segunda-feira, 26 de outubro de 2009

WEEN: THE CRUCIAL SEQUEEGIE LIP (Bird O’ Pray Records)

The Crucial Sequeeguie Lip é um registro em fita K7 com as primeiras gravações do grupo norte americano Ween. Na época, seus fundadores Gene Ween e Dean Ween, tinham apenas 16 anos, e as canções do duo aqui apresentadas parecem mesmo uma brincadeira de adolescentes dessas que se faz numa tarde tediosa. Também é fato que a dupla construiu toda a sua carreira em cima de idéias despirocadas e músicas que para muitos não faz o menor sentido. Mas é difícil não gostar de uma banda que tem a coragem de cantar coisas como "Talk To Me About Erica Glabb", "Murphy Flattens His Frustrations" e "I Drink A Lot".

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

URINALS: NEGATIVE CAPABILITY... CHECK IT OUT! (Amphetamine Reptile)

No rock, incompetência e estupidez contam como qualidades. Alguns, inclusive, conseguiram involuntariamente ser vanguarda e detonar revoluções a partir de sua limitações - vide os Ramones. The Urinals é um exemplo de como músicos precário podem gerar obras de pura genialidade. Estas gravações - realizadas entre 1978 e 1979 - nos mostram uma banda lo-fi, com um inusitado senso de humor, executando canções minimalistas que parecem terem sido compostas dez minutos antes de serem gravadas e tocadas por pessoas que aparentemente foram apresentados aos seus instrumentos um dia antes de registrá-las. Veja porquê bandas como Minutemen, Yo La Tengo e muitos outros os idolatram e aprenda a amá-los também.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

THE NEW STRYCHNINES: THE NEW ORIGINAL SONIC SOUND (2004)

Atitude, arrogância, performances explosivas, gritos primais, barulho, distorção. Não, eu não estou falando de Iggy Pop ou de qualquer outro ícone associado ao punk. Todos esses atributos já eram características dos Sonics em 1964. Sim, os Sonics talvez sejam a mais influente e emblemática banda de garagem de todos os tempos. Para prestar tributo a eles, alguns de seus admiradores resolveram formar um "super grupo" para um evento que aconteceu em Seattle, em 2000, o Seattle Experience Music Project; festival organizado para homenagear as lendárias bandas de garagem da região. Pois bem, The New Stychnine nada mais é do que um grupo formado por Mark Arm e Steve Turner (ambos do Mudhoney, Monkeywrench e The Throwns Ups, nos vocais e baixo, respectivamente), Dan Perters (também do Mudhoney, na bateria), os guitarristas Tom Price (U-Men, Monkeywrench e Gas Huffer) e Big Kahuna (do Girl Trouble), e Scott McCaughey (dos Young Fresh Fellows e The Minus Five, nos teclados). Com o sucesso dessa apresentação, os músicos passaram a tocar eventualmente e, em 2004, gravaram este sensacional álbum de covers dos Sonics.
No encarte do CD, line notes escritas por gente de respeito como Roy Loney (Flamin' Groovies), Billy Chiddish, Deniz Tek (Radio Birdman), Andy Shernoff (The Dictators) entre outros. Todos depondo a respeito da influência que os Sonics exerceram em suas vidas e o quão o grupo foi importante para história do rock.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

THE GERMS: THE COMPLETE ANTHOLOGY

The Germs é o tipo de banda da qual as pessoas mais ouviram falar do que de fato escutaram. Em 1977, quando eles despontaram no circuito underground angeleno como sensação da emergente cena punk californiana, muitos os consideravam uma verdadeira revolução. O grupo, no entanto, teve vida curta. Na noite de 6 de dezembro de 1980, o corpo do carismático vocalista Darby Crash foi encontrado. Crash resolveu deliberadamente acabar com tudo, suicidando-se com uma dose excessiva de heroína. Como sempre acontece no rock, em casos de estupidez abisais como a cometida pelo menino Darby, a banda virou lenda e ele um mito. No final das contas, o que realmente importa é a música e, nesse quesito, esta antologia até que cumpre bem o papel de dar uma geral na obra de um dos ícones do underground americano dos anos 70.

domingo, 20 de setembro de 2009

SUBURBIA: ORIGINAL MOTION PICTURE SOUNDTRACK (1997)

Trilha sonora bacaninha de um filme pé-no-saco. Suburbia tem faixas inéditas do Sonic Youth, Thurston Moore costurando pra fora com "Psychic Heart", Stephen Malkmus com as meninas do Elastica coverizando o X, o Boss Hog aniquilando com "I'm Not Like Everybody Else", mais velharias dos Butthole Surfers, Flaming Lips e alguns sons pro pessoalzinho "muderno" não sair reclamando. Tem pra todo mundo!

