terça-feira, 11 de novembro de 2008

THE STOOGES - 1970: THE COMPLETE FUN HOUSE SESSIONS (RHINO)

Em The Complete Fun House Sessions, o selo norte-americano Rhino acertou em cheio mais uma vez. Lançada em edição limitada, esta caixa com sete CDs apresenta na íntegra todas as gravações realizadas pelos Stooges durante as duas semanas em que o grupo esteve trancado com o produtor Don Galucci e o engenheiro de som Brian Ross-Myring no Elektra Studios, em Los Angeles, para gravar o seminal Fun House.

Como sempre acontece em casos de artistas visionários, só mesmo o tempo foi capaz de provar que os Stooges estavam fazendo a coisa certa. Hoje, Fun House aparece com frequência em qualquer listinhas de melhores de todos os tempos e gente séria como Henry Rollins e Steve Albini dizem ser este o seu álbum de rock favorito. Mas na época ninguém deu importância.

Após o fracasso de vendas do primeiro disco, a Elektra não estava lá muito animada para investir nos Stooges, mas mesmo assim resolveu dar uma segunda chance aos rapazes, colocando-os em seu estúdio na Santa Monica Boulevard, em Los Angeles, para gravar este segundo LP. Acontece que desta vez o chefão da companhia Jac Holzman não quis saber de John Cale na produção. Na verdade, eu acho até que o próprio John Cale não gravaria um segundo disco com os Stooges nem que eles implorassem.

"Depois do primeiro álbum não tivemos lá grande reconhecimento e as vendas não estavam indo bem, mas tínhamos sido contratados pra três álbuns. Em Fun House, tentamos fazer um som mais parecido com a banda original antes do primeiro álbum - uma coisa mais improvisada, e acrescentamos Steven MacKay no saxofone. Foi basicamente um álbum ao vivo no estúdio. Paz e amor não fizeram muita parte dele. No fundo a gente não se importava muito em fazer alguém se sentir bem. Estávamos mais interessados no que estava acontecendo realmente. Na merda tediosa que era e na forma como de fato éramos tratados", explicou o baterista Scott Asheton.

Bem mais soltos e evoluídos do que no primeiro álbum, os Stooges conseguiram neste segundo disco subverter as estruturas mais ortodoxas do rock, ao forjarem uma música livre e abrasiva que mais parecia um ser mutante com vida própria prestes a saltar em nossa direção para nos estrangular. Fun House é um disco perfeito. Soa, ao mesmo tempo, simples e sofisticado. É como se Coltrane resolvesse aderir à onda psicodélica do final dos anos 60 e entrasse para uma banda de garagem. O saxofonista Steven MacKay – egresso de uma banda de Michigan chamada Carnal Kitchen –, certamente tem uma boa parcela de crédito nisso tudo.

Em maio de 1970, quando eles foram para a costa oeste gravar o álbum, aproveitaram a estada e fizeram algumas apresentações no famoso Filmore West em São Francisco, onde tiveram como banda de abertura os sensacionais Flamin’ Groovies. Lá, os Stooges conheceram a maioria das figurinhas carimbadas da contracultura da época, e passaram por experiências e situações que eles sequer imaginavam vivenciar algum dia enquanto estavam respirando monóxido de carbono no meio-oeste. Quando a banda finalmente entrou num acordo com o pessoal da gravadora, ficou certo que o produtor do álbum seria o menino Don Galucci, da banda de garagem dos anos 60 The Kingsmen, famosa pela suja e imoral "Louie Louie", uma das canções preferidas de Iggy.

Galucci teve uma ótima idéia para gravar este álbum: após assistir a um show da rapaziada, ele decidiu que faria um disco que pudesse transmitir o máximo possível a vitalidade e energia que a banda apresenta ao vivo, só que com a clareza de uma boa produção no estúdio. E assim foi feito. Como o menino Scott disse logo acima, Fun House foi mesmo gravado totalmente ao vivo dentro do estúdio. As sessões foram feitas entre os dias 11 e 24 de maio de 1970.

Cada dia Iggy escolhia uma música e esta canção era a que eles gravariam e regravariam até se darem por satisfeitos. Neste Box há uma versão enorme da catártica "L.A. Blues", com 17 minutos de duração. Um redemoinho de feedbacks infernais e distorções extremadas, gritos primais e bateria desgovernada rumo a total destruição! Segundo Galucci, durante as gravações dessa faixa o engenheiro de som Brian Ross-Myring ficou completamente possesso. Pois, na mixagem o volume estava tão alto, que os retornos estouraram.

Demente, alucinado e lascivo. De "Down On The Streets" até “L.A. Blues”, o que se ouve em Fun House é simplesmente o máximo que o rock pôde chegar em termos de "balls" e ousadia. Sim, porque depois dos Stooges, ninguém jamais conseguiu ir além. O rock contemporâneo, como as pessoas mais esclarecidas sabem, padece de uma lastimável falta de coragem e massa encefálica. E isso quer dizer, meu chapa, que se depender desses palermas que estão por aí, o que os Stooges fizeram há praticamente 40 anos, ainda vai permanecer avançado e intrigante até o final dos tempos, quando finalmente o segundo dilúvio chegará para acabar com toda essa merda de uma vez.

Links:

The Complete Fun House Sessions (Disco 1)
The Complete Fun House Sessions (Disco 2)
The Complete Fun House Sessions (Disco 3)
The Complete Fun House Sessions (Disco 4)
The Complete Fun House Sessions (Disco 5)
The Complete Fun House Sessions (Disco 6&7)