domingo, 28 de setembro de 2008

THE MUMMIES ARE BACK!!!

Por Luís Gustavo
Imagine que você saiu uma noite qualquer e foi a uma biboca onde geralmente rola aqueles showzinhos podres das bandas dos seus amigos da esquina e, logo na entrada do lugar, você ver chegando um carro de funerária de onde descem quatro criaturas vestidas de múmias, com instrumentos nas costas. Interessante? Genial? Inusitado? Ridículo? Não importa qual sua opinião, o fato é que essa banda realmente existiu, se chamava The Mummies, e pouquíssimas vezes alguém conseguiu arrancar dos instrumentos um rock tão vivo e verdadeiro, quanto eles.

Os quatro vão se reunir para uma única apresentação no dia 10 de outubro, no “Funtastic Dracula Carnival”, em Valência, na Espanha, junto a outros nomes de destaque do universo garageiro como King Khan and BBQ Show, Thee Vicars, Untamed Youth, e outros. Sim, os Mummies também aderiram à onda de come backs... Se liguem em alguns trechos do texto do Website dos caras.
“É isso mesmo, após 15 anos de incessantes aporrinhações, alguém finalmente convenceu os meninos a viajar no tempo até 2008 para um show. É preciso dizer que os rapazes estão horrorizados com o estado do futuro que nós vivemos. Onde estão os malditos carros voando como em Blade Runner?! Que diabos de futuro é esta merda afinal? A melhor coisa que vocês puderam fazer é o eBay? O que aconteceu com todos os equipamentos baratos? Oh merda... Onde diabos estão os bazares beneficentes da cidade?
Isto é pior do que Chuck andando até a estátua da liberdade, no final do Planeta dos Macacos. O que vocês imbecis fizeram com o futuro? Caramba!!
Esta é a razão pela qual tivemos de voltar. E depois de tocarmos neste show, nós retornaremos para a nossa pequena máquina do tempo, e voltaremos para a porra do seguro-e-são ano de 1989 e compraremos todos os Farfisas, Silvertone, Vox e Framus que encontrarmos e destruiremos todos eles!

Ah, sim, e isto não é nenhuma besteira. Nós realmente iremos tocar no dia 10 de outubro de 2008. Somente uma vez. Um único maldito show. Uno. Entendeu? Se algum dia você quis ver os Mummies ao vivo, esta é a sua chance. Ingressos à venda provavelmente a partir de junho. Confira no Myspace do promotor para obter mais informações sobre o show: Funtastic Dracula Carnival. Ah, sim, há um último percalço: o show será na Espanha, amigo. Então comece a poupar para a tarifa plana, e lembre-se, no máximo 3 oz no avião, para esvaziar a colostomia antes de embarcarem”.

É isso aí! Se vocês tiverem grana ou a oportunidade de estar em Valência no dia do show, não percam!
Os Mummies começaram a atormentar a vizinhança em 1988, na cidade de San Mateo, Califórnia, e tinham como principais referências grupos de garage rock sessentista, como The Sonics e contemporâneos como o Thee Migthy Caesar – banda de Billy B. Childish, um dos heróis da rapaziada, que chegou a declarar que os Mummies são a única banda de garagem que ele realmente ama. E aí, quer mais credenciais do que isso? A banda possui uma vasta e dispersa discografia, com inúmeros Lps, Eps, singles, splits e diversas participações em coletâneas que sairam por vários selos especializados: Estrus, Sympathy For The Record Industry etc. Sempre naquele esquema “trash” de produção. Com shows alucinantes e toda a mitologia que criaram em torno de sua imagem - o visual, a tosqueira extrema, o carro funerário que usavam etc., etc. - , fizeram fama a ponto de a gravadora independente Sub Pop se interessar pela banda e oferecer-lhes um contrato, vislumbrando a possibilidade de fazer dos Mummies um novo Kiss (!). Mas eles rejeitaram a proposta categoricamente. Foram até o fim tocando pelo circuito mais under do under, ao lado de diversas bandas legendárias do mesmo seguimento, como Supercharger e Thee Headcoats, encerrando suas atividades em 1994.
Para os curiosos, eis aqui dois exemplos perfeitos das inenarráveis peripécias dessas criaturas hediondas:
The Mummies - Death By Unga Bunga! (Estrus)
The Mummies - Never Been Caught (Telstar Records)

sábado, 27 de setembro de 2008

SGANZERLA: O CINEMA E SUA DÚVIDA

"Não há meias medidas. Ou a realidade ou a ficção. Reportagem ou mise-en-scène. Opta-se a fundo pela arte ou pelo acaso - construção ou constatação?" (pris sur le vif: Jean Luc Godard): o cinema e sua dúvida: o que é realmente o cinema?

