quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

WALTER FRANCO: ARTE E MANHA

Por Luís Gustavo
Walter Franco é um artista que não cabe em designações reducionistas. Ainda assim, insistem em rotulá-lo. Quando surgiu no início dos anos 70, estava absolutamente sozinho no que fazia. Walter faz parte de um pequeno grupo de artistas que não abre mão da integridade de sua arte. Ele e outros de sua geração, os chamados “malditos”, partem do mesmo princípio: o de que o artista tem um compromisso apenas com suas idéias em nome de uma estética que aponte para caminhos nunca antes trilhados, anos luz à frente das amarras e das fórmulas prontas de sucesso do viciado sistema da indústria fonográfica. “Eu sempre parti do princípio da necessidade do artista encontrar sua própria linguagem. Todos nós temos que fazer uma coisa única, que ninguém pode fazer pela gente”. Se ao menos um terço dos novos “talentos” da MPB seguisse esse exemplo, poderíamos acreditar que há alguma salvação para essa “moderna” música popular brasileira.

Walter Franco nasceu em 06 de janeiro de 1945, em São Paulo. Filho do radialista, escritor e poeta Cid Franco, ele formou-se pela Escola de Arte Dramática da USP em 1968. Nesse período, final dos anos 60, ele era apenas um jovem ator como muitos outros - interessado nos movimentos de música universitária da época e na poesia concreta dos irmão Campos. Até então, limitava-se basicamente a compor trilhas para montagens teatrais. Foi assim que Walter começou sua carreira como músico, compondo para peças como O Contador de Fazendas e Os Olhos Vazados. Tocava em barzinhos, auditórios universitários e em festinhas de fim de semana. Não demorou muito para começar a inscrever suas canções nos grandes festivais da época. Sua primeira música a participar de um festival foi “Não se queima um sonho”, defendida por Geraldo Vandré.

Mas foi em 1972 que ele conseguiu, de fato, alguma notoriedade, quando uma de suas músicas, a alucinada “Cabeça”, foi classificada no Festival Internacional da Canção da TV Globo. Ele deu o ponto de partida definitivo em sua carreira, bem ali, “chutando o pau da barraca” com uma canção que desafiava todas as normas. Chegou ao palco com um violão, um banquinho e começou a cantar acompanhado por gravações de vozes sobrepostas que repetiam fragmentos da letra.

A canção consistia basicamente numa colagem alucinada de vozes. Um negócio estranhíssimo, totalmente fora dos padrões. As vozes quase incompreensíveis entoavam: “O que é que tem nessa cabeça, irmão/ O que é que tem nessa cabeça ou não/ O que é que tem nessa cabeça saiba irmão/ O que é que tem nessa cabeça saiba ou não/ O que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode irmão/ O que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode ou não/ O que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode explodir irmão/ O que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode explodir ou não”. O Maracanãzinho explodiu numa vaia ensurdecedora. O público definitivamente não estava preparado para aquilo. Ele, no entanto, já esperava a recepção negativa. “Minha reação foi consciente, baseada no princípio da não violência. O público é uma criança, sabe? Uma criança com um potencial incrível”.

O júri, formado por Rogério Duprat, Décio Pignatari, Roberto Freire e Nara Leão, pretendia dar o primeiro lugar para a canção. Eles ficaram impressionados com a proposta estética avançada. A Globo, organizadora do festival, não gostou da decisão e resolveu destituir todo o júri e deu como vencedora a cantora Maria Alcinda que interpretou uma música de Jorge Ben. No último dia do festival, Roberto Freire muito puto, subiu ao palco e resolveu “botar a boca no trombone” denunciando toda a armação ao vivo em frente às câmeras da Globo. Foi contido pelos seguranças, mas conseguiu denunciar a farsa. Sobre o episódio, Franco lembrou certa vez numa entrevista: “A gente vivia em pleno regime militar, estávamos acostumados a posições arbitrárias, como a tomada pela Globo, que decidiu mandar embora o júri e escolher por conta própria a canção que agradou o público”. Rogério Duprat também fez seus comentários: “Tinha gente arejada no júri. A Nara Leão era a presidente, estávamos eu e o Décio Pignatari, mas a Globo queria alguém para competir com aqueles europeus bunda moles”.

