sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Muito antes de Bin Laden aparecer, Ian Svenonius e sua Nation of Ulysses - Steve Kroner (guitarra), Steve Gamboa (baixo) e Tim Green (bateria) - já haviam dado início ao seu plano de ataque aos Estados Unidos com este impressionante primeiro álbum lançado em 1991 pela independente Dischord Records. O Nation of Ulysses foi um dos maiores expoentes do "post-hardcore", um subgênero que tomava a cena hardcore em Washington DC de assalto no final dos anos 80, explorando novas possibilidades musicais e na abordagem dos temas. Em 13-Point Program to Destroy America, o grupo promove um verdadeiro atentado ao adicionar à porrada, elementos que vão do noise-rock ao free-jazz.

Por Carla Castellotti

Black Hole é construída em torno de uma peste sexualmente transmissível, capaz de transformar os jovens em aberrações

Que adolescente nunca brigou com os pais, procurou uma turma pra se identificar ou cometeu uma burrada imperdoável? Em Black Hole, não é diferente. Buscando identificação? Achou aqui seu quadrinho. Só não espere por super-heróis capazes de manter o mundo livre de vilões, aqui o bem e o mal estão dentro do universo particular de cada jovem que narra sua própria trajetória.

Lançado no Brasil em dois volumes (Introdução à Biologia e O Fim) pela editora Conrad, Black Hole é a novidade fresquinha das HQ de cultura pop. A Graphic Novel de Charles Burns foi ganhadora do Eisner Award de melhor Álbum de 2006, e de nove Harvey Awards.

Charles Burns levou dez anos produzindo a série, que originariamente foi distribuído em doze capítulos publicados entre 1995 e 2005. O autor já produziu ilustrações para o fanzine da gravadora Sub Pop, teve contribuições publicadas pela conhecida revista de história em quadrinhos RAW, editada por Art Spiegelman, e fez até capa de disco do Iggy Pop. Teve ainda outras curtas histórias reunidas no "Charles Burns' Library" – ainda sem tradução para o português.

Antes do Grunge e da AIDS

A história se passa em meados da década de setenta, nos arredores da cidade americana de Seattle – tão conhecida por ser o berço de bandas grunge como o Nirvana e o Mudhoney. Mas antes mesmo das bandas, Black Hole é construída em torno de uma peste sexualmente transmissível, capaz de transformar os jovens em aberrações.

O buraco negro te leva a acreditar em situações irrecuperáveis. Circunstâncias que só a certeza de um adolescente pode ser capaz de mensurar como inquestionável. É dito que Burns antecipou na sua obra a disseminação AIDS, mas antes de ser visionário a este ponto o quadrinho mexe com o fantástico. Além do sentimento juvenil, nada ali pode ser descrito como puramente real.

Jovens outsiders sofrem com a velha dificuldade do peso de existir, buscando o auto-exílio, já que a misteriosa doença marca na pele a diferença entre uns e outros. Não é fácil continuar vivo, mas há uma busca nessa descida ao buraco negro.
A graphic novel é baseada na estética underground sessentista. Jovens alucinam entre o cânhamo, o LSD, a bebida e o sexo. Burns consegue traduzir a exatidão do sentimento teenager que se joga atrás de respostas. Permeada por horror e insanidades a história é construída através de questionamentos familiares, busca pelos extremos, a tentativa de aceitação e o desejo único de um pouco de felicidade.

O Fim

A angústia é crescente no último volume da HQ. Introdução à biologia lançada no final do ano passado preparava o terreno para a descida vertiginosa deste volume final.

Keith Person é apaixonado por Chris Rhodes, mas é para Rob que a personagem despeja seu amor. Eliza – apelidada pelos rapazes de Lizard Queen – parece buscar somente alguém que goste minimamente dela. O amor incondicional é posto como a salvação desses personagens que buscam no companheiro um modo de ser aceitos por alguma parcela do mundo.

Após a primeira experiência sexual com alguém contaminado o jovem que até então era normal e seguia sua rotina entre a escola, flertes vazios e baseados, tem sua vida transformada em fuga. Os adolescentes doentes escapam de suas casas para o mato e ali tentam subsistir meio ao isolamento.

Burns ataca contra as histórias de super-heróis, mostrando a realidade fatalista de jovens que vão além de beirar o precipício. Eles mergulham de cabeça por não haver saída. Enquanto alguns colecionam o novo disco do Bowie, os infectados racionam comida e bebem para agüentar o “tranco”.

O exercício da solidão leva ao delírio. Toda sorte de coisas estranhas os cercam. Utilizam-se disso para produzir sua própria arte, em desenhos daquilo que vêem ou textos de diário, a loucura é justamente o motor da narração. Teimosamente eles sobrevivem, enquanto o leitor não larga a história diante do desenrolar brusco das decisões levadas até as últimas conseqüências.

