quase um ano longe dos palcos, além de representar a oportunidade de estréia dois novos integrantes: Bruno Jaborandy (baixo) e Felipe Gomes (bateria). Com cerca de cinco anos de existência, a banda já possui um bom público que comparece a suas apresentações onde quer que eles toquem. Justamente por isso imaginava-se que eles seriam os responsáveis por trazer um maior número de pessoas para dentro do teatro, mas com exceção de alguns gatos-pingados que se matavam de tanto pogar e dançar na beira do palco junto ao vocalista Rodolfo, a platéia continuava dispersa. O desinteresse talvez se explique pelo fato de a banda apresentar praticamente o mesmo show de sempre. Precisam renovar o repertório com urgência!Da Renegades of Punk eu já havia escutado algumas gravações. Restava ver qual era a deles ao vivo. Quando a barulheira começou, saí correndo do balcão do bar para não perder nada. É... eles me impressionaram. Tocaram com convicção, a vocalista grita muito e suas composições, apesar de extremamente simples e diretas, fogem do óbvio. No meio da porradaria, o trio ainda reservou espaço pra números que iam de Devo a Cólera. Ao fim da apresentação, muitos certamente saíram de alma lavada.

JELLO BIAFRA AND THE GUANTANAMO SCHOOL OF MEDICINE: THE AUDACITY OF HYPE (2009)

Desde o fim dos Dead Kennedys, Jello Biafra tem se envolvido em uma pancada de projetos com músicos das mais variadas matizes. Foi assim com o Lard, onde ele gravou alguns álbuns com os caras do Ministry, em seus discos com os canadenses do D.O.A. e NoMeansNo, bem como sua associação aos malucos do Mojo Nixon e sua parceria com os Melvins, entre outros. Em todos os casos Jello produziu seu material sem jamais prender-se a grupo algum. Em The Audacity Of Hype, seu primeiro trabalho com a Guantanamo School Of Medicine, Jello parece não só ter voltado a fazer parte de uma banda, como também retomado sua vertente mais punk. O grupo, um verdadeiro who is who do rock alternativo ianque, é composto por Andrew Weiss (Rollins Band, Ween, Butthole Surfers), Kimo Ball (Freak Accident), Ralph Spight (Victims Family) e Jon Weiss - todos empenhadíssimos, provando que a velharada ainda tem muita lenha pra queimar! Destaques para "New Feudalism" e "Electronic Plantation".



domingo, 13 de dezembro de 2009

ETAPA ALAGOANA DA TOUR NORDESTE FORA DO EIXO [The Jungle, 13/12/09]

Por Luís Gustavo
A festa para mim começou cedo. Por volta das quatro da tarde, chego ao local onde havia combinado de encontrar um amigo antes do evento: um bar inominável onde a cerveja era vagabunda, quente e o atendimento era péssimo. O show começaria às cinco da tarde. Chegamos às cinco e quarenta, e os meninos da banda local, encarregada de fazer abertura, ainda desciam do carro do pai de alguém.

Quando entrei o lugar estava praticamente vazio e uma das bandas ainda passava o som. Até então, havia mais pessoas no corre-corre carregando tralhas, do que um público em si. Nunca tinha visto tanto esmero na organização de um show no Jungle como nesse dia. Este é o primeiro evento promovido pela Popfuzz desde que o coletivo firmou adesão ao circuito Fora do Eixo, que a partir de suas ações vem criando um fluxo de informação e intercâmbio entre bandas e coletivos em diversas regiões do Brasil. Se a integração da Popfuzz à essa rede não fomentar a atividade local, eu não sei mais o que pode ser feito.

Às seis e quarenta, a primeira banda começa a tocar. Era a Cross the Breeze, uma banda composta por três garotos que não devem ter mais de 19 anos. Nunca tive muita paciência para baboseiras indie-anglófilas, e o som dos meninos vai bem por esse caminho do shoegaze. Tão expressivos quanto um cabide dependurado no armário, o Cross the Breeze tem tudo a ver com o gênero. Apesar de esforçados, a impressão que fica ao fim da apresentação é a de que ainda há um longo caminho até o topo, se o negócio deles é rock 'n' roll. Mas é assim mesmo. Insistam!