Toda essa controvérsia e os elogios da crítica serviram ao menos para que a Continental o contratasse. No ano seguinte, sairia o disco Ou não. O álbum trazia na capa apenas uma mosca perdida num fundo branco. Nele, a ousadia e o experimentalismo eram levados às últimas conseqüências. Walter definitivamente não facilitava as coisas. A faixa de abertura, “Mixturação”, me perdoem o clichê, é um verdadeiro “petardo” (“Eu quero que esse teto caia/ eu quero que esse afeto saia”). Havia uma nova versão de “Cabeça”, e uma canção chamada “Me Deixe Mudo”, com uma letra genial. Essa, por sinal, foi regravada algum tempo depois por Chico Buarque em seu disco “Sinal Fechado”.

É claro que o público não entendeu nada. O álbum, lançado em 1973, foi recordista em devoluções das lojas. Nessa época, ele já era taxado de “maldito”, expressão muito em voga na década de 70, que servia para rotular artistas não muito afeitos a convencionalismos e, que consequentemente, não gozavam de grande sucesso popular. Esse rótulo de maldito sempre o incomodou. “Nos anos 70 fazia sentido, havia até um certo interesse dos meios de comunicação. Mas, o rótulo é uma bobagem, o artista é muito maior que isso. Virou um clichezinho. É como se aquela geração que surgiu comigo ainda não tivesse sido anistiada, depois de todos estes anos. Quando apareci, fui chamado de vanguarda, comparado a Chico Buarque, Caetano Veloso e Hermeto Paschoal. Depois, apareceu isso de maldito. Parece que todo mundo que foge dos padrões acaba estabelecendo um mal-estar... Não há pessoa de bom senso que ache bom ser chamado de maldito. Maldito foi Baudelaire!”.

Com seu show “A sagrada desordem do espírito”, de 1974, Walter apresentava-se no palco apenas com seu violão e acompanhado pelo técnico de som Peninha Schmidt, que comandava a mesa de mixagem que era usada como um instrumento. À medida que ele cantava, Peninha ia gravando e criando efeitos diversos ao soltar reverberações e ecos.

Em 1975, no Festival Abertura, ele se apresentou com a música “Muito Tudo”. O público vaiou como de costume, mesmo assim, a canção obteve reconhecimento da crítica e recebeu do júri um terceiro lugar. A vaia foi tão intensa que era praticamente impossível tocar. Então, Walter, acompanhado pelo flautista Tony Osanah e pelo maestro Júlio Medaglia, simplesmente sentaram-se no palco e começaram um jogo de dados imaginários, enquanto o público vaiava incessantemente. Ao fim da apresentação, Medaglia rasgou a partitura e jogou na platéia.

Ainda em 75, ele grava seu segundo álbum, Revolver. Na capa, uma foto feita pelo fotógrafo Mario Luiz Thompson, onde Walter aparece de terno branco, cabelo comprido e sem barba, atravessando uma rua. Uma clara referência a Lennon na capa de “Abbey Road” dos Beatles. Musicalmente, o disco ainda hoje impressiona. Há curiosos efeitos de estúdio assinados por Peninha Schmidt e canções fortes como a faixa de abertura “Feito Gente” (“feito lixo/que se queima/eu te amei/como pude”). Havia ali, uma ponte que ligava a música popular brasileira ao que rolava de mais esperto na cena internacional da época. Segundo a opinião do músico e escritor Lívio Tragtenberg: “Um disco extremamente moderno até hoje. Cada canção tem uma moldura própria, Walter não se prende a nenhum estilo de arranjo, está sempre buscando uma sonoridade diferente”.

Respire Fundo, seu terceiro LP, foi lançado em 1978. Um disco mais convencional, se comparado aos anteriores. Foi gravado em oito meses, com mais de duzentos músicos, entre eles: Sérgio Dias, Sivuca, Arnaldo Baptista e João Donato, que havia voltado dos Estados Unidos nesta época. Os arranjos do disco são assinados por Wagner Tiso e Paulo Machado. Nos shows, Walter - que na época residia no Rio - era acompanhado pelo grupo carioca O Terço.