O cinema, assinala Robert Bresson, é "movimento interior" - a arte de não dizer nada não é código nem espetáculo mas uma linguagem de imagens e sons em movimento capaz de produzir a voz do silêncio. Cinema não é teatro nem música ou literatura. Se para Roger Vadim "é uma arte das massas" para Jean Pierre Melville "não se pode levar o cinema muito a sério". Já para Godard trata-se de uma "arte ilusória; detesto o cinema; o verdadeiro cinema consiste em pôr alguma coisa diante da câmera". Atenção para a definição de Fellini: "O cinema é a arte em que o homem se reconhece da maneira mais imediata: um espelho no qual deveríamos ter coragem para descobrir nossa alma". E Alain Resnais: "O filme é uma tentativa ainda grosseira e primária de aproximar-nos da complexidade do pensamento, do seu mecanismo". Nicholas Ray: "É a melodia do olho". Orson Welles assegura: "Eu não amo o cinema, salvo quando eu filmo; então é preciso saber não ser tímido com a câmera. É preciso violentá-la, forçá-la em suas últimas reentrâncias, pois ela é uma vil mecânica - o que interessa é a poesia." "Ação, ação, ação - acentua o talento aceso de Raoul Walsh. - A tela deve estar sempre cheia de acontecimentos". "A câmera deve ser um lápis na mão do diretor", segundo W. D. Murnau.

(Atenção aprendizes, débeis mentais ou cegos de espírito: "É preciso introduzir uma grande variedade de elementos diferentes num filme para que seja construído mais ou menos como uma peça musical, uma sinfonia").

Rogério Sganzerla

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

COQUETEL MOLOTOV 2008

Pois é, brothers and sisters... O Coquetel Molotov. Eu não fui (nem teria coragem de encarar um negócio desse), você também não foi... But, who cares?! O que realmente importa aqui são os interessados no que rolou no evento e, para eles, a Carlinha fez um excelente apanhado de tudo o que ela viu e ouviu por lá. Parabéns, Cerejinha, pelo ótimo texto e também pelo estômago forte pra agüentar aquilo e sobreviver pra contar a história! hehe.. Beijos baby, honey, darling!!!

Abaixo o link da cobertura:

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO

O mítico personagem Zé do Caixão retorna às telas.
Por Júlio César Kümmer

“A maldição do Zé do Caixão terminou...”. Assim proferiu o cineasta paulistano José Mojica Marins em discurso no I Festival Paulínia de Cinema, apresentando a pré-estréia de seu novo filme “Encarnação do Demônio”. O criador e intérprete do lendário personagem Zé do Caixão estava em festa. Naquela noite o longa que fecha a trilogia formada por “À Meia-Noite Levarei sua Alma” (1964) e “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” (1967), arrebatou 7 das 15 categorias para filmes de ficção, incluindo os prêmios de melhor filme e melhor filme segundo a crítica. Apesar de ter sido o grande vencedor da noite, o simples fato de “Encarnação do Demônio” existir já era motivo de grande comemoração. O projeto iniciado nos anos 60 enfrentou dificuldades homéricas ao longo dos tempos dignas de qualquer praga de Zé do Caixão. As perseguições sofridas pelos censores da ditadura militar e pela igreja católica, a constante falta de dinheiro e, até mesmo o falecimento de três produtores interessados em financiar o filme, deram ao cineasta a fama de “Maldito” e quase fizeram Mojica abortar definitivamente o projeto.

Nos anos que se seguiram, Mojica dirigiu todos os tipos de filmes da chamada “boca do lixo” paulistana, inclusive o grande sucesso de 1987, “48 Horas de Sexo Alucinante”, onde assina a direção como A. J. Avelar. Também flertou com a política, e incentivado por Jânio Quadros saiu candidato a deputado federal pelo estado de São Paulo. Zé do Caixão já teria se tornado parte do imaginário popular participando de programas de TV dos mais variados segmentos, porém seu criador ansiava por uma oportunidade de trazê-lo de volta às grandes telas de cinema.

Em uma combinação nada sutil onde a ficção imita a realidade, “Encarnação do Demônio” começa com Zé do Caixão deixando a prisão após 40 anos, onde esteve encarcerado por seus crimes cometidos nos anos 60. Envelhecido e ainda mais obstinado em sua loucura, o coveiro sádico ainda alimenta o objetivo de encontrar a mulher superior que seja capaz de gerar um filho perfeito.

