sábado, 1 de março de 2008

Ah, a boa e velha picaretagem. Ela, que sempre andou de mãos dadas com o rock ‘n’ roll ao longo de toda a sua história, encontrou nos Druggs uma nova forma de manifestação. Se você duvida, se liga só nesse exemplo ímpar de marketing tosco: “Preparem-se, eles vêm aí, e estão bem mais pertos do que vocês imaginam!” É assim mesmo, como uma espécie de ameaça, que esta banda vem sendo anunciada por vias alternativas (leia-se boca a boca feito por seus próprios integrantes). “Temos muito a dizer e muito amor pra dar”, disse a vocalista Carla. Todo o caos e a sensação de perigo iminente em suas insanas e obscuras apresentações tem sido atestada por um pequeno, porém entusiasmado séqüito de admiradores pela Europa, onde eles andaram se aventurando ano passado. “Viajamos pela Europa quase que sem um puto no bolso!”, garantiu Gabriel, o baterista do grupo.

Salomão, o guitarrista, continua. “Viajamos como clandestinos num navio até Portugal em companhia dos ratos que dividiram gentilmente toda sua comida conosco”. (risos) “Atravessamos boa parte do continente de trem com a pouca grana que a gente tinha. Vivíamos fazendo altas tramóias para não sermos barrados na fronteira dos países aonde a gente chegava”, disse Rodolfo, o baixista.

Carla aproveita a deixa. “A gente tocava em squats e em troca nos deixavam dormir por lá e nos davam comida e toda cerveja que a gente pudesse agüentar! Rolava altas orgias, foi uma doideira, fizemos muitos amigos por lá”. Gustavo, que permaneceu quieto todo o tempo, começa a falar. “Na Holanda aconteceu um lance foda! Tocamos num festivalzinho e rolou o maior quebra-quebra, as pessoas estavam enlouquecidas, a polícia saiu baixando o cacete, carros foram incendiados... Isso tudo enquanto tocávamos. Foi a maior zona! E no meio daquele espetáculo todo, saímos de fininho senão ia acabar sobrando pra gente que nem visto tinha!”.

Estórias como estas ilustram bem toda a intenção do grupo e nos mostram que os garotos não estão pra brincadeira! A banda foi formada no final de 2005 em Maceió – Al, um estado com pouquíssima (nenhuma?) tradição em rock ‘n’ roll. A impressão que se tem falando com eles, é a de que parecem ter incumbido para si a missão de redimir a velha reputação do garage rock, um gênero que sempre foi associado desde os anos 60, à espontaneidade, crueza e urgência, e que tem sido sistematicamente diluído e assimilado em grande escala graças à pilhagem cínica e inescrupulosa da indústria. Segundo Rodolfo: “Não queremos agradar ninguém por agradar, fazemos o som que gostaríamos de ouvir!”. “É! Temos um balde cheinho de merda, e estamos prontos pra jogar em vocês!”, ameaça Gustavo.
A coisa toda é bem por aí mesmo. O som é sujo e barulhento. Conceitos obsoletos e antiquados como: melodia, harmonia e ritmo parecem não lhes dizer nada. No entanto, podemos ver algum resquício de tradicionalismo e aproximação com o que chamamos de música, quando percebemos que a banda bebe direto das coisas mais espertas e bacanas que se fez nos últimos quarenta anos. Eles têm um pé no garage rock sessentista dos Sonics e Wailers, no pré-punk dos Stooges, MC5 e New York Dolls, passeiam pelo Psychobilly endiabrado dos Cramps e pelo punk 77 (Dead Boys, The Saints, Damned, etc.), chegando aos anos 80 com, Birthday Party, Gun Club e Pussy Galore.

Ótimas reverências, porém, a banda encontra-se inativa e totalmente desconhecida em sua própria cidade. Quando pergunto sobre isso, o baterista sai com essa: “Bom, nossos amigos e vizinhos conhecem. Tenho uma vizinha de 80 anos que diz que isso é MPB de epiléptico”.

A história deles ainda está sendo escrita. Um misto de bobagem, inconseqüencia e fé num estilo musical há muito desacreditado nesses tempos cínicos que correm. Só nos resta esperar e torcer para que ainda haja espaço para coisas antiquadas como uma banda de rock de verdade!

Nosso correspondente em Leeds pediu para não ser identificado.