Em 1979, Walter apresentou no Festival da Tupi, a canção “Canalha”, causando catarse coletiva ao gritar primalmente a letra da canção (“É uma dor canalha/que te dilacera/é o grito que se espalha...”). Causou polêmica mais uma vez, dividindo opiniões do público mas saiu muito aplaudido. A música está no seu quarto disco, Vela Aberta, lançado no ano seguinte.

No Festival MPB Shell, organizado pela Rede Globo em 1981, Walter participou com a canção “Serra do Luar”. Quem levou a melhor desta vez foi a Cantora Lucinha Lins, que defendeu a música “Purpurina”, de autoria do compositor gaúcho Jerônimo Jardim.

Em 1982, gravou seu quinto álbum chamado simplesmente Walter Franco. Um disco que saiu pela minúscula gravadora Lança Discos, com péssima distribuição e cujo resultado final ficou aquém do alto padrão de suas composições. O próprio Walter não gosta do material, alegando que não teve liberdade para trabalhar da forma como pretendia nos arranjos e na mixagem. No decorrer da década de 80, continuou a compor e a fazer shows freqüentemente, porém, amargando um período de ostracismo terrível. Walter ficou (desde o álbum homônimo de 1982) 19 anos sem gravar um disco. Mas sobre isso ele falou: “Ficar falando agora em 19 anos parado no estaleiro é absurdo. Quem me acompanha pode ver que não foi assim. O público que se orienta pela grande mídia é que pode achar que eu sumi. Mas eu estive este tempo todo compondo e tocando. O afastamento foi apenas do mundo do disco, porque eu nunca fui de bater em porta de gravadora. Elas têm mania de querer mandar no artista. Isso de ficar esse tempo todo sem lançar um álbum novo não prejudicou meu trabalho. Tenho consciência de que minha obra é de longo prazo”.

O “silêncio” de quase duas décadas longe da mídia só foi quebrado em 2000, com o documentário “Walter Franco Muito Tudo”, seguido pela gravação de um novo disco chamado Tutano, lançado em 2001. Antes disso, Walter já havia ensaiado sua volta à mídia ao inscrever uma de suas novas composições, a canção “Zen” (parceria com Maria Cristina Villaboim), no Festival de Música Brasileira da TV Globo. A música não chegou a se classificar nem para a final do tal evento.

Tutano, o seu último disco, foi produzido por Alex Antunes e Constan Papiniano, reúne material inédito e algumas releituras. Em Tutano, Walter e os produtores do álbum tiveram todo o cuidado com os arranjos, escolhendo minuciosamente os timbres e efeitos de estúdio. “Eu definiria este disco como uma espécie de prosseguir viagem. Busquei coerência com os trabalhos anteriores e consciente que cada trabalho deva ser analisado de acordo com o momento histórico, político e existencial em que foi realizado”. Walter contou com a participação de artistas como Arnaldo Antunes, o saxofonista Lívio Tragtenberg e artistas ligados à música eletrônica, como Anvil FX e Apollo 9.

O curta Walter Franco Muito Tudo, é um conciso (são apenas 25 minutos de filme), fluente e muito bem acabado documentário que narra de forma bastante original toda a sua trajetória, através de depoimentos de pessoas de expressiva importância em sua carreira. A concepção do filme foi inspirada na música “Cabeça”. “Um documentário sobre Walter Franco tinha de ser diferente, como sua obra”, disse Bel Bechara, uma das realizadoras do curta.

Walter Franco Muito Tudo foi todo filmado em 16 milímetros por dois jovens cineastas mineiros que já trabalhavam juntos há algum tempo na produção de curtas em Belo Horizonte: Bel Bechara e Sandro Serpa. Os dois tiveram a idéia de produzir um filme sobre Walter Franco após assistirem a um show do músico em Belo Horizonte. Ambos assinaram a direção, produção, roteiro, som e fotografia do filme. “A gente procurou desvencilhar a figura de Walter dos festivais, das canções antigas e mostrar que ele está no auge de sua criatividade”.

Realmente isso é fato. Walter Franco continua criando e surpreendendo como sempre. E permanece também como sempre à margem da grande mídia, compondo e tocando com sua “Banda abstrata” (como ele define seu formato voz e violão no palco) pelo circuito alternativo para um público diferenciado, cativo e fiel. E ao que parece, vamos ter que passar mais um bom tempo para ouvirmos um novo trabalho seu em estúdio.

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