sábado, 13 de setembro de 2008

THE WILD BILLY CHILDISH

Por Luís Gustavo

Não apenas o selvagem, mas também um dos mais criativos, reverenciados e prolíficos artistas de todo o rock. Você duvida? Então preste atenção meu filho, estou falando do menino Billy B. Childish, um sujeito que em pouco mais de trinta anos de carreira, conseguiu acumular na bagagem uma produção artística monstruosa que inclui algo em torno de duas mil pinturas - entre desenhos e gravuras -, trinta coleções de poesia, quatro romances editados e um número considerável de bandas formadas por ele do final dos anos setenta até o momento, com algo perto de uns cem LPs gravados! Ah, e ele ainda encontra um tempinho para trabalhar como crítico musical! Nada mau para alguém que sofre de dislexia crônica, e que foi considerado um imprestável pelos professores durante a adolescência. Antes de se tornar uma figura “cult” no meio underground a partir dos anos oitenta, onde é considerado um dos papas do revival do garage rock daquela década, Billy era apenas o pequeno William Charlie Hamper, um inglesinho nascido em 1959, numa decadente cidade naval chamada Chatham, ao sudeste de Londres. Vindo de uma família disfuncional, sua infância não foi lá nenhuma maravilha. Seu pai era um desses tipos sonhadores, saca?! O homem abandonou a família quando Billy tinha apenas seis anos de idade - vez ou outra ele retornava completamente bêbado. Essa figura do pai o marcou profundamente. Outro que deixou marcas indeléveis em nosso herói foi um “amigo” da família que abusou sexualmente do pequeno William, quando ele tinha uns nove anos de idade, fato que o levou a ter diversos problemas psicológicos e, segunda consta, um dos motivos do seu posterior problema com o alcoolismo.

Na escola as coisas também não eram nada fáceis. Era constantemente perseguido por seus colegas e considerado um incapaz pelos professores. Alguns anos depois, descobriu que na verdade sofria de dislexia. É, ele não aguentou aquele mundinho, e largou a escola aos dezesseis anos. Tentou entrar para uma escola de artes (último recurso para jovens ingleses considerados "vagabundos" e "incapazes"), mas foi recusado. O rapaz teve mesmo que cair na real, e foi trabalhar como aprendiz de pedreiro nas docas de Chatham. Nesse meio tempo, começou a produzir uma série de desenhos que chamou de “The Tea Huts of Hell”. Com esse trabalho, conseguiu ser aceito na Escola de Artes de Medway, e em seguida na Escola de Saint Martim, em Londres. Nesta última, foi expulso por faltas e por constantes desentendimentos com os professores de lá. Depois disso, não quis mais saber de qualquer tipo de formação acadêmica. Passou a viver basicamente de seguro-desemprego.

No mítico ano de 1977, o nosso jovem artista - que nessa época já atendia pela alcunha de Billy Childish - aderiu ao punk, editando fanzines e formando a sua primeira banda, The Pop Rivets - grupo com forte acento mod. No Pop Rivets Billy assumia apenas os vocais da banda (isso porque simplesmente não sabia tocar porra nenhuma). O grupo era composto ainda pelo guitarrista Will Power, pelo baixista Big Russ e pelo baterista Little Russ Wilkins - depois substituído por Valentine Lax (baterista que tocou no primeiro registro da banda) que, por sua vez, foi substituído pelo menino Bruce Brand, que tocou nesta e em várias outras bandas subsequentes formadas por Childish. O primeiro disco dos Rivets saiu em 1979 com o título de “The Pop Rivets Greatest Hits” (posteriormente relançado como “The Original First Álbum”). Ainda em 79, Billy começou a trabalhar com o loucaço Sexton Ming numa outra banda chamada Major Dog and the Gissyoms. Em 1980, os Pop Rivets encerraram suas atividades.

Thee Milkshakes é o nome de sua banda posterior fundada ainda em 1980, com o mesmo Bruce Brand que tocou na última formação do Pop Rivets. Os demais membros da formação original dos Milkshakes, curiosamente, eram roadies de Childish na época dos Rivets. Os Milkshakes talvez sejam a mais emblemática e pitoresca dentre todas as bandas de Billy Childish. Em quatro anos de atividade, o grupo lançou vários álbuns elogiadíssimos pela crítica – quatro deles, acreditem, gravados num mesmo dia (!!!). São eles, “Showcase”, “In Germany”, “Nothing Can Stop These Man” e “20 Rock and Roll Hits of the 50’s & 60’s”. Todos saíram por sua editora, a Hangman Books & Records, em março de 1984. O som dos Milkshakes oscilava entre a guitarra demente de Link Wray, o rock ‘n’ roll dos fiffities e o garage rock dos sixties, tudo muito sujo, em mínimos três acordes e com um pé bem fundo no acelerador, do jeito que tem que ser! Outra coisa curiosa nessa história toda dos Milkshakes é o fato de eles terem desdobrado as atividades da banda num outro projeto chamado The Delmonas que, nada mais era, que os próprios Milkshakes fazendo a parte instrumental enquanto suas respectivas namoradas cantavam. O som era basicamente o mesmo, com covers garimpadas dos anos 50 e 60. Childish também fazia parte de um grupo conhecido como The Medways Poets, que lia poesias em faculdades e bares da região.