Ao ser libertado, Zé do Caixão encontra um mundo completamente diferente e, por isso trazê-lo de volta após 40 anos não foi uma tarefa nada fácil, cabendo ao próprio diretor e a seu fiel seguidor e co-roteirista Dennison Ramalho, atualizar o personagem e dar a intensidade que lhe era característica em uma época onde a violência gratuita é levada ao extremo em filmes como “Jogos Mortais” e “O Albergue”. Nesse aspecto “Encarnação” não deixa nada a desejar, embora algumas críticas sociais estejam mais aparentes que antes e o fato da ideologia do personagem continuar ingênua para alguns, o Zé do Caixão de hoje é um “chute na porta”, e mostra-se muito mais lascivo, truculento, blasfemo e niilista que antes, capaz das torturas mais torpes possíveis para castigar suas vítimas.Felizmente, a facilidade de recursos não fez Mojica dispensar o antigo método artesanal de cinema que o fez conhecido e que sempre lhe foi bastante peculiar e, em nome do choque e do realismo visceral, muito do repugnante que se vê no filme se trata da mais pura realidade. As cenas com animais peçonhentos também vão muito mais além nesse filme, naquela que deve ter sido uma das cenas mais difíceis de “Encarnação”, o diretor fez uma das atrizes literalmente mergulhar em um tonel com quase três mil baratas e, dentre outras coisas más, o protagonista faz uso “não convencional” de uma ratazana para atormentar outra vítima.

Embora seja parte de uma trilogia, o espectador não precisa necessariamente ter assistido aos outros filmes para entender “Encarnação”, já que Dennison Ramalho teve uma preocupação quase didática, e até excessiva na minha opinião, em resgatar fatos e personagens dos filmes anteriores. Isso sem mencionar a maravilhosa refilmagem do que teria sido o verdadeiro final de “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” (1967), impedido pelos censores e padres de ser filmado naquela época, mas que rendeu uma belíssima cena com um sósia perfeito de Mojica, o fã norte-americano Raymond Castile, que limpou em definitivo a honra de Zé do Caixão.

“Encarnação do Demônio” consegue ser muito mais que um filme visualmente perfeito, e apesar de ter algumas cenas e seqüências muito bem feitas para o que se espera de uma produção nacional, ainda resgata o espírito independente do cinema brasileiro do início dos anos 60. Em suma, tudo que se espera do bizarro universo de Zé do Caixão está nesse filme, e talvez seja por isso que fique a sensação de que mais que um filme “Encarnação” e também propriamente um grande manifesto, um manifesto a carreira de um homem que tenta há 40 anos fazer cinema em seu país e ser reconhecido por seus compatriotas. Um homem que dos autos dos seus 72 anos de idade, jamais comprometeu a sua dignidade como cineasta e mais uma vez nos convida a adentrar ao seu estranho mundo buscando ser compreendido por toda uma nova geração de cinéfilos. Viva Zé do Caixão!


quinta-feira, 11 de setembro de 2008

THE PRETTY THINGS (1965)

No início da década de sessenta, quando o esperto empresário dos Stones Andrew Loog Oldham criou todo aquele circo para mídia, forjando a imagem de delinqüentes juvenis irrecuperáveis da banda, já havia na época um outro grupo considerado ainda mais sujo e repulsivo que os Rolling Stones: os Pretty Things. Na verdade, as duas eram meio que "bandas irmãs". Ambas vieram da mesma cena que girava em torno do ídolo Alex Corner, e tinham em comum a mesma adoração pelo R&B e pelo Rock de Chuck Berry e Bo Diddley. E mais, o guitarrista dos Pretty Things Dick Taylor, foi o primeiro baixista dos Stones. Ou seja, eram chapas. No entanto, os Pretty Things eram considerados uma degeneração dos Stones - mais selvagens e agressivos.