Link: Suburbia Original Motion Picture Soundtrack

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

SIMPLY SAUCER: CYBORGS REVISITED (1974)

O álbum Cyborgs Revisited, do grupo pré-punk canadense Simply Saucer, é um documento precioso da história do rock. Da mesma linhagem de monolitos como o Rocket From The Tombs, os Saucers chamam a atenção pela singularidade de seus arranjos, fundindo com incrível naturalidade influências que vão de Stooges e Velvet Underground ao krautrock de grupos como o Can e a nata do underground inglês do início dos anos 70, representado por nomes como Hawkwind e The Pink Fairies. Temas como "Electro Rock" e "Nazi Apocalypse" merecem lugar no hall dos grandes clássicos do rock. Imperdível.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

UNSANE: SCATTERED, SMOTHERED & COVERED (Amphetamine Reptile)

Este power trio casca-grossa de New York City definitivamente não faz música para os jovens amantes. O som dos caras fica entre o noise do pessoal da cena pig fucker nova-iorquina, o hardcore e o metal. Nivelando a coisa por baixo, dá pra dizer que eles guardam certa similaridade a contemporâneos que deram certo, como o Helmet. A diferença é que o Unsane é bem mais áspero, puto, e, portanto, menos palatável ao gosto médio da garotada consumidora do rock alternativo que invadia as MTV's da vida no início dos anos 90.A primeira coisa deles que ouvi foi "Bath", faixa de abertura do primeiro álbum da rapaziada, gravado ainda no final dos anos 80 (a banda começou em 1988), e lançado somente em 1991. Um disco que me impressionou muito, mas, se for para eleger um álbum dos caras como o mais representativo, este será sem dúvida, a usina de ódio: Scattered, Smothered & Covered. Não há necessidade para grandes elucubrações... Ouçam! É a trilha sonora perfeita para quem anda abraçado ao rancor.



Link: Unsane - Scattered, Smothered & Covered (1995)

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

HARRY CREWS: NAKED IN GARDEN HILLS

Harry Crew foi um escritor beat daquela turma do Greenwich Village (NYC). Nunca li, mas sei que seu nome serviu para batizar este projeto paralelo da menina Kim Gordon (baixista do Sonic Youth) com a cantora e guitarrista Lydia Lunch. Isso nos idos de 1988, época do superestimadíssimo Daydream Nation. Harry Crews é barulheira das brabas ao estilo do velho Teenage Jesus and The Jerks e este álbum é uma compilação de registros de shows que elas fizeram pelo Reino Unido entre 1988 e 1989. Se você, meu jovem, é chegado àquelas bandas da cena no wave e tem saudades do velho Sonic Youth, este disco aqui talvez resolva o seu problema!

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

CHROME CRANKS RECORDED LIVE AT FLETCHER'S, BALTIMORE, MD (1997)

O Chrome Cranks começou como uma despretensiosa brincadeira do cantor e guitarrista Peter Aaron e seu amigo e também guitarrista Willian G. Weber. Surgidos na cidade de Cincinnati, Ohio, em meados de 1988, o grupo fez sua estréia abrindo shows para o Pussy Galore, gravou umas coisinhas aqui e ali e deu uma parada por volta de 1991, quando Weber foi pra Nova York e juntou-se a GG Allin e seus Muder Junkies. A Banda retomaria suas atividades por volta de 1992, tendo como base de atuação a cidade de Nova York, ensaiando e gravando grande parte de seu material na Fun House, estúdio do novo baixista do grupo: o ex-Honeymoon Killers, Jerry Teel. Após sucessivas trocas de integrantes e alguns singles e EPs, editados por diversos selos independentes, o Chrome Cranks passou a ter uma formação mais estável a partir do ano de 1994, com a admissão do baterista Bob Bert (ex-Sonic Youth e Pussy Galore). Este post é o registro de um show do grupo em Baltimore, realizado em junho de 1997. Para uma gravação ao vivo num clube underground, a qualidade do áudio está ótima e dá uma boa idéia do estrago que eles são capazes.