Quando chegou a hora da Paraibana Burro Morto, o lugar já estava bem cheio e a medida que os caras iam desfilando seus temas instrumentais, as pessoas iam se aproximando. Tinha gente dançando até em cima das cadeiras. A coisa estava começando a ganhar um clima de festa. Em seu set, a Burro Morto apresentou uma interessante fusão de ritmos brasileiros e psicodelia. É certo que eles não conseguem manter um nível constante de interesse ao longo de toda a apresentação, mas o grupo esbanja musicalidade e segurança inegáveis.

Em seguida entra em cena os mineiros do Porcas Borboletas. Performáticos, os caras realmente sabem como se mexer no palco. Possuem grande presença cênica, algumas letras espertas e as associações ao pessoal da vanguarda paulistana, de fato, fazem algum sentido. "Super Herói Playboy" era a única música que eu conhecia, e eu saí para pegar mais cerveja e dar uma volta.



O Macaco Bong certamente foi a razão de muitos estarem no Jungle naquele domingão. Alguém duvida? Aos primeiros acordes de "Amendoim", a banda já colocava todo mundo pra dançar, numa profusão ininterrupta de power grooves acachapantes. Em "Fuck You Lady", arrisquei um mosh improvisado de cima de uma cadeira em direção à coitadinha da Natasha Fernanda, evidentemente impossibilitada de aparar minha queda. Não sei quanto a vocês, mas sempre sinto uma vibe estranhíssima naquele lugar e, a essa altura, meu estado mental já estava para lá de alterado. De repente começamos a agir como loucos num maldito circo freak.

Minha visão já estava turva e eu comecei a enxergar tudo a minha volta como se estivesse em alguma espécie de filme psicodelico B. Foi quando me flagrei grintando com um cidadão com o dobro do meu tamanho, chamando-o de imbecil, enquanto Raphael fazia umas dancinhas esdrúxulas na frente do sujeito, levantando a camiseta e mostrando o peitinho pro cara. Quase deu merda, não fosse a Natasha tentando dissuadir o infeliz. No final ninguém se machucou e sai com a impressão de que a muito, muito tempo, não me divertia tanto num show de rock como este.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

FRANK JORGE: VOLUME 3 (Monstro Discos)

Por Jimi Joe
Frank Jorge Volume 3 é mais uma boa safra de canções colhidas pelo pândego compositor e multiinstrumentista gaúcho no campo e lavoura da existência durante os cinco anos que separam este seu novo disco do precedente Vida de Verdade. Praticidade e concisão são palavras chave no novo trabalho de Frank Jorge, mais de 20 anos dedicados ao rock. Qual um Paul McCartney redivivo, ele toca praticamente todos os instrumentos desse Volume 3, deixando baterias e percussões a cargo de Iuri Freiberger, co-produtor do disco junto com Rafael Ramos. As influências jovemguardianas/beatlemaníacas/sessentistas se espalham pelo disco como um todo.

Da arte da capa retrô-futurista que nos deixa vislumbrar um Frank Jorge trasmutado em George Jetson à enxutez das 12 canções - como num bom disco do Roberto ou dos Beatles - que raramente ultrapassam os 3 minutos dos clássicos singles dos anos 60, Volume 3 exibe um Frank Jorge capaz de lapidar canções que ao mesmo tempo em que mesclam influências musicais das mais variadas, abordam liricamente, temas como a maldita mania da "melhor banda do mundo essa semana" até uma insólita canção em que Frank lamenta ter demitido um amigo. Os antológicos órgãos Hammond salpicados por Frank pelas faixas desse Volume 3 são reminiscentes dos 60 mas estão mais para uma releitura à la Inspiral Carpets do que exatamente para Lafayette.
Em "Elvis", que apropriadamente abre o disco, Frank alfineta a necessidade contemporânea de se ouvir um som novo a cada dia. "Obsessão Anos 60" vai um pouco além do que o título anuncia e foca outras décadas, sempre com um espírito ácido e autocrítico, numa espécie de mea culpa desse revivalismo todo. Há canções de amor de todo tipo, algumas enviesadas e irônicas como "A Historiadora". Em "Eu Demiti Um Amigo", Frank deixa fluir tudo que aprendeu com Reginaldo Rossi e seus pares. E, maravilha das maravilhas, o encarte com as letras ainda traz comentários tipicamente frankjorgianos sobre as mesmas. Todas reunidas, as canções de Volume 3 somam pouco mais de 33 minutos, que podem ser relacionados às 33 rotações e um terço dos LPs em vinil. O que pode parecer avareza ou sonegação de material musical, no entanto, se comprova como um disco na medida certa. Quando soam as últimas notas de "Se Você Ainda Me Quiser", a vontade é de virar o disco no prato e tocar o lado A pra rodar novamente. Ou melhor, dar o replay no CD.

