Scott-Heron surgiu no cenário musical norte-americano num período de grande turbulência. Aos 21 anos, ele já havia percebido que os paradigmas da comunidade negra dos anos 60 estavam se esvaindo em contradições e incompatibilidades ideológicas. A movimentação pelos direitos civis estava por um fio, assim como a milícia revolucionária dos Panteras Negras, que começava a se desestruturar com as constantes ofensivas do F.B.I. durante a gestão de crápulas como Richard Nixon e Spiro Agnew. A disseminação das drogas nos guetos das grandes metrópoles – segundo teorias conspiratórias, obra da C.I.A. – se encarregou do resto do serviço. Em letras e poesias repletas de observações agudas sobre essa realidade, o jovem Gil Scott-Heron tecia versos afiados com acompanhamento de percussão, tornando-se um dos “pais” do que posteriormente ficaria conhecido como rap.
O artista nasceu em Chicago, Illinois, no dia 1º de abril de 1949. Seu pai, Giles “Gil” Heron, era um jogador de futebol de origem jamaicana, também chamado de “The Black Arrow”, e foi um dos primeiros atletas negros a jogar pelo Glasgow’s Celtic Football Club nos anos 50. Sua mãe, Bobbie Scott-Heron, era uma acadêmica
em Biblioteconomia. O primeiro baque na vida do pequeno Heron aconteceu ainda na infância, quando seus pais se separaram e ele foi viver com a avó materna, Lillie Scott, em Lincon, no Tennessee. Dela absorveu a paixão pela poesia e pela música, aprendendo a tocar piano e cultivando fervorosa admiração pelo blues, pelo jazz e pelo soul.
Na escola, porém, Heron sentiu na pele a estupidez do preconceito racial. Não era nada fácil ser um menino negro no sul dos EUA dos anos 50. Na qualidade de uma das três únicas crianças negras da escola primária de Jackson, ele sofreu perseguições constantes por parte dos garotos brancos de lá. Mas o pior ainda estava por vir.

Com a morte da avó, aos 13 anos, Gil Scott-Heron foi viver com a mãe em Nova York, onde conheceu a violência de perto, em meio a um ambiente de explosiva multiplicidade étnica. Guerras entre gangues, tráfico de drogas e repressão policial faziam parte de um cotidiano onde negros e imigrantes penavam para sobreviver. Foi nesse depósito humano, entre o Harlem, o Bronx e a vizinhança hispânica de Chelsea, que Heron transitou e onde foi capturando os flashes de realidade que posteriormente serviriam de matéria-prima para sua verve literária.

Aluno brilhante, na escola particular onde estudou durante a adolescência se dedicou a pesquisas sobre a produção de autores brancos como Agatha Christie, Erle Stanley Gardney e Raymond Chandler, mas sua grande influência foi o poeta negro Langton Hughes. Em 1968, então com 19 anos, ganhou uma bolsa para a Universidade Lincoln, na Pennsylvania, onde conheceu Brian Jackson, multi-instrumentista com quem, durante boa parte da década de 70, estabeleceria uma frutífera parceria musical.

Na Lincoln, durante as horas vagas o estudante trabalhava num romance, uma história sobre assassinato ambientada nos guetos de Nova York. A obra viria a ser seu primeiro livro,
The Vulture (
Abutre, lançado em 2002 no Brasil, pela Conrad), publicado originalmente em 1970. Para se concentrar com exclusividade na finalização do projeto, Heron trancou o curso na faculdade, pois achava que o resto de sua vida dependia da conclusão desse trabalho.
Abutre foi muito bem recebido pela crítica à época e, num curto intervalo de tempo, mais um de seus trabalhos foi publicado. Dessa vez um livro de poesias,
A New Black Poet: Small Talk at 125th & Lenox, seguido por um álbum de mesmo nome lançado pelo selo Flying Dutchman do renomado produtor de jazz Bob Thiele – o disco trazia poemas declamados com vocalizações “proto-rap” acompanhadas por percussão afro, as quais ofereciam as bases para o que mais tarde seria conhecido como “rhythm and poetry”, ou seja, o rap.
Em 1971, chega às lojas o segundo álbum de Heron,
Pieces Of A Man, gravado com feras como Ron Carter (baixo), Bernard “Pretty” Purdie (bateria), Hubert Laws (flauta/sax) e o amigo dos tempos de faculdade Brian Jackson (piano). Nele, o cantor incorpora elementos de jazz, soul e blues em canções como a faixa título, na belíssima “Lady Day and John Coltrane” e no manifesto “The Revolution Will Not Be Televised”. O contrato com o produtor Bob Thiele e a Flying Dutchman renderia mais um LP:
Free Will, de 1972.