quinta-feira, 20 de agosto de 2009

SONGS THE CRAMPS TAUGHT US

Como profundos conhecedores do universo pop/trash e obsessivos colecionadores de discos e filmes obscuros, os Cramps sempre foram pródigos em utilizar seu vasto repertório de referências na criação de suas divertidas composições. Songs The Cramps Taught Us nos mostra boa parte das coisas que eles ouviram, dando pistas de como funciona o processo criativo do grupo. O disco compila gravações originais de artistas das décadas de 50 e 60, que os Cramps usaram como base para compor seu material próprio ou mesmo fazer regravações. Hasil Adkins, Jack Scott, Link Wray, The Sonics, Andre Williams, The Trashmen e muitos outros. É um mundo de surpresas!

Links:
Songs The Cramps Taught Us Vol. 1
Songs The Cramps Taught Us Vol. 2
Songs The Cramps Taught Us Vol. 3

THE HONEYMOON KILLERS: LOVE AMERICAN STYLE (1985)

Sim, brothers and sisters, mais uma tijolada dos Honeymoon Killers! Este álbum, assim como os outros dois que postei aqui no Polimorfismo Perverso há algum tempo, só podem ser encontrados (e com certa dificuldade) em vinil! Ou seja, são autênticas relíquias! Love American Style é o segundo disco dos nova-iorquinos, e como já falei sobre a banda em posts anteriores, seria terrivelmente redundante fazê-lo novamente. Ouçam esse disquinho e tenham pesadelos a noite inteirinha.

Link: Honeymoon Killers - Love American Style (1985)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

FREE KITTEN: INHERIT (2008)

Onze anos separam este Inherit de Sentimental Education (1997), o último lançamento do Free Kitten - projeto paralelo de Kim Gordon do Sonic Youth com a menina Julie Carfritz do Pussy Galore. Em Inherit, Kim e Julie resgatam velhas influências, acenando para os Stooges e para no wave, com uma ajudinha da baterista Yoshimi P-We das Boredoms e do taciturno J Mascis do Dinosaur Jr., que tocou em duas das onze faixas do álbum: "Surf's Up" e "Bananas". Very fucking cool! Link: Free Kitten - Inherit (2008)

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

FRAGMENTOS DA PUNKITUDE SOLAR

Pepe Escobar [1983]
Qual quer que seja o pesadelo que tenhamos, nele sempre representamos um papel, sempre somos protagonistas, somos alguém. Durante a noite o deserdado triunfa. Se os maus sonhos fossem suprimidos, haveria revoluções em série. A ira insolente e depravada do urro de guerra punk foi um verdadeiro pesadelo revolucionário. Na música popular, encaixou-se – como não poderia deixar de ser – no habitual ciclo de destruição, reconstrução e cristalização. Punk demoliu a barroca podridão em que o rock, indolente, onanista, autocomplacente, exercia seu flerte com luxo e riqueza. Punk foi um fulminante agente temporário. Missão secreta, tarefa limitada: purificar pelo fogo do barulho indiscriminado. Cumpriu sua missão. A partir daí, não poderia permanecer como música – pois não era música nem se arrastar agonizante para a tumba da inutilidade, sob a gélida lápide da indiferença. Mas isso é apenas coisa de Londres, Amsterdam, Berlin e Nova York, centros apodrecidos do pré-apocalipse? Nem tanto. Em Sampa, na remota América do Sul, os garotos de subúrbio estavam muito atentos. Em plena adolescência, quando diariamente o coração é dilacerado por um machado de cristal, qualquer um pode ser punk. A new wave – este regresso à infância da música pop – é coisa de rico, ou pelo menos remediado. Nos anos 60, tudo era límpido, franco: a música não tinha nada de contaminado. A esta fantasia arcádica, a new wave incorporou o libreto da ópera-bufa punk: noções precisas de justiça social, messianismo militante e esclarecedor, e desrespeito por resquícios da Antigüidade. Mas cuidado: os garotos de subúrbio de Sulamérica estavam falando sério: estavam se transformado em punks no rito e no grito.