De qualquer maneira, novamente aqui pontos para Frank Jorge que nesse Volume 3 coloca em prática o aforismo do escritor e musicólogo britânico Arthur Jacobs: "tudo é música, revista e ouvida pelos únicos olhos e ouvidos possíveis: os olhos e ouvidos do presente".

Link: Frank Jorge Volume 3 (Monstro Discos)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

R.L. BURNSIDE: WISH I WAS IN HEAVEN SITTING DOWN (2000)

R. L. Burnside (1926–2005) foi uma das últimas lendas do blues do Mississipi. Um dos grandes méritos do cara foi ter conseguido modernizar-se sem perder a essência de seu talking blues rústico e pungente; o que pode ser atestado numa audição desde disco, em que os produtores Brad Cook e Iky Levy dão uma burilada nas canções, adicionando loops, scratches e barulhinhos diversos. Talvez a razão de podermos ouvir um disco como este a esta altura do campeonato, se deva ao fato de o velho Burnside ter atingido certa notoriedade durante a segunda metade da década de 90, após ter sido apresentado à uma nova geração pelo roqueiro Jon Spencer. No mais, um puta disco feito por quem tinha colhões para mijar nos puristas, recusando-se a parar no tempo.

Link: R. L. Burnside - Wish I Was In Heaven Sitting Down (2000)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

WORKDOGS: ROBERTA (Sympathy For The Record Industry)

O duo nova-iorquino Workdogs - Rob K (baixo e vocais) e Scott Jarvis (bateria) deu início a sua pequena revolução na segunda metade dos anos 80, criando uma música crua e abrasiva, que transitava pelas mais variadas formas de expressão da música popular norte-americana, usando como fio condutor o experimetalismo noisy dos grupos da época.

A banda pode até não ser nenhum fenômeno de popularidade, mas quem entende das coisas sabe de sua importância. Os Workdogs são basicamente a dupla Robert Kennedy e Scott Jarvis, mas o grupo sempre contou em suas gravações com a participação de gente como Jon Spencer (Pussy Galore, Blues Explosion, Boss Hog), Jerry Teel (Honeymoon Killers, Boss Hog), Kid Congo Powers ( The Gun Club, The Cramps), Ivan Julian (Richard Hell & The Voidoids), Lydia Lunch, Moe Tucker (Velvet Underground) entre outros.

As canções de Roberta - álbum de 1988 relançado pela venerável Sympathy Fot The Record Industry, em 1994 - possuem vida própria e nos dão aquela impressão de que foram todas geradas ali durante as gravações. A faixa-título, uma jam alucinada que segue em seus mais de 15 minutos num crescendo espetacular, é um cartão de visita perfeito. Na verdade destacar algum momento desse álbum seria pura bobagem. Os caras fazem barbaridades com ritmos como o ragtime, o boogie e o rhythm'n'blues, transformando tudo isso em algo completamente alienígena. Um álbum único e imperdível, de uma banda absolutamente fora do comum.

Link: Workdogs - Roberta (Sympathy For The Record Industry)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

LYDIA LUNCH: BIG SEXY NOISE (2009)

Quando eu soube que Lydia Lunch havia acabado de gravar um disco com os espertos do Gallon Drunk, tratei logo se sair a procura do disquinho. Deu um trabalho danado encontrar este Big Sexy Noise, mas aqui está! Se você for fã da moça e da banda do menino James Johnston - talvez a melhor e mais aplicada cria do velho Birthday Party - já deve ter uma ideia do que se trata o negócio e, com certeza, ficará feliz da vida com este mini-álbum. São apenas seis faixas, onde Lydia e sua turma destilam sua barulheira habitual, oscilando entre o lascivo e o ruidoso, chegando ao requinte de recricar a clássica "Kill Your Sons", de Lou Reed.