A banda era um completo desastre. Uma verdadeira aula de como não se conduzir uma carreira. Pra começo de conversa, os Pretties jamais tiveram o mesmo sucesso e fama mundial que a maioria de seus contemporâneos. Eram uns sujeitos arrogantes e teimosos. Declinaram de todos os insistentes convites para tocar nos EUA, preferindo atuar nos palcos europeus e australianos, onde obtiveram algum êxito. A relação pessoal dos caras também era caótica. O baterista Viv Prince, por exemplo, foi expulso da banda durante uma excursão australiana em 1965, surrado pelos demais integrantes dentro de um avião. Nesse meio tempo, lançaram brilhantes compactos e um incrível álbum de estréia. Este que estou postando aqui, que é seguramente um dos melhores debutes de um grupo britânico nos anos sessenta.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

NUGGETS: ORIGINAL ARTYFACTS FROM THE FIRST PSYCHEDELIC ERA 1965 - 1968

Eu já havia comentado alguma coisa sobre este disco aqui no Polimorfismo Perversos. Agora vou fazer melhor: vou postar os quatro CDs do Box Set da Rhino! Originalmente, esta compilação foi lançada como um LP duplo pela Elektra Records em 1972. A idéia era simples, mas genial: reunir num mesmo álbum alguns dos mais incendiários compactos de bandas americanas de garagem lançados nos anos sessenta por minúsculos selos regionais. Surpreendentemente, alguns dos compactos lançados por estes grupos chegaram a atingir boas posições nas paradas. Isso numa época em que não havia nada de errado ou de cafona em se fazer sucesso e tocar numa rádio.

Lenny Kaye, idealizador da coletânea, jornalista da Creem Magazine e futuro guitarrista do Patti Smith Group, era catedrático no assunto, e embora ele e a Elektra estivessem indo contra a maré ao lançarem este álbum, a decisão foi acertada. O disco é possivelmente a melhor coletânea já lançada na história da música pop. Influenciou toda uma geração em meados dos anos 70 – gente que era muito jovem para ter alcançado essas bandas na época em que as músicas foram editadas. Explicando isso melhor, Nuggets tornou-se referência básica para todo o movimento punk na década de setenta e para a New Wave e o Pós-Punk no início dos anos oitenta. Não é muito difícil provar isso. Basta dar uma rápida olhada no encarte e perceber que várias das músicas presentes na compilação foram regravadas posteriormente por artistas e bandas como Iggy Pop, Cramps, Ramones, Dead Boys, The Fall, Wayne County, Richard Hell, The Undertones, etc.

Este Box Set da Rhino extende a garimpagem original, e o trabalho realizado é tão genial e inspirado quanto a iniciativa de Kaye em 1972. Na caixa com os quatro CDs, o álbum duplo em vinil de 1972 é apenas o disco 1 do Box. Isso quer dizer que das 27 faixas originais, Nuggets agora apresenta 118 faixas! São mais de cem bandas, na grande maioria totalmente obscuras. Muitas tornaram-se legendárias e alcançaram o status de cult band: The Standells, Chocolate Watch Band, 13th Floor Elevators, The Sonics, The Shadows of Knight, The Seeds, Count Five e outras tantas que você encontra aqui.

domingo, 7 de setembro de 2008

"Se você não tem nenhuma empatia com o brilho enganoso deste mundo virado de ponta cabeça, você é visto, pelo menos por aqueles que acreditam em tal mundo, como uma lenda controversa, como um fantasma invisível e malévolo, como um perverso Príncipe das Trevas.

Que é na realidade um bom título — mais honrado que qualquer outro que o atual sistema de explicações iluminadas por holofotes é capaz de dar.

Assim, nos tornamos emissários do Príncipe de Divisão — 'aquele que está errado' — aquele que traz desespero àqueles que se identificam com a humanidade".

Guy Debord

terça-feira, 2 de setembro de 2008

LOU REED: METAL MACHINE MUSIC (1975)

Lou Reed é mesmo um cara muito foda! E este Metal Machine Music é uma prova concretíssima da moral que este rapaz sempre teve. Do contrário, quem mais seria capaz de gravar um álbum como esse e conseguir fazer com que a gravadora o lançasse sem questionamentos quanto a sua viabilidade comercial? Sem sacanagem, se no verbete para a palavra punk houvesse uma foto ao lado, essa foto seria a de Lou Reed. Metal Machine Music foi lançado em 1975 e, é óbvio, dividiu opiniões e ainda causa polêmica e estranhamentos até nossos dias.

O disco é de um radicalismo assombroso. Um álbum duplo com apenas quatro faixas (uma em cada lado dos LP's), que despeja sobre os incautos uma avalanche medonha de distorções e feedbacks. Puro noise. O mais incrível é o fato de Lou ter cometido esse verdadeiro suicídio comercial e não ter sequer arranhado sua gloriosa carreira.

Desafio qualquer fã de Sonic Youth, Jesus and Mary Chains e congêneres a ouvir este Metal Machine Music ao menos uma vez de cabo a rabo! Quem conseguir, leva o troféu “Guga Old School”. Até.