Com o fim dos Milkshakes em 1984, a próxima investida do incansável Billy foi uma nova banda que ele batizou com o nome de Thee Mighty Caesars. Esta bem mais punk e menos rock ‘n’ roll que os Milkshakes, mas com aquele mesmo indefectível acento low-fi, comum a tudo que Billy Childish produziu em toda a sua carreira, musicalmente falando. Músicas cruas e ruidosas, concebidas e gravadas em pouquíssimos dias (lembra que falei daquele caso extremo com os Milkshakes, quando ele gravou quatro discos num único dia?). O Thee Mighty Caesars influenciou muita gente. De Mummies a The Horrors, todo mundo que se dispôs algum dia a fazer um som sujo e tosco utilizando para tanto, equipamentos vintage, deve muita coisa ao Thee Mighty Caesars. A Banda acabou em 1990, após cinco conturbados anos. O modus operandi do moço é mais ou menos assim: a cada quatro ou cinco anos ele forma uma nova banda. Com o fim dos Migthy Caesars, ele prontamente armou outro ataque com aquela que talvez seja a mais conhecida dentre todas as bandas de seu vasto repertório: Thee Headcoats. Billy Childish é conhecido por ser um sujeito imprevisível e todos os seu grilos e problemas pessoais influenciam incisivamente seus trabalhos em todas as áreas em que ele atua. Os Headcoats duraram até bem mais do que a média, lançando álbuns, compactos e splits ao longo de toda a década de 90, e gerando - a exemplo do Thee Milkshakes - o seu equivalente feminino, as Thee Headcoatees, que seguia basicamente o mesmo esquema das Delmonas: três marmanjos metendo bronca em seus envenenados instrumentos antigos, enquanto as moçoilas fazem os vocais, num misto de punk e R&B com influências explícitas de grupos como The Kinks e The Pretty Things.



A principal referência de Billy Childish no Thee Headcoats foi o grupo sessentista Downliners Sect - que os influenciou até mesmo no visual. A coisa toda chegou ao ponto de Billy armar uma outra banda com alguns de seus heróis do Downliners Sect, numa investida que ficou conhecida com Thee Headcoats Sect.

Billy B. Childish é um "doido varrido". Tentar acompanhar a onda do cara falando de todas as bandas e projetos que esse homem já criou, é certeza de extrapolar os limites do que seria adequado para um texto na Internet. E só agora notei que esqueci de citar os Natural Born Lovers, mas ainda há chance de me redimir, lembrando da ótima The Buff Medways, sua penúltima banda que surgiu por volta de 2000 ou 2001, quando Billy quis fazer um som "Hendrixiano". A banda na verdade possui o quilométrico nome de Wild Billy Childish & The Friends of The Buff Medway Fanciers Association. Mas, pragmaticamente, acharam por bem abrevia tudo isso com o simples The Buff Medways. Eu não tô dizendo que esse cara é doido! A The Buff Medways também já foi pro saco e, desde o ano passado, Childshi está com uma outra chamada Wild Billy Childish & The Musicians of The British Empire, que estreou lá fora com um single com as faixas "Punk Rock At The British Legion Hall" e "Joe Strumer Grave", seguido pelo ótimo disco de estréia da banda.



E não se enganem achando que vão ouvir alguma música de câmara ou algo do tipo... O som é aquele punk-rock-sessentista-tosco de sempre. Quem quiser ir bem mais a fundo na história desse rapaz, é só correr atrás do documentário "Billy Childish Is Dead", disponível na Internet. É só procurar que você acha, irmãozinho. Até.

Alguns dos feitos de nosso herói para baixar:

The Pop Rivets

Thee Milkshakes

The Del Monas

Thee Mighty Caesars

Thee Headcoats

Thee Headcoatees

The Buff Medways

Wild Billy Childish & The Musicians of The British Empire