domingo, 29 de novembro de 2009

THE TRASHMEN: "BIRD" É A PALAVRA PARA OS ASES DA SURF MUSIC

Por René Ferri

Numa hipotética lista das dez melhores bandas de rock americanas de todos os tempos, a inclusão dos Trashmen poderia ser revelada. Tanto que os Ramones, presença mais que obrigatória nessa lista, é uma banda que construiu toda sua carreira repetindo as ideias, as fórmulas e a atitude dos Trashemen, chegando ao requinte de adotar parte do seu repertório. The Trashmen fez entre 63 e 67, o que grupos como Ramones e Cramps só começaram a fazer em meados dos anos 70. Surf music foi uma tendência no início dos anos 60 que fez proliferar um incontável número de grupos musicais por todo os EUA. Os Trashmen vieram nessa onda - de Minneapolis, Minnesota - embalados pelos sons californianos de Dick Dale, com a diferença da inclusão de maciças doses de rock 'n' roll, números vocais, covers de Chuck Berry, Buddy Holy e outros ídolos. Acidentalmente juntaram dois hits dos Rivingtones, "Papa-Oom-Mow-Mow" e The Bird's The Word" e criaram a clássica e hilariante "Surfin' Bird".

O grande sucesso dessa canção, editada em dezembro de 63, foi decisivo para que a banda recebesse incentivo e verbas para outros singles, mais o álbum Sufin' Bird, que saiu em meados de 64. Esse disco clássico tem a essência da música dos Trashemen: uma esfuziante alegria, com uma dinâmica de rock 'n' roll que coloca tanta energia na música, que transforma sua audição numa excitante experiência. É um daqueles discos que jamais envelheceram. O fenomenal sucesso de "Surfin' Bird" estimulou a banda a sair dos arredores de Minneapolis para uma longa excursão que, iniciada em 65, só foi terminar em dois anos depois, quando eles decidiram parar. A música tinha mudado, o mundo era outro, o Verão Do Amor despontava em San Francisco. Nesse tempo on the road, editaram singles em selos diversos. Tudo feito com a espontaneidade e nonchalance de uma banda de garagem. Essa é a melhor definição dos Trashmen: uma excepcional banda de garagem, que soube usar suas dificuldades e limitações como força motriz da música que fazia.

Diz-se que estiveram até na Venezuela e Argentina, mas isso talvez tenha sido apenas uma criativa desculpa quando se defrontavam com alguém que lhes perguntava: "Por onde vocês andaram?". Ou quem sabe, uma ingênua forma de auto-promoção.O que desviou os Trashmen da rota do sucesso foi provavelmente um contrato leonino com um selo pequeno que não pode divulgá-los melhor e, ao mesmo tempo, afastou as majors, as grandes empresas. Com divulgação correta, boa exposição na mídia e um pouco de sorte, The Trashmen - banda punk par excellence, de garagem mesmo - teria sido um dos maiores hits dos anos 60.

Dicografia selecionada

The Trashmen - Surfin' Bird Album

The Trashmen - Live Bird 65-67

The Trashmen - Tube City!

The Trasmen - Bird Call! Box Set (Disc 1)

The Trasmen - Bird Call! Box Set (Disc 2)

The Trasmen - Bird Call! Box Set (Disc 3)

The Trasmen - Bird Call! Box Set (Disc 4)

THE VELVET UNDERGROUND: WHITE LIGHT/WHITE HEAT

Por Javier Muniain

Na metade da década de 60, a população americana já sentia os primeiros efeitos da eminente e catastrófica derrota para o Vietnã, dez anos depois, em 1975. Os jovens não queriam ir à frente de batalha; pelo contrário, buscavam alternativas e justificativas para esquivarem-se de seu "dever cívico". Emergia assim, junto a outras circunstâncias, a cultura hippie. Janis Joplin, The Grateful Dead e Jefferson Airplane, entre outros, eram Deuses do (novo) Rock.

"As flores do mal desabrocharam. Alguém deve pisoteá-las antes que se propaguem."

