sábado, 28 de junho de 2008

RAW, BRUTAL, ROUGH & BLOODY

Por Luís Gustavo
O rock está repleto de lendas e personagens que desafiam a realidade, mas em se tratando de escatologia e atitudes grotescas, ninguém jamais conseguiu chegar perto de GG Allin, uma figura que levou o perigo e o ultraje aos extremos. Suas apresentações invariavelmente envolviam auto-flagelação, sexo no palco e isanidades de toda natureza, presenciadas por uma platéia igualmente radical e participativa. O que se pode esperar de um público que sai de casa para ver bandas com nomes tão singelos como AIDS Brigate, Texas Nazis, Drug Whores ou Muder Junkies? GG era fogo... E foi até o fim em sua luta solitária contra o convencionalismo, chocando o pensamento mediando e, até mesmo, pessoas presumivelmente acostumadas a coisas bizarras. "Todo mundo se interessa por coisas sensacionais, mas na verdade ninguém entende. 'GG transou em pleno palco' ou algo do tipo, mas a coisa tem uma profundidade muito maior que isso, estou quebrando tabus e derrubando barreiras. Foda-se a lei, ninguém está te obrigando a vir assistir o meu show". Em meio a sua confusão mental ele tinha uma profunda convicção de sua "verdade filosófica": "Eu estou apenas dizendo, 'faça a porra que você tiver vontade de fazer'. Você não é obrigado a obedecer a ninguém. Esta é a minha maneira, esta é a minha realidade".

"Morreu? Foda-se! Contando que não tenha sido na minha sala, não me importo!"

Steve Albini
GG morreu há quinze anos, nas primeiras horas do dia 28 de junho de 1993. Ele chegou na casa de um parceiro em Nova York no meio da madrugada, pelado, cheio de hematomas e coberto de sangue e excrementos, após ter saído de um de seus shows, onde havia armado uma pancadaria infernal. Ficou por ali e faleceu depois de ter tomado uma dose excessiva de heroína. Allin se considerava o agente catalisador de uma revolução através do caos. "Essa é minha vingança contra esta sociedade de robôs, alguém tem que fazê-lo". O ápice de sua cruzada insana seria o suicídio no palco, que ele havia prometido cometer como uma espécie de sacrifício a sua causa. Mas, como todos sabem, isso nunca chegou a acontecer.

Na época de sua morte, lembro de ter lido algo numa famosa revista brasileira de música pop. O engraçado é que este foi o meu primeiro contato com ele - só soube de sua existência quando ele não mais existia. HA-HA-HA. A tal matéria falava de um roqueiro nojento que comia bosta no palco, enfiava o microfone no cu, saia na porrada com os fãs, entre outras maravilhas... No meu constante interesse por sujeira, tive uma ótima impressão daquilo. Lembro da repulsa e indignação de alguns de meus coleguinhas de escola que diziam: "quem iria querer ver um negócio desse?!". Esse era GG Allin... Admirado por uns, execrado por muitos.

A história é fantástica. Merle Allin (pai de GG) teve uma visão: um anjo havia descido à terra para lhe contar que seu filho que estava prestes a nascer seria o novo Messias. Merle, um fanático religioso, batizou a criança com o nome de Jesus Christ Allin. O futuro "messias" nasceu em 1956, em Lancaster, New Hampshire, nos cafundós dos EUA. Allin dizia que sua infância tinha sido caótica, mas que isso pouco teve a ver com seu modo de ser e de encarar o mundo. "Meu pai era um desgraçado, minha avó também... mas eu não acho que teria feito diferença alguma no que sou, se eu tivesse tido, tipo, uma família normal, talvez eu fosse ainda pior!".

Até os dez anos de idade ele morou em uma cabana, onde não havia eletricidade nem água encanada. Viviam no meio do nada a quilômetros de qualquer resquício de vida inteligente. O clima na casa dos Allin era de constante tensão. O pai de GG ameaçava matar a família a todo momento, chegando a cavar covas para todos no porão da casa. Entre seus inúmeros caprichos, o homem amaldiçoava a esposa, destruía os pertences de que ela mais gostava e chegou até mesmo a tocar fogo em sua própria cama quando ela não quis se deitar com ele. Ela suportava tudo silenciosamente, pois, achava aquilo melhor do que viver com sua própria mãe. Típicos white trash. Para GG, a psicopatia de seu pai era um comportamento absolutamente normal.

Quando chegou a época de ir a escola, a mãe de GG trocou o nome do menino, que passou a ser conhecido como Kevin Michael Allin. É claro que ele não se enquadrou. Na escola era considerado uma aberração, fazia de tudo para chocar: usava roupas de mulher e vivia saindo no pau com seus colegas.

O comportamento anti-social de Allin acabou conduzindo-o à uma escola para alunos especiais. Bem por essa época GG descobriu o rock. Foi quando sua mãe resolveu fugir com ele e as outras crianças para a casa dos avós. Lá, ouviu rock 'n' roll pela primeira vez e descobriu o que queria fazer. Aprendeu a tocar bateria e começou a fazer parte de bandas. Em sua primeira apresentação, num baile do colégio, ele mordeu, arrancou e destruiu a decoração do salão no meio de uma música. Os professores em desespero tentavam impedi-lo, enquanto os outros alunos deliravam.