Sem flash, estrondo ou ruído – para o mundo lá fora – em novembro de 81, no Stop, clube da zona leste de SP, acontece o primeiro festival punk da cidade, com Cólera, Olho Seco, Lixomania e Inocentes. Para se livrar de crise, desemprego, discriminação e angst urbana, o garoto de subúrbio não tinha cristais, anfetaminas ou pérolas: agora, uma gang em formação e gritos acumulados sobre guitarras distorcidas o levavam à obscuridade e embriaguez de antes do desencadeamento da luz. Finalmente encontrava um êxtase ininterrupto no cerne da opacidade original. Punk tropical: uma experiência interior. Vestidos de negro, cool, assexuados, esguios, os garotos começaram a invadir as galerias do Centrão, escavando rizomas nos corredores dos escritórios, perturbando a atonia dos pedestres descarnados, jogando sua nova identidade na cara da cidade com um cuspe gelado. Negras purulências no tecido urbano, discreta e silenciosa sabotagem de um estado geral de perplexidade, catatonia e conformismo. Tinham seu bunker: o Templo, clube da zona leste. Tinham sua trincheira: a Punk Rock Discos, 1º andar das Grandes e Podres Galerias da Avenida São João. Tinham suas armas: Xerox anunciando os shows na periferia e no ABC, fanzines cuidadosamente manufaturados em seu caos gráfico, a filosofia a marteladas dos discos da primeira fase punk – Sex Pistols, Damned, Subway Sect, Slits, Killjoy, Drones, Rich Kids, X-Ray Spex, além dos mais refinados como Dead Kennedys, Alternative TV (punk fascistóide do movimento "oi"), com Exploited, Cockney Rejects, InfraRiot, heavy metal absolutamente analfabeto. Tentavam de toda formar recuperar o irrecuperável. Pois o apuncalhamento tropical corria alguns anos depois do surgimento nas matrizes, onde já se cultivavam outras coisas: Inputs étinicos, sax e sintetizadores, rap contando a barra pesada da selva, revival do soul, new pop, o pop reggae nas trancinhas louras, o culto do corpo – belo e saudável - , um vídeo em cada casa, todos os tipos de "disc" em um computador em casa mão. De igual, só a depressão – financeira e emocional. Aqui era mesmo a terra prometida dos últimos dos moicanos. Anarquia, cataclismo, que belo fim para o iluminismo. Vix-Punk, SP Punk – os fanzines – celebram a Anarquia, indicam leituras, solidarizam-se com palestinos e irlandeses, trocam correspondência, e com o passar do tempo parodiam cada vez mais a campanha eleitoral de 82. A outra imprensa, a grande, acorda de seu sonho automatizado: jornalistas teleguiados por suas respectivas Igrejas estigmatizam essa nova marginalia; a TV descobre que esses filhos da arte povera compõem um sensacional e rentável mondo cane. Na zona sul, criptopunks entediados, em busca frenética do apocalipse chic, desembarcam de seu Mercedes para dançar ao som de Clash – que só foi punk até 77 – no Galery.
Agosto de 82: choque cultural. Os Inocentes vão tocar no mesmo Galery para uma platéia criptochic e quinze ou vinte punks autênticos. Um dos cretinos de plantão sorri debochado para Callegari, o guitarrista do grupo. Ele lhe devolve uma cuspida. Pânico na zona do sul. Punk passa das páginas de "cultura" para a seção de polícia. O Carbono 14 – ambíguo lar de todos os remanescentes e todas as vanguardas – faz uma semana punk. Mas é no Sesc-Pompéia que os noviços rebeldes debutam em estilo no grande baile podre da Sampa pós-moderna/pós-retrógrada.Até aí – para a população – os punks eram algumas bandas dispersas, algumas "exóticas" figuras trajadas de negro, dois discos lançados – Grito Suburbano, com várias bandas, e o compacto do Lixomania – e uma irrecuperável postura selvagem. O festival Começo do Fim do Mundo os exibiu como macaquinhos de estimação para os "oba-obas" estilo Sesc e os aspirantes à vanguarda. Ninguém entendeu nada. Lá estava toda a punkitude: skinheads comendo pipoca e distribuindo um soco ou outro; Antônio Bivar lançando seu livro O que é Punk para orientar os eternamente desorientados; o clássico Punk Rock Movie, com Pistols, Clash e Siouxsie em vídeo; Garotos de Subúrbio – a elegante meditação do Olhar Eletrônico sobre o universo punk, gritos de "Abaixo os hippies"; e, naturalmente, as bandas, comportando-se como raids kamikaze em alguma rádio-pirata e ondulando o mar negro em frente ao palco: Negligentes, Hino Mortal, Desertores, Juíso Final, M-19, Neuróticos, Doze Brutal, Extermínio, Ulster, Psykoze, Estado de Coma, Lixomania, Olho Seco, Inocentes, Cólera, Fogo Cruzado, Ratos de Porão, Skisitas, Decadência Social. Seus nomes contam sua história e a de sua época. Mas aquela platéia ainda estava em Woodstock.Depois disso – recuperados, expostos, qualificados e descartados – os punks paulistas foram deixados em paz. Incomodam demais a boa consciência para virarem motivo de polêmica entre a letárgica intelectuália nativa. Foi lançado o disco do Fim do Mundo – com intervenções de todas as bandas e produção e audição anfetamínicas. Saiu também Sub, em vinil vermelho, com várias bandas, e Miséria e Fome, compacto dos Inocentes. Nele, a mensagem básica: "De tudo o que vivi/ de tudo que eu vi/ só uma coisa aprendi/ aprendi a odiar". Em março de 83 os punks vão para o Rio e incendeiam o Circo Voador: duas mil pessoas, entre Hell’s Angels tropicais, hippies de bata branca, intelectuais desenganados, prostitutas bêbadas e surfistas entram em transe. O Globo registra o saudável tumulto em uma página.