Enquanto isso, no Instituto de Ensino Médio de Summit, Nova Jersey, no dia 11 de Dezembro de 1965, três bandas locais foram contratadas para entreterem o público formado de pais, alunos e professores. Após a agradável apresentação da primeira banda, 40 Fingers, entraram em cena, respectivamente, Lewis Alan Reed, mais conhecido como Lou Reed (compositor, guitarrista e vocalista), John Cale (baixo, viola elétrica, teclado), o alto e esguio Sterling Morrison (guitarra e baixo), e, por fim, posicionando-se de pé por trás da bateria, Maureen "Moe" Tucker, cuja entrada no grupo ocorreu dias antes devido à saída inesperada de Angus MacLise. Eram quatro sujeitos vestidos de negro, de cabelos compridos, posicionados no meio de um amontoado de instrumentos exóticos, mirando com seus negros óculos de sol a platéia boquiaberta. Chamavam-se The Velvet Underground, nome roubado do título do (para a época) pouco aclamado livro de Michael Leigh. Então, num volume muito mais alto que o habitual, executaram os primeiros acordes de "Venus in Furs" (uma canção sobre sadomasoquismo) confirmando a primeira impressão: tratava-se de um bando de degenerados, próprios deste negócio perigoso que é o rock'n'roll para a juventude. Muitos deixaram o lugar aterrorizados. Para os que ficaram, a canção seguinte, "Heroin", foi o cúmulo. Inspirados por uma realidade marginal à maioria das pessoas, mas muito familiar a eles, cada membro acrescentava, a sua maneira, um pouco do ambiente degenerado de Nova York. Eram como moscas circulando por todo o ambiente fétido da metrópole: junkies, prostitutas, alcoólatras, viciados, travestis, homossexuais, traficantes e suicidas. Repeliam a beleza e a promissora esperança de novos e melhores tempos sustentados pelas bandas da década de 60. Lou Reed, como compositor, possuía um talento soberbo para encontrar, filtrar e retratar histórias tão amorais e sombrias em suas letras quanto para criá-las igualmente problemáticas na vida real. Acreditava num elo entre o rock e a literatura assim como acreditava controlar seu vício em drogas. Assim, apesar da considerável baixa receptividade, o concerto foi considerado pela banda um legítimo sucesso. A banda logo conseguiu um contrato no Café Bizarre. A reação dos freqüentadores, em geral turistas, era tão desanimadora quanto ao incidente de dias atrás e, após duas semanas espantando os boêmios, foram despedidos. Apesar da desagradável experiência em palco, um insólito evento ocorreu-lhes ali. Andy Warhol, pintor pop já estabelecido no ramo artístico, também conhecido por seus filmes undergrounds – assim como Paul Morrissey, seu manager e cineasta de igual importância que o acompanhava – buscavam novos horizontes para a Fábrica: uma banda de rock. Desta maneira, orientado por Paul e Andy, a banda deveria adequar-se às exigências da Fábrica. "O Velvet era um grupo de gente totalmente insegura. Todos os dias estavam à beira de algo. E de repente chegou aquela garota para desintegrar o grupo", confessa Moe anos mais tarde sobre a mudança mais significativa orientada: Nico, uma jovem atriz e cantora que conhecera Andy uma semana antes.

Sua voz e sotaque nórdicos eram o contraponto que faltava para tamanha escuridão. Não que todas as alterações fossem aceitas passivamente pelos membros, ou melhor, por Lou, mas diante dos novos e promissores horizontes abertos por Warhol, aceitar a entrada de Nico não configurava um problema assim tão grave. Mas incomodava. Selando um pacto fáustico, a banda aceitou as propostas de Warhol. Tornaram-se The Velvet Underground and Nico.

No período compreendido entre 1966 e 1968, enquanto estavam sob a tutela do notório artista que lhes servia de agente, produtor, conselheiro, promoter e fã incondicional, muito ocorreu. A princípio, foram integrados às performances da trupe da Fábrica. A primeira delas ocorreu num congresso de psiquiatria no qual haviam sugerido ao artista pop apresentar e discutir dois de seus filmes: Sleep e Blow Job numa conferência. Porém, contrariamente ao estabelecido, Andy montou um verdadeiro "tratamento de choque para os psiquiatras" – de acordo com a manchete do New York Times do dia seguinte.

