sexta-feira, 22 de agosto de 2008

DESTRUINDO 2000 ANOS DE CULTURA

Por Luís Gustavo
Conhecem aquela que diz "recordar é viver?" Então. Foi com esse provérbio cretino em mente, que tive a idéia e a cara-de-pau de jogar aqui um texto escrito há mais de dez anos, que publiquei originalmente num fanzine no comercinho de 98. Na época em que isso foi escrito, a banda ainda estava em plena atividade, lançaria mais um disco e o menino Carl Crack (que morreu em 2001) ainda estava vivo. Eu poderia ter atualizado a coisa toda, adicionando novas informações, mas preferi não mexer em nada. Notem como eu realmente acreditava que esses caras seriam capazes de salvar a pátria. O Atari Teenage Riot até teve um bom espaço na mídia, mas não chegaram a fazer o estrago que eu imaginei que eles seriam capazes. Uma pena...

DELETE YOURSELF!

Já estava mais do que na hora de aparecer algo para por fim a esse marasmo terrível em que estamos imersos. Algo com força suficiente para acabar com toda essa merda tediosa, indolente e inócua. A estagnação é mais que evidente. Tudo está muito chato, seguro e sem novidades. Esse negócio odioso que a meninada de hoje chama de "punk", é uma piada; inofensivo e medíocre demais para ser levado em consideração. Foi preciso um grupo de garotos alemães influenciados pela música eletrônica aparecer, para nos provar que nem tudo está perdido.

INICIANDO A REVOLTA

Em meados de 1992, um jovem de 19 anos que atende pela alcunha de Alec Empire, andava mortalmente entediado e revoltado com os rumos que a cultura rave estava tomando em Berlin naquela época; cada vez mais popular e distante do underground. Para piorar a situação, o techno estava sendo cada vez mais infectado pela doutrina neonazista, que se alastrava arrogante por toda Berlin.

As coisas não andavam nada bem. A animosidade e a intolerância atingiam níveis insuportáveis. Alec Empire, um moleque invocado, decidido e de posições subversivas bem definidas, pensou "puta que pariu, alguma coisa tem que ser feita, e já!" (ou algo do tipo...). Bem, seja como for, a verdade é que apesar da ideologia extrema-direita fazer a cabeça de boa parte da juventude daquele país, nem todos, porém, se identificavam com essas ideias tão tacanhas. Alec Empire não estava só.

Alec fazia experimentos com música eletrônica em sua própria casa, com a ideia de devolver o caráter inovador e democrático que a música eletrônica teve um dia, antes de se tornar tão corporativa e burocrática. Como já havia dito anteriormente, Alec Empire não estava só, e logo ele conheceu outros jovens que, como ele, estavam igualmente insatisfeitos e revoltados com toda aquela situação. Jovens como a menina Hanin Elias, uma garota raivosa, de rara atitude e personalidade forte, e Carl Crack, um M.C. e D.J. da Suazilândia. Mais adiante, integrou-se ao grupo uma outra menina chamada Nic Endo. A partir de suas experiências, frustrações e principais afinidades (ódio incontido pela cultura rave e admiração incondicional pela música hardcore), eles resolveram forma uma banda punk cibernética radical, e a chamaram de Atari Teenage Riot – o mais extremo e barulhento crossover de "hardcore music", ideologia anarquista e música eletrônica de que se tem notícia. Assim, Alec deu início a sua saga, destilando toda a sua ira na base de muito grito, em letras fortíssimas que massacram impiedosamente o sistema, o neonazismo, a imprensa e renegam a cultura rave e o novo techno. Na verdade, o ATR não se enquadra de forma alguma no padrão e gosto do público de música eletrônica. O som ultrabarulhento que eles fazem é mais aceito pelo pessoal de camisa preta e coturno mesmo.
No outono de 92, saiu o primeiro registro da banda, o single "Hetzjagd auf Nazis" – prontamente boicotado pelas lojas (especialmente aquelas especializadas em música eletrônica). Mesmo sem grana e sem incentivo os garotos seguiram em frente com a convicção de quem sabe bem o que quer. E eles queriam muita coisa! Queriam deliberadamente destruir tudo a sua frente! Em meados de 1993, o Atari assinou com um pequeno selo que tinha a pretensão de mexer no som, rotulá-los e vendê-los como quem vende banana na feira. A meninada do Atari, é lógico, tratou logo de mandar esse pessoal tomar no cu e caíram fora. Foi quando Alec resolveu montar seu próprio selo, o DHR (Digital Hardcore Records). Lançaram a partir de então, vários Ep’s e compactos, dos quais alguns chegaram até as mãos do sempre atento Jonh Peel, que os convidou para registrar uma sessão na BBC.
A partir daí, as coisas começaram a acontecer para eles; passaram a se apresentar em lugares maiores, levando suas mensagens ultra-esquerdistas para um número maior de pessoas. Com boa repercussão e nome já devidamente firmado no underground, Alec juntou-se a alguns amigos e fundou o "Suicide Club", em Berlin. O clube era uma extensão da DHR e agitava altos shows na cidade. Mas logo o clube foi fechado. No início de 1996, a Grand Royal (selo americano fundado pelos Beastie Boys) contatou a Digital Hardcore Records para firmar um acordo afim de lançá-los no mercado americano.


Já em Nova Iorque, o ATR obteve ótima repercussão com uma aclamada apresentação na Virgin Megastore (sucesso de público e crítica). Os nova-iorquinos da Jon Spencer Blues Explosion também ficaram impressionados com aqueles garotos invocados, e os convidaram para abrir alguns de seus shows. O Atari Teenage Riot literalmente pôs a porra dos EUA abaixo, mesmo com a ausência temporária da vocalista Hanin Elias (que na época estava grávida). Na primavera de 97, Beck também os convidou para que abrissem shows de sua turnê. A imprensa norte-americana embasbacada, babou o ovo mesmo! E, isso meu chapa, é uma vitória e tanto em se tratando de Estados Unidos. Se bem que os meninos do ATR, provavelmente, deveriam estar cagando e andando para o que os americanos pensam sobre eles.


Ainda em 97 e já pela Grand Royal, é lançado seu primeiro disco no mercado americano, o inacreditável "Burn, Berlin, Burn!". O álbum reúne dois lançamentos anteriores da banda na Europa. Eles também participaram da trilha sonora daquele filmeco horroroso, "Spawn o Soldado do Inferno" (uma adaptação para o cinema de um gibi de Todd Mc Farlane). No disco eles dividem uma faixa com o Slayer, a fudidaça “No Remorse (I Wanna Die)”. E assim, o ATR vai construindo a sua história, levando a música eletrônica para além das fronteiras do music-bussines, dando um grau de relevância maior do que o de simples produto de entretenimento popular, com postura, atitude e radicalismo barulhento altamente influenciado pelo que se fez de melhor no bom e velho punk hardcore (aquele, o Old School).



Atari Teenage Riot essencial:

The Future of War (1996)
Burn, Berlin, Burn (1997)
60 Second Wipeout (1999)