No segundo grau começou a tocar em diversas bandas com seu irmão Merle Allin Jr. As bandas eram invariavelmente barulhentas, provocativas e... horríveis! Numa delas, fizeram um show onde toda a vizinhança estava presente. Armaram um escarcéu dos infernos, incitando os jovens da comunidade a violência. Em 1977, ano em que ser revoltado e sair nas ruas com alfinetes de segurança na bochecha é que era o canal, GG aderiu ao punk, tocando bateria no Malpractice - banda que chegou a lançar um único single. Nesta época (acreditem), ele casou-se e teve uma filha. Em 1980, abandonou a família, fugindo com uma garota de 13 anos. Foi quando ele se tornou vocalista da banda Jabbers e lançou seu primeiro álbum.
Daí pra frente, Allin descambou de vez para o lado da escatologia e da grosseria generalizadas que fizeram sua fama. Atravessou a década de 80 atuando em inúmeras bandas e projetos, entre elas, a Motor City Bad Boys, que contava com ex-membros do lendário MC5. Foi se tornando cada vez mais radical e alienado, odiando a tudo e a todos. Passava seus dias tomando todo tipo de substâncias e fazia algumas apresentações aqui e ali sempre que algum promotor de coragem agendava algum show para ele. Às vezes arrumava algum subemprego e alugava quartos de hotel podres, sobrevivendo à base de manteiga de amendoim e comida para cachorro. Por volta de 1986 ele era a mais odiada, temida e desprezada figura do underground americano. Jamais fez concessões em sua música - para ele não havia outro modo de se fazer as coisas.
Sua ficha criminal era uma boçalidade de tão extensa: eram prisões por agressão, desordem, atentado ao pudor, assalto, etc. Uma vez quase causou um sério problema diplomático depois de um show no Canadá. As autoridades canadenses queriam extraditá-lo e os EUA não queriam aceitá-lo de volta. "Fiquei preso enquanto a polícia decidia o que fazer comigo". Em 1990 foi preso por agressão com intenção de mutilação. Acusação feita por uma de suas parceiras sexuais, uma estudante de direito chamada Leslie Morgan. Ficou em cana mais ou menos um ano, sendo liberado sob condicional. "Todos neste país deveriam passar um ano no xadrez. Obrigatório. Eles te fazem ir a escola, qual a diferença?".



Em meados de 1991, formou sua última banda, a Muder Junkies. E a aberração voltou a aterrorizar os EUA. Aprontou tantas que acabou voltando pra cadeia por violação de condicional. Desta vez, pegando três anos de detenção. Ao sair do xilindró, voltou a tocar com a Murder Junkies em sua última turnê. Esta excursão foi minuciosamente registrada no impressionante documentário Hated, de Todd Phillips. Um filme indicado apenas para pessoas de estômago forte e espírito aventureiro.



As performances malucas de Allin sempre terminavam em caos e pancadaria. Muitos de seus shows sequer duravam duas músicas! Dee Dee Ramone (ex-baixista e fundador dos Ramones) chegou a entrar para a Muder Junkies como guitarrista, mas não aguentou e se mandou no dia seguinte. Por mais repulsivo e revoltante que seja, a verdade é que GG Allin personificou e levou aos extremos o verdadeiro espírito punk.

Abaixo, trechos de seu manifesto escrito em 1991, enquando esteve preso na penitenciária de Jackson State. Se liguem na pilha do rapaz!

The GG Allin Mission

"Se você acredita no verdadeiro rock 'n' roll underground, então é hora de fazer alguma coisa. A hora é agora de derrubar a situação e declarar guerra às gravadoras, estações de rádio, publicações, bares e qualquer um que promova a chamada 'cena' que existe atualmente. Precisamos destruir tudo e tomar de volta o que está nas mãos de empresários idiotas e conformistas. Mas a ação deve começar agora e sangue poderá ser derramado. (...) Quando nasci em 1956, o rock'n'roll estava começando a existir. Por quê? Porque eu o criei. Eu criei Elvis. Eu fiz tudo acontecer. Mesmo antes de nascer eu já estava comandando. Mas através dos anos as pessoas deixaram a coisa desandar. É por isso que estou pronto para tomar conta de tudo novamente. Ninguém mais teria culhões. Todos me decepcionaram. O dinheiro e o comercialismo fizeram todos se venderem. (...) Mas agora estamos em 1991. Esta é a década para a derradeira mutilação sangrenta. Hora de tirar o rock'n'roll das mãos das massas e devolver às pessoas que não aceitariam conforto e conformidade a nenhum custo. Então eu cometerei suicídio em pleno palco e o sangue do rock'n'roll se tornará o veneno do universo para sempre. Olhe ao redor e veja o que está acontecendo. Gravadoras invertebradas beijando o cu do sistema, pressionadas pela grana da mídia e pelos políticos.



(...) Devemos sabotar as gravadoras não comprando seus produtos. Um boicote. Se quiser um disco, roube-o. Assim não ficarão com o seu dinheiro. Nós precisamos parar de alimentá-los. Seu apoio deve agora convergir para mim - GG Allin, o comandante líder e terrorista do rock'n'roll. Por quê você acha que estou na prisão? Porque eles sabem que eu sou e temem minha verdade. Nossa sociedade quer parar minha missão. Eles querem é fazer uma lavagem cerebral em você e mantê-lo ligado na MTV, em seus estagnados e seguros mundos. É necessário destruir o rock'n'roll. Eu sou o salvador. É por isso que sou considerado uma ameaça à sociedade". Desce o pano...

Diga sim a pirataria!