Enquanto era exibida uma fita em preto e branco, mal iluminada, de um homem atado a uma cadeira sendo duramente violentado, The Velvet Underground aturdia os surpresos médicos com suas letras ácidas, sujas e pervertidas enquanto uma modelo interrogava alguns participantes do evento com perguntas indiscretas como "o senhor tem o pênis grande o bastante?" ou "você faz sexo oral?". Tendo o circo de horrores e depravações figurado nas principais páginas de jornais e revistas da época.Logo o espetáculo evoluiu rapidamente até seu lançamento oficial na meca do cinema underground da época, a Cinémathèque. Gerard Malanga, um dos muitos poetas da Fábrica, adicionou-lhe uma performance estranhíssima, digna dos contos de Edgar Allan Poe. Tratava-se de Andy Warhol Uptight (Andy Warhol Sob Tensão), um titulo muito apropriado por sinal.The Velvet Undeground and Nico ainda não gozava do devido sucesso que tanto sonhavam, porém, com a ajuda do mentor, polemizavam o suficiente para se destacar. Seguiam com fidelidade todas as manobras de seu agente-artista. A contribuição até então era mútua. Andy gravou um soberbo ensaio na Fábrica, entitulado Simphony of Sound; em troca, a banda trabalhou na trilha sonora de Hedy e More Milk, Ivete; ele se renovava artística e publicitariamente, eles (ou melhor, Lou) absorviam o rico mundo de personagens estranhos da Fábrica: o ambiente sombrio, competitivo, diverso e abertamente homossexual (naquela época, considerada a maior das mais imorais depravações humanas) criado pelos pintores, cineastas, poetas, dançarinos, atores, modelos e performers locais era propício para o laboratório de histórias e contos futuramente sintetizados em canções como "Femme Fatale", "I'll Be Your Mirror" e "All Tomorrow's Parties". "Aquilo era um paraíso", observava Andy, que por sua vez observava todo mundo. "Escutava-os dizerem as coisas mais extraordinárias, mais absurdas, mais divertidas e mais tristes que se pode imaginar. E eu as anotava todas".

Em Abril de 1967, Andy alugou The Dom, no meio da East Village para promocionar o novo material chamado Exploding Plastic Inevitable (EPI). A estrutura era a mesma que a anterior: projetavam filmes num telão atrás da banda e bailarinos. Apesar da similaridade, o EPI se distinguia em qualidade e ousadia. Dois filmes de Warhol eram projetados um em cima do outro enquanto a banda costumava tocar de costas ao público. Todos vestiam trajes negros, com exceção de Nico, de branco, etérea sob um tímido foco de uma luz pálida; Gerard Malanga e Mary Waronow (atriz), vestidos de couro negro, recriavam as sombrias canções em suas danças esquizofrênicas; o pintor, de fora, comandava o show de luzes coloridas que cintilavam de todas as partes para todas as partes.Um dos sinais de união entre a pintura pop e a EPI era a utilização do estrobo: reluzindo em intervalos curtos entre a luz e a escuridão, criava nítidos retratos humanos, figuras repetidas e aleatórias, dançando, cantando, reproduzindo-se infinitamente até perderem seu sentido original e caírem no vazio de suas representações como a produção industrial e a indústria para as massas. Também era genuinamente transgressor e original em diversos parâmetros. Revolucionava o conceito das casas noturnas da metrópole com a franca apologia às drogas "pesadas"; introduzia a participação ativa do público como item essencial de um show de rock'n'roll; derrubava as paredes das definições de arte etc. Nas palavras do escritor Stephen Koch, que presenciou uma destas míticas noites. O esforço de criar uma atmosfera de explosão (ou mais exatamente implosão), capaz de pulverizar qualquer perspectiva sensorial imaginável, era toda um sucesso. Era praticamente impossível dançar, ou fazer qualquer coisa que não fosse permanecer ali sentado e sofrer o bombardeio; o 'colocão', por assim chamá-lo, de imagens e som... ao vê-lo, percebi pela primeira vez de até que ponto as teorias, tão admiradas na época, que atacavam ao ego como a raiz de todo o mal e toda a infelicidade, converteram-se para a vanguarda um terreno propício para o desenvolvimento de uma profunda metáfora do sadismo sexual e do assalto aos sentidos; percebi até que ponto a liberação do ego não era exatamente a liberação que pretendia ser, senão um ato de vingança e ressentimento totais, completamente unidos, em seus níveis mais profundos com raízes na frustração.