Nesse mesmo ano é publicado seu segundo e último romance,
The Nigger Factory, algo como “A Fábrica de Crioulos”, em livre tradução. Em 1974, Scott-Heron registra com Brian Jackson o refinado
Winter in America. Com um bom contrato de gravação assinado em 1975 com a Arista (nova gravadora do gigante da indústria do disco Clive Davis), a dupla funda uma nova formação, a Midnight Band, e lança uma série de álbuns antológicos ao longo dos anos 70.
A parceria com Jackson finda em 1978, quando nosso herói passa a trabalhar com o tarimbado produtor Malcolm Cecil, que assinou os melhores de Steve Wonder. O primeiro single gravado com Cecil, “A Bottle”, foi seu maior êxito comercial. Os temas agora enfocados são a Guerra Fria, o apartheid e o panorama sociopolítico do Terceiro Mundo. No geral, porém, os anos 80 não foram um período muito favorável para o letrista.

Como bem sintetizou o crítico e escritor Alex Antunes no prefácio da edição nacional de Abutre, a década de 80 foi uma “época em que a caretice yuppie grassou e desgraçou a cultura pop”. Ainda assim, o músico lançou pelo menos quatro excelentes discos, projetando sua artilharia em direção à política conservadora do então presidente dos EUA, Ronald Regan, atacado ferozmente em singles como “R&B hits”, “B Movie” e “Re-Ron”. Foi assim até o álbum
Moving Target, de 1982. Depois disso, Gil amargou um período de ostracismo de cerca de uma década, sem contrato de gravação e apresentando-se esporadicamente com a banda Amnesia Express. Nesse ínterim, sua música sobreviveu nos samples de rappers como A Tribe Called Quest, P.M. Dawn, e KRS-One.

Em 1994, o artista retorna à lida criativa com o festejado
Spirits, cuja faixa de abertura, “Message To The Messengers”, é um categórico puxão de orelha na geração gangsta. No ano seguinte, seus dois primeiros livros são relançados pela editora escocesa Payback Press (especializada em literatura afro-americana e detentora dos direitos de publicação das obras de Scott-Heron). Foi esse relançamento, pela Payback Press, que tornou possível a publicação de Abutre no Brasil.

Em 2001, após outro longo hiato pontuado por queixas de agressão, especialmente de sua ex-esposa, excessos e outras degradações – casos que invariavelmente o lavavam a “visitas” a penitenciárias –, Heron voltou a se apresentar ao vivo, para em novembro daquele ano ser trancafiado mais uma vez por uma juíza da Suprema Corte de Nova York, ao ser apanhado durante uma batida em Manhattan portando cocaína e crack – pena aumentada por seu mau comportamento na Corte no dia do julgamento.

“Eu imaginei que ia pegar uns 30 dias e isto era o que era esperado, mas a juíza fez uma intervenção e preferiu trocar o julgamento para crime grave. Ela recomendou um programa especial para mim e eu pedi para ela sair fora. Então, com essa reação, desrespeitei a Corte, acrescentado mais um agravo ao que já estava acontecendo. Bom, eu concordei que tinha sido desrespeitoso e recebi mais uma condenação. Quer dizer, as coisas foram indo de mau a pior”. Agora em liberdade e com novo disco na praça, o artista retoma seus trabalhos com fôlego renovado, excursionando por toda a Europa e Estados Unidos.