Como no punk do primeiro mundo, o punk da terra da inflação de 12% ao mês revela como o establishment controla a tresloucada energia libidinal da juventude rebelde. Acabaram os James Dean, assim como os gritos de guerra do primeiro momento punk: "No More Heroes" (Stranglers), "White Riot" (Clash), "Anarchy" (Sex Pistols). Mas a recuperação não foi tão longe quanto poderia. Punk tropical nem mesmo virou fashion, porque é autêntico demais, agressivo demais, revelador de uma profunda solidão demais. Em uma de suas músicas, dizem: "Os punks também amam". Sim, e como, quando todos indulgem no sexo fácil ou nos cristais gélidos para afogar sua solidão. No subúrbio paulistano, forjou-se uma antipolítica capaz de pelo menos combater o microfascismo cotidiano: os punks do subúrbio paulista são o retorno do reprimido por uma "cultura" de compromisso, hipocrisia desmedida e idiotas abissais. Os punks negam até a morte. Mas não há negador que não esteja sedento de um catastrófico sim.


Discografia selecionada

Grito Suburbano (Olho Seco, Inocentes, Cólera - 1982)
O Começo do Fim do Mundo (Sesc Pompéia - 1982)
SUB (R.D.P., Cólera, Psykóze, Fogo Cruzado - 1983)
Olho Seco - Botas, Fuzis e Capacetes (1983)
Inocentes - Miséria e Fome (1983)
Ratos de Porão - Crucificados Pelo Sistema (1984)
Ataque Sonoro (R.D.P., Lobotomia, Armagedon - 1985)
Psychic Possessor - Nós Somos A América Do Sul (1985)
Lobotomia - Lobotomia (1987)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

THE DEL-VETTS: LAST TIME AROUND EP

Em maio de 1966, um grupelho norte-americano da cidade de Chicago, no estado de Illinois, chegou detonando com uma das mais impactantes punk songs dos sixities, o hit single "Last Time Around". Na seqüência, o quarteto apareceu com mais um registro, este EP cujo sensacional rave-up nos arranjos de fuzz-guitar e melodias pop nitidamente inspiradas na invasão britânica, não deixa dúvidas quanto a influência que os Del-Vetts exerceram sobre o punk rock e a new wave nova-iorquina da década seguinte.

Link: The Del-Vett - Last Time Around EP (1966)

THE ROB TYNER BAND: DO IT (1975)

Muito bem, dando seqüência aos posts de roque pauleira, aqui vai mais um que certamente fará a alegria da meninada ávida por preciosidades ligadas aos (sempre presentes neste blog) Stooges e MC5. Sim, eu reconheço isso! Do It, é um registro ao vivo da Rob Tyner Band, grupo que começou como uma idéia estapafúrdia de Tyner de reformular o MC5 com novos integrantes. Descontando este despautério inicial, o menino Rob dá uma verdadeira aula do que é feito o melhor rock 'n' roll!