A liberação resultava ser uma humilhação; a paz revela-se em forma de ira. Coincidindo com a primeira semana de exibição da EPI, Andy preparou a sua saída definitiva do meio das artes plásticas organizando uma exposição na galeria de arte Leo Castelli, em Nova York. Seu descrédito com o meio da pintura era visível e finalmente chegava ao fim. Após consolidar-se como cineasta e agora agente, não esperava os fracassos que estavam por vir. Um pequeno incidente ocorrido durante o verão de 1966 futuramente desembocaria numa férrea fonte de mágoas. Andy pediu para Lou compor a trilha sonora de seu mais novo trabalho, Chelsea Girls, o maior êxito comercial da Fábrica, mas caberia a Nico cantá-la (além de participar como atriz ao lado de International Velvet, Brigid Berlin and Mary Woronov). Era sabida a preferência do ex-pintor pela voz grave da alemã desde o início da relação, apesar de o antigo vocalista, Lou, receber também sua parcela de empatia. Tratava-se de uma briga por poder, pelo microfone e pelo foco das atenções. E nisto Lou não permitia concorrência. O compositor negou a proposta.

Por outro lado, a EPI decolava em público e críticas "agradavelmente" corrosivas. Lotavam todas as noites e inclusive recebiam frequentes visitas ilustres de famosos como Salvador Dali e Jackie Kennedy, por exemplo. Com tamanho êxito, Andy, Paul e a banda resolveram gravar um disco de estréia. Apos três dias de gravação tumultuada onde desavenças pessoais e profissionais se misturavam ao clima de insatisfação geral, o álbum foi finalizado.

Logo veio o primeiro obstáculo, que levou quase um ano para ser superado: todas as gravadoras rejeitavam o material pois não tinham a menor idéia de como comercializá-lo. Nenhuma faixa encaixava-se no perfil sonoro e ideológico do momento, vide o Sargent Pepper's Lonely Hearts Club dos Beatles e Blonde on Blonde de Bob Dylan. Não havia baladas senão melodias negras que mais inspiravam ao suicídio que à redenção. Lou justifica: "acho que Andy gostava de escandalizar, sacudir as pessoas, e não queria que ninguém nos convencesse em eliminar o conteúdo mais 'pesado' das faixas pelo bem da popularidade ou de uma maior difusão radiofônica".

Finalmente conseguiram um contrato com a Verve (MGM) e, somente assim, em março de 1967, lançaram The Velvet Undeground and Nico, com a famosa capa de Andy Warhol (e sua assinatura como produtor para ajudar nas vendagens) – uma curiosa armadilha: a fálica e lustrosa banana escondia toda a podridão humana, levada aos extremos. Estavam nele incluídas canções célebres como "Venus in Furs", "Heroin", "The Black Angel's Death" e "I'm Waiting for the Man", além de "European Son" (escrita em homenagem a Delmore Schwartz, poeta beat, amigo e ídolo de Lou Reed em sua época universitária) e a paranóica "Sunday Morning" (adicionada posteriormente, talvez a faixa mais acessível). Para promovê-lo, a melhor solução era criar uma turnê pelos Estados Unidos, passando principalmente por São Francisco, neste momento o local mais "quente" dos EUA para as bandas emergentes da época e, naturalmente, a meca suprema do movimento hippie. "Tínhamos sérias objeções a respeito de San Francisco em geral. É chato, é uma mentira e carece por completo de talento. Não sabem tocar e muito menos sabem escrever. As bandas da Costa Oeste se metiam com drogas leves. Nós nos metíamos com as pesadas" – disse o compositor numa entrevista na qual perguntaram-lhe o que os separava da Costa Oeste, além da distância. Desta fase, a relação entre os aparentes lideres, Andy e Lou, andava mais que desgastada. A dualidade em firmar-se no mainstream musical ao mesmo tempo que conservassem sua identidade frustrava profundamente a todos. Ninguém sabia administrar ideais tão contraditórios.