Em Black Hole fica evidente ser preciso respeitar a tristeza e o isolamento. Descer até o mais fundo não é um caminho fácil, mas é o percorrido por aqueles que não querem boiar na superfície. Burns escancara o jovem que vive não tendo nada a perder, mas que quer ganhar apenas um sopro de bem-estar para continuar crescendo. A história joga com a constatação, Black Hole não é um quadrinho divertido, é antes uma história que deixa a ferida aberta.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Uma compilação de respeito deve ser como esta aqui, que paga um justo tributo ao lendário clube nova-iorquino CBGB's - antigo reduto punk que em seus áureos tempos lançou tendências e vanguardas, deflagrando praticamente sozinho um movimento de importância crucial, que promoveu uma ruptura com os ditames da indústria cultural. A casa, no entanto, teve um fim inglório sendo fechada por mesquinharias burocráticas da prefeitura de Nova Iorque. Mas, voltando ao disco, esta coletânea é danada! O cara que a idealizou devia estar num momento especialmente inspirado. CBGB's and the Birth of US Punk acertadamente não se restringe à cena punk/new wave de Nova Iorque, vai mais além pegando a coisa direto de sua gênese com os fabulosos grupos garageiros pré-punk. O disco começa com bandas como The Sonics, The Seeds, 13th Floor Elevators e Velvet Underground, e vai seguindo a ordem evolutiva com The Stooges, The Modern Lovers e New York Dolls. CBGB's and the Birth of US Punk também resgata nomes mais obscuros como os medonhos e espetaculares Electric Eels (podem esperar para breve algo sobre eles aqui no Polimorfismo) e o transformista Wayne County, chegando obviamente, às bandas da era CBGB's, e expandindo mais um pouquinho a coisa toda ao incluir Dead Kennedys, Pere Ubu e alguns mais na bagaça.



Link: CBGB and the Birth of US Punk

Faixas:

1. I'm Waiting For The Man - The Velvet Underground
2. Louie Louie - The Sonics
3. Excuse, Excuse - The Seeds
4. Slip Inside This House - The 13th Floor Elevators
5. Trash - New York Dolls
6. Tight Pants - Iggy & The Stooges
7. Agitated - Electric Eels
8. Speed Queen - Suicide
9. Heart Of Darkness - Pere Ubu
10. Blank Generation - Richard Hell & The Voidoids
11. Friction (Live At CBGB's) - Television
12. I Had Too Much To Dream Last Night - Wayne County
13. Rip Her To Shreds - Blondie
14. California Uber Alles - Dead Kennedys
15. Sonic Reducer (Original Mix) - Dead Boys
16. Judy Is A Punk (Original Demo '75) - Ramones

17. Born To Lose - The Heartbreakers
18. Roadrunner - The Modern Lovers

terça-feira, 26 de agosto de 2008

POR UM CINEMA IMPERFEITO

"Todo desvio do convencional, morto, cinema 'oficial', é um signo saudável. Precisamos de filmes menos perfeitos e mais livres. Se apenas nossos jovens realizadores - não tenho esperança para a velha geração - se declaram livres, completamente livres, fora de si mesmos, violentamente, anarquicamente, não há outra maneira de romper as estagnadas convenções cinematográficas se não através de uma completa desconstrução / decomposição / destruição de tudo aquilo que já foi feito."

Jonas Mekas

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

DESTRUINDO 2000 ANOS DE CULTURA

Por Luís Gustavo
Conhecem aquela que diz "recordar é viver?" Então. Foi com esse provérbio cretino em mente, que tive a idéia e a cara-de-pau de jogar aqui um texto escrito há mais de dez anos, que publiquei originalmente num fanzine no comercinho de 98. Na época em que isso foi escrito, a banda ainda estava em plena atividade, lançaria mais um disco e o menino Carl Crack (que morreu em 2001) ainda estava vivo. Eu poderia ter atualizado a coisa toda, adicionando novas informações, mas preferi não mexer em nada. Notem como eu realmente acreditava que esses caras seriam capazes de salvar a pátria. O Atari Teenage Riot até teve um bom espaço na mídia, mas não chegaram a fazer o estrago que eu imaginei que eles seriam capazes. Uma pena...

DELETE YOURSELF!

Já estava mais do que na hora de aparecer algo para por fim a esse marasmo terrível em que estamos imersos. Algo com força suficiente para acabar com toda essa merda tediosa, indolente e inócua. A estagnação é mais que evidente. Tudo está muito chato, seguro e sem novidades. Esse negócio odioso que a meninada de hoje chama de "punk", é uma piada; inofensivo e medíocre demais para ser levado em consideração. Foi preciso um grupo de garotos alemães influenciados pela música eletrônica aparecer, para nos provar que nem tudo está perdido.