O New Order foi uma tentativa de banda do menino Ron Asheton, quando os Stooges caíram pelas tabelas por volta de 1974. Se não é nada de tão brilhante (eu particularmente prefiro outro projeto dele bem mais ousado, o Destroy All Monsters), também não é algo que se despreze. O New Order é pura e simplesmente uma banda de hard rock. Um rock potente, com uma formação interessante - conta com o ex-MC5 Dennis Thompson, Scott Thurston (tecladista dos Stooges em sua fase final e chapa de Iggy em várias ocasiões) e Jimi Recca (que também teve uma passagem rápida pelos Stooges) -, mas, a meu ver, tudo excessivamente corretinho demais. Vale pelo registro histórico... Ouçam!

Link: New Order - Declaration of War (1975)

domingo, 2 de agosto de 2009

WAYNE KRAMER WITH DODGE MAIN

Desde os tempos do MC5, Brother Wayne Kramer é associado ao que há de mais ousado, hiperativo e perturbador no cenário musical. Neste projeto, ele divide os créditos com outros ícones do barulho - Scott Morgan (Ex-The Rationals e Sonic's Rendezvous Band) e Deniz Tek (do grupo punk australiano Radio Birdman) - para prestar um tributo à cena rock de Detroit e a companheiros já falecidos: Rob Tyner, Fred "Sonic" Smith e Dave Alexander (baixista dos Stooges). No cardápio, clássicos do MC5, dos Stooges, da Sonic's Rendezvous Band, do Radio Birdman, algumas inéditas da rapaziada e uma esperta versão para um reggae de Jimmy Ciff (!).

Link: Dodge Main - Dodge Main (Alive Records)

terça-feira, 28 de julho de 2009

BLUE CHEER: LOUDER THAN GOD!

Por Luís Gustavo
O conceito de power trio surgiu ainda nos anos 60, em plena efervescência da era psicodélica. Este tipo de formação ficou conhecida por explorar ao máximo as possibilidades tecnológicas da época, em experimentações com distorção e microfonia, conduzidas com intensidade e selvageria em altíssimos decibéis que chegavam mesmo a beirar o limite do suportável. Os mais famosos power trios dos anos 60 foram o Cream e o The Jimi Hendrix Experience. Nenhum deles, é claro, foi tão barulhento, selvagem e radical quanto o lendário trio californiano Blue Cheer.

Numa época onde ainda cabia a tola discussão guitarra vs violão, este ensandecido trio de adeptos da pauleira valvulada, elevou o conceito de power trio a patamares inimagináveis de brutalidade sônica, através de vocais ultra-agressivos, amplificação saturada e muita distorção e microfonia nos instrumentos. Isso tudo sem contar a indefectível postura de fodões do mal que Dickie Peterson e sua turma cultivam até hoje no alto de seus mais de sessenta anos. Precursores do crossover punk metal, que fez a fama de bandas da pesada como o Motörhead, o Blue Cheer também tem como grande mérito, o fato de terem desbravado caminhos para outros grupos igualmente radicais da época como The Stooges e MC5, influenciando gerações.

"Tenho muito orgulho de liderar uma das bandas que ajudou o heavy metal a se tornar realidade. No entanto, somos referência para grupos punks e talvez tenhamos sido igualmente influentes para o grunge e vários outros estilos. Nos anos sessenta, essas coisas não existiam. Éramos um power trio e só. Nem existia uma definição ou rótulo para metal na época. A música do Blue Cheer é barulhenta, honesta, crua, direta, e por isso influenciamos tantos estilos mais pesados."

Dickie Peterson

Formado originalmente como um sexteto, por músicos egressos de bandas como Group B e Oxford Circle - em meados de 1966, na mesma San Francisco psicodélica do Grateful Dead e do Jerfferson Airplane -, o Blue Cheer logo perdeu metade de seus integrantes, que não suportaram o peso da primeira turnê. Assim, no início de 1967 o grupo decidiu seguir como um trio: Dickie Peterson (vocais e baixo), Leigh Stevens (guitarra) e Paul Whaley (bateria). A chamada formação clássica do grupo, que gerou seus melhores trabalhos e estabeleu todo o estilo pelo qual eles são conhecidos e cultuados até hoje.