A turnê foi um fracasso em todos os sentidos. O público, como em Nova York, não estava preparado para tamanha ousadia sonora, poética e moral. Sunday Morning/Femme Fatalle, a grande aposta pop para as listas dos compactos mais vendidos no país encalhou no 103º lugar. As duras críticas deixavam pouco a pouco de serem motivadoras e começavam a incomodar. "As pessoas diziam que fazíamos pornô-rock. Recordo-me de ler textos que nos descreviam como 'o fedor abaixo do ventre da existência humana'. Só o que eu queria fazer era escrever canções com as quais alguém como eu pudesse se identificar".Tais rachaduras evidenciavam a limitada expansão de horizontes proporcionada pela Fábrica e, essencialmente, por Warhol. A ruptura era uma questão de tempo. Ressentido pela estéril turnê, além do clima hostil sustentado por Lou, o cineasta voltou suas atenções a sua paixão anterior, o cinema underground, e foi a Cannes promover Chelsea Girls abandonando o Velvet Underground, cujas aspirações por apresentarem-se em terras européias sempre foi evidente. Ao longo das semanas, foram deixados para trás, por Andy e pelas oportunidades interessantes em órbita do cineasta (o diretor italiano, Antonioni, havia declarado interesse em inclui-los no filme Blow-Up – oportunidade fisgada pelos ingleses Yardbirds, por exemplo). Essa era sua vingança pelo incidente megalomaníaco de Lou ocorrido meses atrás.A separação aconteceu imediatamente após o regresso do diretor-agente a Nova York. Reunidos numa sala, Lou e Andy chegaram à conclusão de que o Velvet Underground necessitava de novos caminhos. "Olha, vocês querem seguir apresentando suas músicas em museus e falculdades universitárias? Esses são os únicos lugares que posso oferecer-lhes. Não acham que é hora de começarem a tocar no Filmore e em casas de shows da América do Norte?" – sentenciou o artista.



O Velvet Underground (sem Nico) seguiu seu rumo, conseguiu um modesto êxito através de um novo contrato com um novo agente (muito mais comercial), Steve Sesnick, sendo quatro os álbuns lançados até a dissolução completa do grupo em 1970, quando a MGM cedeu à nova lei moralista do presidente Nixon em eliminar bandas cujas propostas envolvessem a propagação das drogas ou o hippie. Ao final dos anos 70, encontraram a tão sonhada popularidade através das novas revoluções juvenis vindas da Europa: o glamrock, o punk e o pós-punk. Andy continuou com seus filmes, a Fábrica etc. Encontrou-se com Lou diversas vezes até sua morte em 1987. Sobre o novo agente contratado, "a pessoa que eles escolheram" – lamentou – "era nefasta".

Como moscas, nascidas para os prazeres baixos, a banda sobrevoou o pútrido – porém sedutor – odor do jardim de Warhol até definharem, pouco a pouco, na prisão de suas plantas carnívoras como obras-produtos tais quais as imagens representadas pelos quadros e filmes pop. Deu-se assim o conturbado casamento entre ambientes até então antagônicos: o rock'n'roll e a arte. Um matrimônio de não mais que cinco anos e de poucos frutos para a posterioridade, retalhados entre a sombra da Fábrica, a falta de maturidade do público e gravadoras, e principalmente a difícil relação entre os cônjuges.

Discofrafia selecionada

The Velvet Underground & Nico (1967) White Light White Heat (1968)
The Velvet Underground (1969)
The Velvet Underground Live Vol. 1&2 (1969)
The Velvet Underground Loaded (1970)
V.U. A Collection of Previously Unreleassed Recordins (1985)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

MOTOSIERRA: XXX (No Fun Records)

Em quase dez anos de carreira, o quarteto uruguaio Motosierra nunca foi nenhuma unanimidade e eles pareciam está pouco se fodendo com isso. Faziam o som que gostavam com tesão, urgência e entrega típicos de quem está se divertindo pra cacete. Este primeiro disco da banda, editado originalmente em 2001 pelo selo No Fun, da Argentina, é uma porrada! Além das influências obvias (Stooges e Motörhead), o som dos caras guarda ainda certa similaridade a coisinhas que não fazem mal a ninguém como GG Allin, Dwarves e Turbonegro. "Violator" e "Cocaine Aways Back" já são clássicos.