quinta-feira, 18 de setembro de 2008

ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO

O mítico personagem Zé do Caixão retorna às telas.
Por Júlio César Kümmer

“A maldição do Zé do Caixão terminou...”. Assim proferiu o cineasta paulistano José Mojica Marins em discurso no I Festival Paulínia de Cinema, apresentando a pré-estréia de seu novo filme “Encarnação do Demônio”. O criador e intérprete do lendário personagem Zé do Caixão estava em festa. Naquela noite o longa que fecha a trilogia formada por “À Meia-Noite Levarei sua Alma” (1964) e “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” (1967), arrebatou 7 das 15 categorias para filmes de ficção, incluindo os prêmios de melhor filme e melhor filme segundo a crítica. Apesar de ter sido o grande vencedor da noite, o simples fato de “Encarnação do Demônio” existir já era motivo de grande comemoração. O projeto iniciado nos anos 60 enfrentou dificuldades homéricas ao longo dos tempos dignas de qualquer praga de Zé do Caixão. As perseguições sofridas pelos censores da ditadura militar e pela igreja católica, a constante falta de dinheiro e, até mesmo o falecimento de três produtores interessados em financiar o filme, deram ao cineasta a fama de “Maldito” e quase fizeram Mojica abortar definitivamente o projeto.

Nos anos que se seguiram, Mojica dirigiu todos os tipos de filmes da chamada “boca do lixo” paulistana, inclusive o grande sucesso de 1987, “48 Horas de Sexo Alucinante”, onde assina a direção como A. J. Avelar. Também flertou com a política, e incentivado por Jânio Quadros saiu candidato a deputado federal pelo estado de São Paulo. Zé do Caixão já teria se tornado parte do imaginário popular participando de programas de TV dos mais variados segmentos, porém seu criador ansiava por uma oportunidade de trazê-lo de volta às grandes telas de cinema.

Em uma combinação nada sutil onde a ficção imita a realidade, “Encarnação do Demônio” começa com Zé do Caixão deixando a prisão após 40 anos, onde esteve encarcerado por seus crimes cometidos nos anos 60. Envelhecido e ainda mais obstinado em sua loucura, o coveiro sádico ainda alimenta o objetivo de encontrar a mulher superior que seja capaz de gerar um filho perfeito.

Ao ser libertado, Zé do Caixão encontra um mundo completamente diferente e, por isso trazê-lo de volta após 40 anos não foi uma tarefa nada fácil, cabendo ao próprio diretor e a seu fiel seguidor e co-roteirista Dennison Ramalho, atualizar o personagem e dar a intensidade que lhe era característica em uma época onde a violência gratuita é levada ao extremo em filmes como “Jogos Mortais” e “O Albergue”. Nesse aspecto “Encarnação” não deixa nada a desejar, embora algumas críticas sociais estejam mais aparentes que antes e o fato da ideologia do personagem continuar ingênua para alguns, o Zé do Caixão de hoje é um “chute na porta”, e mostra-se muito mais lascivo, truculento, blasfemo e niilista que antes, capaz das torturas mais torpes possíveis para castigar suas vítimas.Felizmente, a facilidade de recursos não fez Mojica dispensar o antigo método artesanal de cinema que o fez conhecido e que sempre lhe foi bastante peculiar e, em nome do choque e do realismo visceral, muito do repugnante que se vê no filme se trata da mais pura realidade. As cenas com animais peçonhentos também vão muito mais além nesse filme, naquela que deve ter sido uma das cenas mais difíceis de “Encarnação”, o diretor fez uma das atrizes literalmente mergulhar em um tonel com quase três mil baratas e, dentre outras coisas más, o protagonista faz uso “não convencional” de uma ratazana para atormentar outra vítima.

Embora seja parte de uma trilogia, o espectador não precisa necessariamente ter assistido aos outros filmes para entender “Encarnação”, já que Dennison Ramalho teve uma preocupação quase didática, e até excessiva na minha opinião, em resgatar fatos e personagens dos filmes anteriores. Isso sem mencionar a maravilhosa refilmagem do que teria sido o verdadeiro final de “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” (1967), impedido pelos censores e padres de ser filmado naquela época, mas que rendeu uma belíssima cena com um sósia perfeito de Mojica, o fã norte-americano Raymond Castile, que limpou em definitivo a honra de Zé do Caixão.

“Encarnação do Demônio” consegue ser muito mais que um filme visualmente perfeito, e apesar de ter algumas cenas e seqüências muito bem feitas para o que se espera de uma produção nacional, ainda resgata o espírito independente do cinema brasileiro do início dos anos 60. Em suma, tudo que se espera do bizarro universo de Zé do Caixão está nesse filme, e talvez seja por isso que fique a sensação de que mais que um filme “Encarnação” e também propriamente um grande manifesto, um manifesto a carreira de um homem que tenta há 40 anos fazer cinema em seu país e ser reconhecido por seus compatriotas. Um homem que dos autos dos seus 72 anos de idade, jamais comprometeu a sua dignidade como cineasta e mais uma vez nos convida a adentrar ao seu estranho mundo buscando ser compreendido por toda uma nova geração de cinéfilos. Viva Zé do Caixão!