Segundo os anais, a inspiração para o nome Blue Cheer teria vindo de um poderoso tipo de LSD que circulava naquela época, desenvolvido por um químico chamado Owsley Stanley - um doido que acabou se tornando uma espécie de guru dos rapazes. Stanley fazia parte daquela turma que andava com o pessoal do Grateful Dead e mantinha ligações com os Hell's Angels. Daí, o grupo também passou a ter estreitas relações com esta violenta gangue de motoqueiros, que comparecia em peso as não menos violentas apresentações do trio.

O Blue Cheer passou então a contar com o apoio de um dos fundadores dos Hell's Angels, um sujeito conhecido como "Gut", tatuador e artista plástico que, entre outras coisas, foi o responsável pela arte gráfica da banda nos primórdios. Gut tinha uma garota chamada Nancy Winarick, que foi a pessoa que bancou o primeiro registro do grupo, uma demo tape com três canções. A tal fita acabou caindo nas mãos do menino Abe "Voco" Kesh, um DJ de San Francisco que se prontificou a empresaria o grupo e rapidamente conseguiu um contrato de gravação com a Mercury Records.

Em janeiro de 1968, chega às lojas o hecatômbico álbum de estréia, Vincebus Eruptum, que fez um relativo sucesso na época. O disco, uma espécie de jam-session barulhenta e atonal, era a coisa mais brutal gravada até então. Na esteira do lançamento deste primeiro álbum, o Blue Cheer seguiu numa orgia de apresentações cada vez mais selvagens e violentas, onde não raro, as performances dos caras acabavam em quebradeiras generalizadas.As pessoas geralmente saiam espantadas! O som mega-amplificado das guitarras fazia a audiência recuar fisicamente devido a incrível rajada de barulho, o baixo pesado e ultra-distorcido, induzia abalos sísmicos, e eles tinham ainda aquele baterista monstruoso, que fazia Keith Moon parecer um maricas tocando. Pete Townshend, líder do Who, chegou até mesmo confessar ter ficado assustado com a fúria e intensidade do Blue Cheer, quando o trio abriu um show do Who em fevereiro de 68. Ron Asheton, guitarrista dos Stooges, é outro que saiu impressionado: "A gente tinha aberto pro Blue Cheer no Grande Ballroom (em Detroit), e eles tinham uma espécie de amplificadores Marshall triplo e eram tão barulhentos que chegava a doer, mas nós adoramos: 'UAU, amplificadores triplos, cara.'" Para reiterar toda essa sanha, os garotos gravam no mesmo ano o segundo álbum, Outsideinside. O disco é uma perfeita continuação dos esporros registrados no álbum anterior e é considerado por muitos, a obra-prima do Blue Cheer. Neste segundo LP, o grupo deu uma evoluída, injetando uma certa dose de lisérgica aos temas, sem no entanto, perder o punch e a agressividade. O disco ainda trás inacreditáveis versões para "(I Can't Get No) Satisfaction", dos Stones e "The Hunter", do bluesman Albert King.



Outsideinside também marca o fim da primeira fase do grupo, com a saída do guitarrista Leigh Stevens. A partir daí, Peterson e sua gangue prosseguiriam por mais algum tempo, até meados de 1971, com uma rotatividade de músicos absurda, em discos cada vez mais distantes da sonoridade original. Dentre os discos lançados pela grupo durante este período, o melhor talvez seja o LP New! Improved!, terceiro álbum da banda, que conta com o legendário guitarrista do Other Half, Randy Holden (músico homenageado pelo Mudhoney em "Holden").

Em 1979, Peterson fez uma frustrada tentativa de revival, reativando o conjunto com outros músicos, no entanto, a coisa só vingou (ainda que relativamente) por volta de 1984, quando o baixista conseguiu convencer ao menos um dos integrantes originais a aderir ao projeto, o baterista Paul Whaley. Desta associação saiu o pouco expressivo The Beast Is Back (1985), seguido pelo ao vivo Blitzkrieg in Nüremberg' (1989), Highlight And Lowlives (1990), e algumas coletâneas e bootlegs. Em 1999 é a vez de outro álbum ao vivo, Hello Tokyo, Bye Bye Osaka. O último trabalho gravado em estúdio, What Doesn't Kill You, saiu em 2007. Não é nenhuma obra prima, mas ao menos mostra que os velhinhos ainda tem muita lenha pra queimar. Enfim, o menino Dickie Peterson e seus comparsas continuam aí em plena atividade, com sua eterna fama de mau, em shows tão ruidosos e barulhentos quanto os dos early years. Se aposentar pra quê, né?