INICIANDO A REVOLTA

Em meados de 1992, um jovem de 19 anos que atende pela alcunha de Alec Empire, andava mortalmente entediado e revoltado com os rumos que a cultura rave estava tomando em Berlin naquela época; cada vez mais popular e distante do underground. Para piorar a situação, o techno estava sendo cada vez mais infectado pela doutrina neonazista, que se alastrava arrogante por toda Berlin.

As coisas não andavam nada bem. A animosidade e a intolerância atingiam níveis insuportáveis. Alec Empire, um moleque invocado, decidido e de posições subversivas bem definidas, pensou "puta que pariu, alguma coisa tem que ser feita, e já!" (ou algo do tipo...). Bem, seja como for, a verdade é que apesar da ideologia extrema-direita fazer a cabeça de boa parte da juventude daquele país, nem todos, porém, se identificavam com essas ideias tão tacanhas. Alec Empire não estava só.

Alec fazia experimentos com música eletrônica em sua própria casa, com a ideia de devolver o caráter inovador e democrático que a música eletrônica teve um dia, antes de se tornar tão corporativa e burocrática. Como já havia dito anteriormente, Alec Empire não estava só, e logo ele conheceu outros jovens que, como ele, estavam igualmente insatisfeitos e revoltados com toda aquela situação. Jovens como a menina Hanin Elias, uma garota raivosa, de rara atitude e personalidade forte, e Carl Crack, um M.C. e D.J. da Suazilândia. Mais adiante, integrou-se ao grupo uma outra menina chamada Nic Endo. A partir de suas experiências, frustrações e principais afinidades (ódio incontido pela cultura rave e admiração incondicional pela música hardcore), eles resolveram forma uma banda punk cibernética radical, e a chamaram de Atari Teenage Riot – o mais extremo e barulhento crossover de "hardcore music", ideologia anarquista e música eletrônica de que se tem notícia. Assim, Alec deu início a sua saga, destilando toda a sua ira na base de muito grito, em letras fortíssimas que massacram impiedosamente o sistema, o neonazismo, a imprensa e renegam a cultura rave e o novo techno. Na verdade, o ATR não se enquadra de forma alguma no padrão e gosto do público de música eletrônica. O som ultrabarulhento que eles fazem é mais aceito pelo pessoal de camisa preta e coturno mesmo.
No outono de 92, saiu o primeiro registro da banda, o single "Hetzjagd auf Nazis" – prontamente boicotado pelas lojas (especialmente aquelas especializadas em música eletrônica). Mesmo sem grana e sem incentivo os garotos seguiram em frente com a convicção de quem sabe bem o que quer. E eles queriam muita coisa! Queriam deliberadamente destruir tudo a sua frente! Em meados de 1993, o Atari assinou com um pequeno selo que tinha a pretensão de mexer no som, rotulá-los e vendê-los como quem vende banana na feira. A meninada do Atari, é lógico, tratou logo de mandar esse pessoal tomar no cu e caíram fora. Foi quando Alec resolveu montar seu próprio selo, o DHR (Digital Hardcore Records). Lançaram a partir de então, vários Ep’s e compactos, dos quais alguns chegaram até as mãos do sempre atento Jonh Peel, que os convidou para registrar uma sessão na BBC.
A partir daí, as coisas começaram a acontecer para eles; passaram a se apresentar em lugares maiores, levando suas mensagens ultra-esquerdistas para um número maior de pessoas. Com boa repercussão e nome já devidamente firmado no underground, Alec juntou-se a alguns amigos e fundou o "Suicide Club", em Berlin. O clube era uma extensão da DHR e agitava altos shows na cidade. Mas logo o clube foi fechado. No início de 1996, a Grand Royal (selo americano fundado pelos Beastie Boys) contatou a Digital Hardcore Records para firmar um acordo afim de lançá-los no mercado americano.


Já em Nova Iorque, o ATR obteve ótima repercussão com uma aclamada apresentação na Virgin Megastore (sucesso de público e crítica). Os nova-iorquinos da Jon Spencer Blues Explosion também ficaram impressionados com aqueles garotos invocados, e os convidaram para abrir alguns de seus shows. O Atari Teenage Riot literalmente pôs a porra dos EUA abaixo, mesmo com a ausência temporária da vocalista Hanin Elias (que na época estava grávida). Na primavera de 97, Beck também os convidou para que abrissem shows de sua turnê. A imprensa norte-americana embasbacada, babou o ovo mesmo! E, isso meu chapa, é uma vitória e tanto em se tratando de Estados Unidos. Se bem que os meninos do ATR, provavelmente, deveriam estar cagando e andando para o que os americanos pensam sobre eles.