Discografia selecionada

Blue Cheer - Vincebus Eruptun (1968)
Blue Cheer - Outsideinside (1968)
Blue Cheer - Denver Family Dog (1968)
Blue Cheer - New! Improved! (1969)
Blue Cheer - Hello Tokyo, Bye Bye Osaka (1999)

Blue Cheet - What Doesn't Kill You (2007)


BLUE EXPLOSION: A TRIBUTE TO BLUE CHEER (2000)

Blue Explosion é um disco tributo que traz em suas 16 faixas, bandas obscuras do chamado Stoner Rock empetrepando clássicos do power trio californiano Blue Cheer. É bem verdade que em discos desse tipo seja normal uma banda ou outra comprometer o resultado final, mas aqui, todos os participantes contribuíram com boas versões para algumas das músicas desta banda seminal, que ajudou a definir o conceito de rock pesado ainda nos anos 60.

Link: Blue Explosion Tribute To Blue Cheer (2000)

segunda-feira, 27 de julho de 2009

WHERE THE PYRAMID MEETS THE EYE: A TRIBUTE TO ROKY ERICKSON (1990)

Where The Pyramid Meets The Eye é um disco em homenagem a Roky Erickson, o gênio visionário do grupo psicodélico sessentista 13th Floor Elevators. Neste interessantíssimo álbum tributo, artistas como Richard Lloyd, R.E.M., Jesus and Mary Chains, Primal Scream e Butthole Surfers, comparecem em intrigantes versões para algumas das maravilhas criadas por Erickson em sua acidentada, porém brilhante trajetória.

sábado, 25 de julho de 2009

BUTTHOLE SURFERS: HAIRWAY TO STEVEN (Touch and Go)

Clássico do rock alternativo americano, Hairway To Steven é o sexto disco do demente grupo texano Butthole Surfers. O título deste álbum é um trocadilho infame com a famigerada "Stairway To Heaven" do Led Zeppelin, e a profusão de absurdos cometidos por estas criaturas neste LP é simplesmente inacreditável!

Formado por Gibby Haynes e pelo guitarrista Paul Leary, em San Antonio, Texas, em meados de 1981, os "surfistas do olho do cu" já passaram por inúmeras formações, mas sempre mantiveram como núcleo Haynes, Leary e o baterista King Coffey, que os acompanha desde 1983.

Sobre o curioso nome da banda Paul Leary certa vez revelou: "Butthole Surfers era o nome de uma música nossa. Sempre tivemos nomes estúpidos, primeiro Dick Clark Five, depois Vodka Family Winstons e Ashtray Baby Heads. Um dia fomos tocar num clube e o apresentador não sabia o nosso nome. Nessa época era Right To Eat Fred Astaire’s Asshole (O direito de comer o cu de Fred Astaire). Ele olhou para a lista de músicas e leu o nome da primeira música que viu... 'Butthole Surfers'. Nesse show ganhamos 150 dólares, então achamos que seria legal manter o nome."



Na época do lançamento de Hairway To Steven, o Butthole Surfers estava num ritmo alucinado de shows onde toda sorte de bizarrices acontecia no palco. Neste contexto, Hairway acaba sendo um disco que captura bem toda essa porra-louquice musical, num registro onde os caras levam aos extremos as já famosas barbaridades tramadas em estúdio. A cada faixa uma nova surpresa - em cada tema uma diferente manifestação do notável desequilíbrio mental desse bando que conseguiu como ninguém, fazer dos mais ultrajantes signos do mau gosto, pura arte.

Link: Butthole Surfers - Hairway To Steven (1988)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

BLACK FUTURE: EU SOU O RIO (1988)

O Black Future surgiu no underground brasileiro dos anos 80 com uma inusitada concepção estética: uma estranha simbiose que mistura histórias em quadrinhos, Antonin Artaud e ideologia punk, em contundentes letras-poema declamadas sob uma base instrumental sem pares. Neste sensacional disco de estréia, lançado em 1988, e produzido pelo músico e crítico musical Thomas Pappon, o grupo carioca injeta atitude punk e experimentalismos eletrônicos em seu samba-noise assessorado por membros do Ira!, Defalla, Fellini, Kongo, Coquetel Molotov e Titãs.

Link: Black Future - Eu Sou O Rio (1988)