Ainda em 97 e já pela Grand Royal, é lançado seu primeiro disco no mercado americano, o inacreditável "Burn, Berlin, Burn!". O álbum reúne dois lançamentos anteriores da banda na Europa. Eles também participaram da trilha sonora daquele filmeco horroroso, "Spawn o Soldado do Inferno" (uma adaptação para o cinema de um gibi de Todd Mc Farlane). No disco eles dividem uma faixa com o Slayer, a fudidaça “No Remorse (I Wanna Die)”. E assim, o ATR vai construindo a sua história, levando a música eletrônica para além das fronteiras do music-bussines, dando um grau de relevância maior do que o de simples produto de entretenimento popular, com postura, atitude e radicalismo barulhento altamente influenciado pelo que se fez de melhor no bom e velho punk hardcore (aquele, o Old School).



Atari Teenage Riot essencial:

The Future of War (1996)
Burn, Berlin, Burn (1997)
60 Second Wipeout (1999)

terça-feira, 19 de agosto de 2008

GEORGE A. ROMERO'S DIARY OF THE DEAD

O VELHO ZUMBI ATACA NOVAMENTE!
Por Enderson Nobre

Dizer que Romero precisou se afastar dos grandes orçamentos para se (re) encontrar é papo furado. A carreira de George Romero sempre foi marcada por altos e baixos; embora mesmo quando não acerta a mão, seus filmes são sempre acima da média e de uma integridade ímpar. Mas, coincidência ou não, foi justamente longe de uma grande (para seus padrões) produção que Romero fez um de seus melhores filmes.

Depois de dividir opiniões entre seus fãs com a “Terra dos Mortos”, Romero fez um retorno ao ninho independente para seguir adiante com sua saga dos mortos vivos. Se em “Terra dos Mortos”, ele parecia (eu repito, parecia) querer encerrar uma etapa dos seus mortos vivos, em “Diário Dos Mortos” o rei dos filmes de zumbis aparenta querer introduzir-nos a um novo começo ou pelo menos a uma nova etapa no universo dos zumbis canibais. Tudo na mitologia “zumbilica” iniciada por Romero está lá, portanto, seus velhos e fiéis devotos não terão do que reclamar.

Mas há algo novo junto com os velhos comedores de carne humana. Junto à crítica política de sempre, a escatologia e o indefectível andar sonolento dos zumbis, Romero acrescenta novos elementos como a metalinguagem, bastante óbvio, e a genial utilização do conceito de campo e extra campo. O terror acontece longe dos olhos dos espectadores e é (o que não se ver) tão ou mais aterrorizante do que é mostrado.

Uma equipe de estudantes de cinema é surpreendida em meio a uma epidemia de zumbis canibais quando fazia um filme de horror no meio de uma floresta escura. Obcecado como todo diretor de cinema, e diante da oportunidade de documentar o horror pelo qual estavam passando, um dos membros da equipe utiliza a câmera para registrar o drama dele e de seus
companheiros; dotando através da lente, um distanciamento quase mórbido em relação aos fatos aterrorizantes. Daí para frente em tom documental somos jogados em meio ao caos e acompanhamos a terrível constatação dos personagens de que o mundo que conheciam não existe mais. Somos testemunhas da desgraça dessas pessoas imersas neste pesadelo macabro tentando fazer a única coisa a ser feita quando nos sentimos ameaçados e desamparados: voltar para segurança de nossos lares. Embora algumas situações possam parecer clichês, Romero nunca as vulgariza e mesmo para os já iniciados no gênero, o filme guarda ótimas seqüências de gelar a mais calejada e incrédula espinha. É a constatação de que o velho Zumbi continua faminto.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

JOHN COLTRANE: A LOVE SUPREME (1964)

Após um período de enfermidade filha-da-puta (que fez com que o negócio ficasse parado aqui por um tempão!), retorno às atividades postando um dos queridinhos de minha modesta coleção. Não vou cair no ridículo de demonstrar erudição, esmiuçando a parte técnica deste álbum. Conheço muito bem minhas limitações. Basta dizer que este disco representa um momento importante na carreira de Coltrane e pode ser considerado o ápice de sua expressividade artística, aliado aqui a sua mais iluminada formação: o pianista McCoy Tyner, o baixista Jimmy Garrison e o baterista Elvin Jones. A música aqui transcende barreiras e, há nela, uma conexão com o rock, influenciado por Coltrane em suas mais diversas variantes.

Link: John Coltrane A Love Supreme (1964)